As alterações ao trânsito na Avenida da Liberdade, condicionando o acesso automóvel à artéria, foram ontem alvo de elogio, durante um encontro organizado Centro de Informação Urbana de Lisboa, que envolveu os principais agentes económicos com actividade nesta zona de Lisboa.

 

“Sem dúvida que concordo que o estacionamento automóvel na avenida deve ser fortemente penalizado. Deve ser caro, mas deve existir como alternativa. Devemos dar prioridade aos espaçs verdes e à circulação de pessoas”, propôs Cataria Lopes, da EastBank, uma empresa de origem norte-americana ligada ao sector do imobiliário e a desenvolver um projeto de reabilitação de alguns palacetes junto ao Jardim Botânico (Príncipe Real), pelo traço do arquiteto Souto Moura. Na Avenida de Liberdade, a empresa é proprietária de 25 lojas. O seu volume de negócios atinge os 50 milhões de euros.

 

Esta opinião foi partilhada por Teresa Vilaça, da associação Passeio Público, que reúne uma parte significativa dos lojistas da avenida, que realçou: “Precisamos de dinamizar o espaço, organizando eventos culturais que tragam mais visitas e clientes a uma avenida que é um destino de luxo”.

 
Neste ciclo de conferências sobre urbanismo, organizado pelo Centro de Informação Urbana de Lisboa, foi referido que as lojas em questão são frequentadas principalmente por angolanos, brasileiros, chineses e russos.

 

O luxo das lojas na artéria, contudo, contrasta com o facto de a zona ser um dos principais locais de pernoita dos que vivem na rua. “A questão dos sem-abrigo é um problema delicado. Estamos a tentar encaminhá-los para instituições próprias, mas não temos conseguido”, disse Teresa Vilaça.

 
A questão de reabilitação dos edifícios foi igualmente abordada. Paulo Dias, da empresa de produção de espetáculos UAU, que em 2011 adquiriu o Teatro Tivoli, revelou que o projeto de recuperação vai respeitar a traça histórica do prédio, com quase 90 anos, estando em estudo a possibilidade de promover visitas às suas instalações.

 

O Tivoli, projetado pelo arquiteto Raúl Lino, foi o primeiro cinema de Lisboa, estando classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1997. “Talvez a partir de Outubro tenhamos visitas ao edifício”. O Tivoli surge nalguns folhetos internacionais sobre Lisboa como exemplo do estilo neoclássico a visitar. “Temos diariamente dezenas de turistas a passar ao nosso lado e temos de saber como aproveitar a sua presença”, salientou ainda Paulo Dias, admitindo igualmente que o Tivoli poderá abrir à tarde para sessões de fado.

 

“A reabilitação e a conservação do património não são para conservar em formol”, disse Manuel Salgado, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, sublinhando a necessidade de os processos de regeneração do tecido urbano serem feito em conjunto com todas as partes envolvidas.

 
O arquiteto Flávio Lopes, da Direcção-Geral do Património Cultural, explicou que está em curso um processo de classificação de Avenida de Liberdade, desde 1989, de forma a “tentar conseguir o equilíbrio de permanência entre o passado e o futuro”.

 

A avenida ocupa 1,2 hectares, onde se destacam os ulmeiros (únicos em Lisboa), os plátanos ou as palmeiras das Canárias, recentemente atacadas por uma praga. Foi projetada no final do XIX pelo engenheiro Frederico Ressano Garcia, então responsável da Direção Técnica de Obras Públicas da autarquia.

 
Texto: Mário de Carvalho  Fotografia: David Clifford

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