Clube de strip do Jardim Constantino vira espaço cultural

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Carla Rosado

Fotografia

CULTURA

Arroios

1 Novembro, 2013

Aldeia dos Piratas Associação
Rua Passos Manuel 116 B, Arroios
Horário: 22h-02h

Vindo de Évora, um conjunto de activistas urbanos criou um pólo de animação cultural em Arroios. A Aldeia dos Piratas Associação ocupou o Passerelle 2 e quer agitar a zona. Mais original: promete extinguir-se daqui a dois anos. Onde antes havia grupos de mulheres excitadas com despedidas de solteiras, aparecem jazz, dj’s, tertúlias e curtas-metragens.

As batidas e os graves reverberam pelos recantos da sala. A pista de dança está vazia. Na penumbra, ao balcão e sentadas em sofás encostados à parede, na mezzanine, algumas pessoas conversam. O princípio de noite de um dia a meio da semana não deixa grandes expectativas sobre uma casa cheia. Apesar de aberto a 3 de Outubro, apenas agora, em Novembro, a Aldeia dos Piratas Associação (APA), no Jardim Constantino, na Estefânia, começará a funcionar em pleno. O varão já não ocupa o lugar central na pista de dança do antigo clube de striptease Passerelle. Foi desmontado e encostado a um canto. No seu lugar, há agora lugar para o jazz, as curtas-metragens, as performances artísticas, as tertúlias, as exposições e o que mais surgir. Até porque a quarta-feira será dia livre.

“Queremos que as pessoas se sintam à vontade, como se estivessem na sua sala de jantar”, diz Rui Cancela, 40 anos, o enérgico líder do colectivo responsável pela improvável transformação de uma das filiais de um dos mais conhecidos clubes nocturnos em agremiação cultural-bar com ambições. A ideia é trazer animação e oferta cultural a uma área da cidade “afastada dos circuitos mais in”, explica Rui – apesar de o renovado Intendente fazer agora parte da mesma freguesia de Arroios. A acompanhar esse programa vem uma mais inesperada carta de intenções: dentro de dois anos, a associação extinguir-se-á, abandonando aquele lugar. Pelos menos com estes protagonistas. “O objectivo é isto manter-se depois de irmos embora, queremos fazer com que a relação das pessoas com o espaço se mantenha”, diz.

O prazo de validade é para levar a sério. Na parede, junto ao balcão, um papel anuncia “Faltam 704 dias”. O inusitado da proposta tem que ver com a irrequietude necessária a um projecto desejoso de manter a vitalidade – uma postura comum ao núcleo duro de cinco elementos. “É mais fácil navegar à vista”, admite Rui, entre baforadas ansiosas de cigarro. A duração fixa pretende intensificar os laços estabelecidos entre a APA e a comunidade – “na divulgação de artistas emergentes locais ou proporcionando a possibilidade aos seus associados de conhecerem outros artistas”, lê-se na declaração de intenções exposta no Facebook da associação. “Por outro lado a Mobilidade da A.P.A.faz com que esses laços vinculativos sejam mais tarde extensivos a vários locais, artistas e Comunidades”, acrescentam.

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As tertúlias e o vínculo à comunidade serão pontos fortes desta antiga casa de strip-tease.

O colectivo, que promete levantar âncora do Jardim Constantino a 3 de Outubro de 2015, faz do nomadismo uma das suas imagens de marca. E a prova disso está no facto de Rui e outros dos membros fundadores se prepararem para abandonarem, em Dezembro, a direcção da Sociedade Harmonia Eborense. A conhecida colectividade fundada em 1849, e situada no primeiro andar de um edifício da Praça do Giraldo, a principal da cidade alentejana, foi por eles dirigida a partir do final de 2010. O mandato ainda está a terminar, mas já se envolveram no projecto lisboeta. Antes de sair da capital alentejana, Rui Cancela faz um balanço positivo. “A Harmonia tinha três empregados, quando lá chegámos, agora tem 13”, diz, satifeito com a procura suscitada pela animação cultural do espaço.

É esse dinamismo que quer agora trazer para este bairro de Lisboa. Rui promete insuflar vida nova numa zona da cidade que prima pela pacatez nocturna, em contraste com a agitação e o ruído sentidos durante o dia – é uma área central, densamente habitada, onde se mesclam comércio e serviços. Diz que a ideia é a mesma de Évora. Com a diferença de em Lisboa “ser mais difícil quebrar a informalidade”. Pretende que essa seja uma das imagens de marca da casa. Poderia pensar-se que o nome Piratas era a expressão dessa errância, mas não. Tem uma explicação bem prosaica. “Era o que mais nos agradava dos disponíveis no portal Associação na Hora, quando nos registámos”.

Aberta de terça-feira a sábado, das 22h à 2h, esta “associação cultural e recreativa sem fins lucrativos” terá uma programação mensal, com rubricas fixas. Se as terças serão dedicas às curtas-metragens, já as quartas-feiras serão dias livres, nos quais se apresentarão propostas diversas e multi-disciplinares. As noites de quinta-feira estão guardadas para os concertos de jazz, enquanto as de sexta-feira serão animdas por DJ’s. Aos sábados, haverá concertos. Quem pagar dois euros por mês, além de ter direito a uma imperial, poderá assistir a tudo isto de borla. Com esta política e preços de bar “muito baixos”, o objectivo, para já, “é que isto seja sustentável”.

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