O dia 7 de Julho de 2014 está bem presente na memória dos comerciantes da Calçada da Ajuda. Foi nessa data que se iniciou a obra de reabilitação da extensa rua que, partindo da zona de Belém, trepa colina em direcção ao Palácio da Ajuda, a cargo da empresa municipal Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) Lisboa Ocidental.

 

Numa primeira fase, os trabalhos abrangeram o troço entre os cruzamentos com a Rua João de Almeida e a Rua da Bica do Marquês, onde se concentra a quase totalidade das lojas, impedindo o trânsito automóvel e dificultando até a passagem de peões, com consequências desastrosas para o negócio. Os comerciantes queixam-se de prejuízos superiores a 50 por cento e dizem recear que a obra não esteja concluída no início de Março, a data prometida pela SRU.

 

O presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, José António Videira, partilha dos mesmos receios e admite que tem havido “problemas” com a obra. “Falta sincronização entre os operadores de subsolo, houve atrasos decorrentes das chuvas que caíram em Novembro. Por vezes, há a percepção de que não há ninguém a trabalhar e começo a desconfiar de que os prazos não se vão cumprir. Os prejuízos dos comerciantes são muito elevados”.

 

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Fernanda Sobral, da Papelaria Montes Claros, afirma, por sua vez: “A descoordenação é incrível. Ainda ontem, no passeio mesmo aqui em frente, andava um cilindro a calcar o pavimento, hoje vieram escavar tudo, está ali o buraco. Inicialmente, disseram que dividiam a rua em subtroços, o que facilitaria as coisas, porque o trânsito podia continuar a circular. Mas, de repente, começaram a romper tudo com as máquinas, disseram que era melhor assim, que fariam um reforço das equipas e que, no Natal, isto já estaria composto. Mas nada disso aconteceu”.

 

A comerciante fala ainda no aumento da insegurança. “À noite, não há ninguém na rua. É difícil, até para as pessoas, andar por aqui. O autocarro 729 deixou de passar na rua, sem gente e sem carros a passar, é um sossego para os ladrões. Pela primeira vez, tentaram assaltar a minha papelaria, usaram um pé de cabra, só que não chegaram a entrar, a porta aguentou-se. Os assaltantes estiveram aqui desde as 2h22 até às 3h39 e ninguém os incomodou, está tudo filmado pelas câmaras de vigilância da loja”.

 

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Jorge Varela, dono da Churrasqueira do Marquês, sublinha que o seu negócio tem sido “bastante prejudicado” e fala do “pouco planeamento” da obra. “Era para ter começado ao fundo da Calçada da Ajuda. Mas não foi possível, havia uma obra mal acabada da Simtejo, num colector, lá em baixo em Belém. Percebemos isso, mas achamos que devia ter começado pela parte de cima da rua, onde não há comércio. Avisaram-nos a meio de Junho que a obra ia começar no princípio de Julho. No planeamento inicial, de acordo com os prazos que nos foram dados, tínhamos conseguido distribuir as férias dos empregados. Mas tudo falhou. Enquanto foi possível trabalhar, eles estavam de férias, voltaram quando já não havia clientes”.

 

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Como exemplo da descoordenação dos trabalhos, refere o caso de um prédio ao lado, que está em obras e tem a fachada tapada por um andaime que ocupa o passeio. “O dono da obra diz que pagou as licenças do andaime à Câmara e que não o tira enquanto não acabar, mas, se ele não tirar o andaime, a obra na rua tem que parar”.

 

O Corvo falou ainda com Jorge Anjo, do Mini-mercado S. José, que se mostra muito preocupado com o futuro. “Não sei como me vou aguentar, como vou pagar aos meus empregados, no fim do mês, com os prejuízos que tenho tido e que rondam os 50 por cento. A rua está um desastre, não sei quando é que as obras vão acabar, o planeamento é terrível.

 

Este comerciante queixa-se ainda do planeamento dos trabalhos. “Todo o comércio da Calçada da Ajuda se concentra no troço que está aberto. Dado o impacto que isto tudo está a ter nos negócios, podiam os responsáveis da SRU podiam falar connosco, mas ignoram-nos por completo. Até compreendo que seja preciso fazer a obra, mas por causa do acesso às lojas, as descargas são um problema e as pessoas dificilmente aqui chegam, temos que ajudar os fregueses idosos, que são quase todos aqui, a ultrapassar obstáculos na rua. Uma sugestão que faço é que nos impostos que vamos pagar este ano esteja reflectido o prejuízo que temos tido com as obras”, diz.

 

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O Corvo falou com a SRU Lisboa Ocidental sobre este rol de queixas. Em resposta, por escrito, Teresa do Passo, presidente do Conselho de Administração da SRU, informou que a obra decorre “com normalidade”, obedecendo aos prazos e planeamento previstos, e negou haver descoordenação.

 

“Os operadores de subsolo estão coordenados entre si e o ritmo dos trabalhos é o definido pelo empreiteiro para concluir esta fase no prazo contratual (março de 2015)”, afirma o comunicado, que refere ter havido, a pedido dos comerciantes, “um aparente abrandamento do ritmo da obra, durante a época natalícia”, para facilitar “a circulação pedonal nos passeios e na faixa de rodagem”.

 

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“A empreitada em questão tem como objeto a reabilitação integral da Calçada da Ajuda e foi dividida em três fases. Este faseamento foi definido como o mais adequado, tendo em consideração diversos fatores, como a otimização dos desvios do trânsito (de veículos privados e de transportes públicos) e a escala adequada para as intervenções das concessionárias e para a reabilitação das infraestruturas de saneamento”, sublinha ainda a SRU.

 

Texto: Isabel Braga          Fotografias: Paula Ferreira

 

  • José António Estorninho
    Responder

    enfim…

  • Paulo Ramos
    Responder

    Investiguem as negociatas que estão e já aconteceram na Ajuda talvez percebam mais o que se passa

  • Nuno Rafacho
    Responder

    …e o pior ainda esta para vir…..

  • camilo figueiredo
    Responder

    trabalhei na calçada da ajuda muitos anos com estes homens que sabiam bem que quando saissem da guarda teriam que deixar esses tais cubiculos a que chamam casa mas nunca se preocuparam em procurar como sempre este País faz as leis e depois não as faz cumprir tanto nesta como em outras situações somos um País do faz de conta
    tenho pena que estejam nesta situação mas nunca fizeram nada para alterar essa situação muitos como eles por lá passaram e foram tratando de arranjar casa para a reforma agora mais dificil resolver esta questão mas que procurem ajuda através dos serviços sociais que poderão se não no todo em parte financiarem um arrendamento que aí na zona nem são assim tão caros como o artigo refere

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