Comerciantes de Benfica pedem mais atenção e lembram que também fazem parte de Lisboa

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Benfica

5 Julho, 2018

“Todos os eventos organizados pela Junta de Freguesia de Benfica acontecem sempre nos mesmos sítios, junto à Igreja de Benfica ou ao Mercado de Benfica. Este ano, nos Santos Populares, fecharam uma rua e fizeram lá a festa”, comenta uma funcionária da Papelaria Lusitano, instalada na Avenida do Uruguai há 43 anos. A lojista sente que há “muito menos movimento” numa das principais artérias do bairro e, descontente, assinou a petição “Benfica é Lisboa, em defesa do comércio tradicional de Benfica e da identidade local”, redigida por um grupo de comerciantes e moradores. Os peticionários querem que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) comece a incluir Benfica na programação cultural da cidade e que a freguesia volte a ter iluminações de Natal, retiradas em 2016, pondo um ponto final ao que consideram ser “uma injustiça e um tratamento desigual numa Lisboa que precisa de todos”.

No passado mês de Junho, fecharam duas lojas na Avenida do Uruguai: uma retrosaria e uma loja de roupa de criança. Em Setembro, uma perfumaria também cessará actividade. “Os encerramentos devem-se ao aumento das rendas, mas também à diminuição do movimento nas ruas. Não tem sido feito nada para atrair mais pessoas. Sentimo-nos esquecidos”, comenta ainda a lojista. Maria Luísa Cardoso, 66 anos, moradora há 45 anos, está mais revoltada com a falta de luzes natalícias. “A Avenida do Uruguai está votada ao esquecimento. O Natal para mim já é triste e, sem luzes, ainda é mais. As actividades da Junta de Freguesia só acontecem no Palácio Baldaya, para aqui não se passa nada”, lamenta, enquanto compra o jornal na papelaria Lusitano. Na Ourivesaria Graziela, na Avenida Gomes Pereira, uma funcionária partilha a mesma opinião. “A presidente da Junta de Freguesia de Benfica não liga muito a estas ruas. Nos Santos Populares, não houve nada aqui, só para o lado do Palácio Baldaya, estamos insatisfeitos”, comenta.

Na livraria Ulmeiro, com fim anunciado mais do que uma vez, Lúcia Ribeiro surge no meio de milhares de livros empilhados no chão por falta de espaço. “Deviam divulgar mais o livro, a livraria mantém-se de pé graças a muito trabalho nosso”, afirma, para logo de seguida perder-se em histórias daquela casa. “As pessoas oferecem-nos muitos livros e já não temos espaço para os pôr. O que nos vale são os clientes, que ainda nos estimam. É com eles que podemos contar”, afirma. Na Estrada de Benfica, sente-se mais movimento, mas há lojas onde poucos entram. Natália Correia, 54 anos, começou por vender sapatos e malas. Agora, só se dedica à venda de usados e velharias. Para esta lojista, a falta de clientes deve-se ao envelhecimento da população, mas também ao preço das casas, “um balúrdio que não atrai ninguém a viver na freguesia”, diz. “Precisamos de mais clientes e que os mais novos não vão só para o Centro Comercial Colombo. No Natal, nem parece que estamos numa época festiva, não há luz. Nada atrai as pessoas a virem”, acrescenta.

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Também a Junta de Freguesia reconhece ser necessário atrair mais gente para o comércio de Benfica

Os peticionários dizem que não podem continuar “a tolerar que a Câmara Municipal de Lisboa e o seu presidente, bem como outras entidades sob gestão municipal, ignorem sistematicamente esta zona da cidade”. Na subscrição, submetida no passado dia 22 de Maio à Assembleia Municipal de Lisboa (AML), por 477 pessoas, elogiam a “ecléctica oferta de comércio tradicional” de Benfica que, nos últimos anos, “tem sobrevivido e superado inúmeras dificuldades, mantendo a qualidade dos seus serviços e dos seus produtos, sendo uma referência na cidade”. Por este motivo, consideram que mereciam mais atenção. “Compreendemos que, com os muitos turistas que visitam a nossa cidade, haja uma tendência de favorecer a zona centro, nomeadamente a Baixa e o Terreiro do Paço, mas a cidade tem outras zonas importantes, onde os moradores vivem e convivem, e que não podem ser desprezadas”, lê-se ainda.


 

Há, também, quem não se reveja nesta petição e até fique surpreendido com o teor da mesma. “Há muitos eventos na freguesia, sinto que tem sido dinamizada e está a crescer”, diz Cristina Costa, 44 anos, cabeleireira na Avenida Gomes Pereira, enquanto as clientes comentam que partilham a mesma opinião. Armando Reis, 72 anos, a trabalhar na Vidreira Central desde os 24 anos, diz que não tem falta de clientes e que a Estrada de Benfica é uma das zonas “mais movimentadas” que conhece. “O comércio local continua a crescer no nosso bairro, sempre foi assim. Não tenho nenhuma razão de queixa”, diz.

 

Desde 2016 que a freguesia não tem iluminação de Natal, uma decisão da Câmara de Lisboa que tem sido contestada pela presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Inês Drummond (PS). “Temos manifestado o nosso inconformismo com a exclusão de Benfica dos territórios escolhidos para a iluminação. Temos insistido junto da CML para que Benfica seja contemplada nesta programação, tendo em consideração a dimensão e pujança do seu comércio local e os impactos positivos que esta iniciativa traz para o mesmo”, garante Inês Drummond, em depoimento escrito a O Corvo. A autarca destaca, porém, que a época natalícia, em Benfica, tem conhecido uma programação variada, animação nas ruas e “a iluminação de Natal possível, asseguradas exclusivamente pela Junta de Freguesia”.

 

Confrontada com as queixas dos lojistas, que se dizem mais esquecidos, Inês Drummond garante que “olha para os comerciantes da sua freguesia como um todo”. “A Avenida do Uruguai é uma das principais artérias da freguesia e tem sido dinamizada, sendo naturalmente incluída em todas as iniciativas dirigidas ao comércio local”, explica, antes de enumerar alguns exemplos dessas actividades. Entre elas, destaca o lançamento do Cartão B, que já ultrapassou as duas centenas de aderentes, a Noite Branca, o Benfica na Rua e o Dia do Comércio. Inês Drummond diz ainda que tem lutado por um “comércio tradicional dinâmico, resiliente e com iniciativa, que conjuga a coexistência de lojas antigas e modernas”.  “Trabalhamos com a ambição de sermos o verdadeiro bairro comercial de Lisboa. Como os comerciantes temos a permanente ambição de querer fazer mais”, conclui.

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