Comerciantes e moradores de Alvalade contra alterações na Avenida da Igreja

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto & Fotografia

MOBILIDADE

Alvalade

4 Maio, 2015

Moradores e comerciantes de Alvalade querem discutir e reavaliar com a Câmara Municipal de Lisboa o projecto “Uma Praça em Cada Bairro”, que vai reduzir a circulação na Avenida da Igreja e nas transversais, o que, temem, signifique “a morte anunciada do pequeno comércio”. Mais de 600 pessoas subscreveram já um abaixo-assinado contra a proposta da autarquia.

É certo que a circulação no bairro de Alvalade é complicada e que, a determinadas horas do dia, o estacionamento em segunda fila é já um hábito adquirido em diversas vias. Mas a proposta que a Câmara Municipal de Lisboa quer “experimentar” na Avenida da Igreja e nas perpendiculares, mudando o perfil da via principal, onde deverá reduzir drasticamente a circulação automóvel e colocar estacionamento em espinha, está a provocar polémica e a suscitar o desagrado de comerciantes e moradores.

Muitos deles já subscreveram um abaixo-assinado, que foi distribuído em várias lojas da Avenida da Igreja e das transversais. O documento tem merecido o apoio de centenas de pessoas, não só de moradores e proprietários de estabelecimentos, como dos que visitam o bairro e são clientes do comércio de Alvalade.


Na semana passada, mais de 600 pessoas haviam já subscrito o abaixo-assinado. Nele, manifestam “desagrado e preocupação face às notícias vindas a público” sobre as alterações que a câmara pretende introduzir na Avenida da Igreja e adjacentes. E pedem a reavaliação do projecto, inserido no programa “Uma praça em cada bairro”, que a autarquia está a levar a cabo em várias zonas da cidade. Querem também ser ouvidas sobre as mudanças propostas na circulação viária, nos fluxos de trânsito, no estacionamento e no reperfilamento da avenida – as áreas em que o projecto se propõe intervir.

A maior parte das pessoas que residem ou trabalham no bairro diz ter sido apanhada de surpresa pela proposta camarária e lamenta não ter tido conhecimento da sessão realizada dia 26 de Fevereiro, nas instalações da junta de freguesia, onde o projecto foi apresentado.

Só após insistência do Movimento Comércio de Alvalade, que, a pedido dos comerciantes, solicitou à junta dados sobre a proposta, lhes foi possível aceder às plantas, as únicas peças do processo que foram distribuídas, já em Abril.

Pela leitura das mesmas, constata-se que a circulação será reduzida a apenas duas vias na Avenida da Igreja, onde passará a haver estacionamento em espinha. O projecto terá uma fase experimental, na qual se ensairá a redução do canal de trânsito a duas vias (das quatro actualmente existentes), que será acompanhada por alterações aos sentidos do trânsito e por um alargamento da área pedonal, na zona da avenida compreendida entre a Rua Marquesa de Alorna e a Rua José Duro, transversais da via principal.

Nesse troço da avenida, só poderão passar os transportes públicos (o 755 e os autocarros turísticos), as cargas e descargas e o trânsito local que se dirija às artérias perpendiculares. O restante tráfego será desviado para duas ruas paralelas à avenida, a Rua Luís Augusto Palmeirim, onde existe a escola básica Eugénio dos Santos, e a Rua Maria Amália Vaz de Carvalho, onde funciona a escola secundária Rainha Dona Leonor, estabelecimentos que geram já fluxos de trânsito consideráveis.

Numa segunda fase do projecto, numa zona anexa ao Mercado de Alvalade, será construído um parque de estacionamento com 220 lugares, “que se supõe que será subterrâneo, o que não é esclarecido pela documentação distribuída”, referem vários comerciantes.

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“Dá a sensação de que quem fez este projecto não conhece a realidade de Alvalade. Isto não parece fazer sentido nenhum. Alargar os passeios aqui, onde eles até são bons. Porquê? Acabar com a circulação nesta zona e fazer um estacionamento lá em cima, longe do comércio da Avenida? Isso é afastar ainda mais os clientes”, disse ao Corvo Diamantino Ferreira, proprietário da perfumaria Celta, estabelecida há 62 anos em Alvalade.

“É verdade que, quando o bairro nasceu, os passeios da Avenida da Igreja eram mais largos, tinham mais dois metros, mas há 60 anos não havia na cidade tanto trânsito. Querer escoá-lo agora para ruas como a Luís Augusto Palmerim, que tem já imenso movimento e onde há uma escola, ou para a Maria Amália Vaz de Carvalho, onde há outra escola, parece-me descabido”, salienta Diamantino Ferreira.

“E quem venha às farmácias da avenida, que são seis, não pode parar o carro aqui, tem de ir deixá-lo no estacionamento do mercado e vir à avenida a pé? Também não me parece lógico”, questionou ainda este comerciante, para quem tem havido “falta de transparência” neste processo.

O mesmo entende Alexandre Cabral Ribeiro, morador da Avenida da Igreja, que, como muitos outros residentes, não foi informado da reunião de apresentação da proposta “Uma Praça em Cada Bairro”. Para este residente, “o projecto só pode ter sido feito por alguém que não conhece o bairro”. Mas o que o indigna é que seja agora “apresentado como uma imposição, um facto consumado e uma verdade absoluta, sem margem para alterações”.

“Alargar os passeios não seria necessário, bastava que a câmara e a junta não deixassem o espaço ser ocupado por tantos mupis. O que autorizam de mupis é que é escandaloso. Há zonas onde permitem a existência de esplanadas fechadas e mesmo ao lado delas mupis. Esse sim, é um problema”, sustenta Alexandre Ribeiro.

Colocar estacionamento em espinha na Avenida da Igreja é, em seu entender, dar-lhe um estatuto secundário, o que acha que é mau, e não só em termos do impacto visual. “Quando a EMEL colocou o estacionamento em espinha nas transversais, isso já prejudicou o funcionamento do bairro e o comércio. Fazê-lo na avenida é pior ainda”.

“Não se consegue perceber o alcance destas medidas, nem que interesses defendem, porque afinal não são os interesses dos moradores, nem dos comerciantes”, que são quem habita o bairro e lhe dá vida, acrescenta este morador.

Preocupado está igualmente Luís Miguel, comerciante estabelecido na Rua José D’Esaguy, uma transversal à avenida, onde tem a loja “Contas e Berloques”, que considera não ter sido ainda devidamente esclarecido sobre este projecto.

Também não foi informado sobre a reunião de 26 de Fevereiro, mas acha que “não basta haver um convite informal para um encontro na junta, onde um arquitecto apresenta um projecto, para ele ficar automaticamente em condições de ser executado. Tem de haver uma discussão pública alargada”, defende.

Comerciantes e moradores de Alvalade contra alterações na Avenida da Igreja

As plantas com as propostas da câmara estão a suscitar polémica junto da comunidade.

Pela leitura das plantas divulgadas, diz, “nem sequer se percebe, porque não é explícito, o que vai acontecer em matéria de circulação nas transversais à avenida. Vai ser interditada ao trânsito? E como é que eu trago no meu carro o material para a minha loja?”, questiona.

 

Se o projecto for para a frente nesses termos, diz, “terei de considerar se posso ou não manter o estabelecimento” na Rua José D’Esaguy. “Temo que não”, afirma. O mesmo receia Rute Rosa, da ourivesaria City Gold, na mesma rua, salientando ter ainda pouca informação. “Se, de facto, retirarem a circulação, isso vai matar o comércio das transversais”, sustenta.

 

Também os subscritores do abaixo-assinado consideram que a proposta terá impactos negativos no comércio, já por si fragilizado. “Esta alteração poderá condicionar em muito a circulação de pessoas e de viaturas afectas a não residentes, o que provavelmente fará reduzir as vendas dos comerciantes ali estabelecidos”, dizem os moradores e comerciantes que subscreveram o documento.

 

“Estamos certos que o estacionamento só destinado a residentes na zona envolvente à Avenida da Igreja será a “morte anunciada” de muito do pequeno comércio”, sustentam ainda os subscritores do documento a entregar à câmara e à junta de freguesia.

 

Solicitam pois que “o projecto seja reavaliado e discutido num fórum mais alargado com a presença de comerciantes e moradores, de modo a aferir o impacto comercial e a viabilidade de muitos investimentos realizados, que geram vários postos de trabalho”.

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