Fernando Medina apresenta “inovador programa de arrendamento a preços controlados para o regresso das famílias a Lisboa”. Objetivo é criar mais de 5000 fogos “para arrendar a preços acessíveis, trazendo de volta à cidade famílias da classe média”. A medida pode, no entanto, pecar por escassez. Isto porque surge num momento em que se tornam evidentes os sinais de que comprar ou arrendar habitação no coração da capital é, cada vez mais, algo só ao alcance das classes altas. Em 2015, o valor das casas vendidas no centro histórico subiu 22,3%.

 

Texto: Samuel Alemão

 

Era uma promessa de Fernando Medina desde o momento em que, há um ano, assumiu funções como presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), substituindo António Costa no cargo. A autarquia da capital apresenta, nesta quarta-feira (6 de abril), o Programa Renda Acessível, anunciado como “um projeto inovador (…) que tem como objetivo – através de parcerias da CML com o setor privado – dinamizar a construção de habitação a preços acessíveis, direcionada à classe média”. Será o início de um ambicioso programa que pretende trazer 5 mil famílias de volta à cidade e que começará com um loteamento municipal na Quinta do Marquês de Abrantes e Alfinetes, no Vale de Santo António, em Marvila, com 621 fogos.

 

O programa surge numa altura em que, todavia, são cada vez mais evidentes os sinais de que se está a tornar incomportável para a referida classe média morar na capital portuguesa, sobretudo nas áreas mais consolidadas. Encontrar casa a preços razoáveis nas freguesias centrais de Lisboa tornou-se numa missão de resultados quase sempre decepcionantes. Há mesmo quem fale no surgimento de uma bolha imobiliária, muito impulsionada pelo incremento da actividade turística. Os efeitos desta têm-se feito sentir tanto no crescimento da desejada reabilitação urbanística como dos valores pedidos pelos imóveis – seja para venda ou arrendamento. Os indicadores mais recentes para isso apontam.

 

Na segunda-feira passada (4 de Abril), ficou a saber-se, através do Índice de Preços do Centro Histórico de Lisboa – apresentado pela primeira vez, resulta da colaboração da revista Confidencial Imobiliário com a CML e terá actualizações semestrais –, que os preços das habitações transacionadas nessa área da capital aumentaram 22,3%, em 2015. Tal zona é constituída por 25 bairros, situados nas freguesias da Misericórdia, de Santa Maria Maior e de São Vicente, tendo por base os Núcleos de Interesse Histórico definidos pelo Plano Director Municipal (PDM).

 

“Os dados apurados são inequívocos. O Centro Histórico de Lisboa é o mercado com o maior registo de valorização em 2015, traduzindo a forte procura de que tem sido alvo nos últimos anos”, afirmam os responsáveis pelo estudo, apresentado durante a Semana da Reabilitação Urbana. O preço médio de venda de fogos em prédios reabilitados é de 3.780 euros por metro quadrado. O mesmo estudo observa que o mercado nessa zona “já tinha observado um comportamento positivo entre 2008 e o começo de 2010, valorizando 12,5%”, mas “acabou por ser afetado pela crise financeira, que implicou uma desvalorização do mesmo em 8%”.

 

O mesmo trabalho de pesquisa de mercado regista o facto de o ano passado ter sido aquele que, naquela zona, e desde 2008, registou o maior número de transações de imóveis – desde aquele ano, venderam-se mais de oito mil naquela área da cidade. Só em 2015, no Centro Histórico de Lisboa, verificaram-se 2.199 vendas, num total de 709 milhões de euros. Resultados que representam uma subida de 11% em número e de 37% em montantes transacionados, explica o levantamento, que dá conta dos bairros do Chiado, Baixa/Cruzes da Sé e Alfama/Santa Marinha como sendo aqueles onde mais vendas de imóveis se realizaram.

 

“O ano 2013 marcou o começo da recuperação, logo com uma valorização de 12,5%. Seguiu-se um ano de estabilização, com uma queda de 1,3% em 2014 para, finalmente, em 2015, o mercado assumir o potencial de valor que toda a procura lhe vinha imprimindo, valorizando 22,3%”, explica o levantamento feito pela Confidencial Imobiliário, concluindo que “o comportamento dos preços está fortemente ancorado no crescimento da procura comercial e turística e na elevada dinâmica de reabilitação urbana dos últimos anos, que necessariamente contagiam todo o território e potenciam o valor de todos os imóveis na zona”.

 

Uma realidade coincidente com os dados revelados por outro estudo, intitulado “Reabilitação para Uso Residencial em Lisboa”, apresentado a 25 de Fevereiro. Elaborado pela Prime Yield e pela SRS Advogados, conclui que os apartamentos reabilitados nas zonas históricas de Lisboa são 18% a 38% mais caros do que no resto da cidade. De acordo com o estudo, a zona histórica da cidade – compreendendo as áreas da Baixa, do Chiado e da avenida da Liberdade – “é a mais dinâmica na reabilitação para uso residencial, concentrando 67% dos apartamentos atualmente em desenvolvimento em projetos de reabilitação”.

 

Há cerca de um mês, um outro levantamento feito pela Confidencial Imobiliário (CI) dava conta de um outro indicador que apontava para a subida do preço da habitação em Lisboa. De acordo com o SIR – Sistema de Informação Residencial, gerido pelo CI, o preço das casas de luxo da capital havia subido 23%, entre 2013 e 2015 – contrastando tal movimento com a descida de 14% verificada nos três anos anteriores. As zonas do Parque das Nações e da Baixa (abrangendo as freguesias de Santo António, Misericórdia e Santa Maria Maior) concentram 45% das vendas totais de habitação na gama mais alta do mercado, diz o mesmo indicador.

 

  • Bruno Teixeira
    Responder

    Num país onde continua a ser mais barato comprar (e ficar a dever) do que arrendar… deve ser deve… só se for um pacote para encher ainda mais os bolsos dos senhorios que cobram valores incomportáveis para a maioria dos trabalhadores honestos…
    Um quarto a custar quase metade de um salário, T0 ao custo de um salário mínimo… são estes os incentivos às famílias Lisboetas.. e depois querem que a malta contribua para o aumento da taxa de Natalidade… Cambada de hipócritas…só lhes interessa os visto Gold

  • JMF
    Responder

    Em qualquer grande cidade (ou cidade grande!!) pelo mundo fora os indíces de preços do imobiliário variam conforme as várias zonas da cidade em questão… Facto!
    Habitualmente as zonas mais nobres (em que em regra se inserem os centros históricos) estão fora do alcançe das pessoas de rendimentos mais baixos e até de rendimentos médios, com algumas pequenas bolsas que se mantém, de forma muito saudável, e que garantem e sustentam a diversidade… Esta é a fórmula mundialmente testada e demonstrada… Facto!
    Ora Lisboa não é só o centro histórico, e existe ainda uma grande quantidade de imobiliário a preços de arrendamento indiscutivelmente acessíveis e em freguesias do centro da cidade bem servidas de transportes como a Penha de França, Arroios, Alcantara, Beato, etc… Facto!
    Haja por favor alguém que nos elucide em relação aos fundamentos deste aparentemente novo conceito que alguns debatem, de que todos poderiam, ou deveriam, ou teriam mesmo todo o direito de viver barato entre as freguesias de Santa Maria Maior, Misericórdia ou São Vicente?

  • Jorge Matos Ferreira
    Responder

    Em qualquer grande cidade (ou cidade grande!!) pelo mundo fora os indíces de preços do imobiliário variam conforme as várias zonas da cidade em questão… Facto!
    Habitualmente as zonas mais nobres (em que em regra, hoje em dia, se inserem os centros históricos) estão fora do alcançe das pessoas de rendimentos mais baixos e até de rendimentos médios, com algumas pequenas bolsas que se mantém, de forma muito saudável, e que garantem e sustentam a diversidade… Esta é a fórmula mundialmente testada e demonstrada… Facto!
    Ora Lisboa não é só o centro histórico, e existe ainda uma grande quantidade de imobiliário a preços de arrendamento indiscutivelmente acessíveis e em freguesias do centro da cidade bem servidas de transportes como a Penha de França, Arroios, Alcantara, Beato, etc… Facto!
    Haja por favor alguém que nos elucide em relação aos fundamentos deste aparentemente novo conceito que alguns debatem, de que todos poderiam, ou deveriam, ou teriam mesmo todo o direito de viver barato entre as freguesias de Santa Maria Maior, Misericórdia ou São Vicente?

  • Vasco
    Responder

    Será que preço das casas em Lisboa subiu? O que vejo são «rendas congeladas» durante 100 anos a serem actualizadas. Em todas as capitais europeias o centro histórico não é um bairro social.

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com