O mais icónico dos espaços para a geração cinéfila dos primeiros anos da democracia portuguesa está a ser desmantelado. O edifício onde funcionava o Cinema Quarteto será, em breve, ocupado por mais uma sala de culto da Igreja Plenitude de Cristo, uma confissão cristã evangélica, cuja sede se situa no edifício mesmo ao lado, no número 14 da Rua Flores de Lima. As obras têm decorrido a bom ritmo, nas últimas semanas. As duas salas do piso inferior, das quatro que constituíam o conjunto, já foram integralmente destruídas e as suas cadeiras deitadas fora. As salas do piso superior foram unidas, após se ter procedido ao derrube da parede que as separava, e albergarão as cerimónias religiosas.

 

O edifício situado junto à Avenida dos Estados Unidos da América, outrora local de peregrinação dos mais exigentes apreciadores de cinema, garantirá, depois das obras de adaptação, a efectiva ampliação das instalações da congregação liderada por um pastor brasileiro – que se recusou a prestar declarações ao Corvo e pediu anonimato, embora o seu nome esteja afixado na parede da igreja, juntamente com o número de telemóvel. Passará, então, a acolher outro tipo de fiéis. O espaço do antigo Quarteto – inaugurado em 21 Novembro de 1975 e encerrado a 16 de Novembro de 2007 – estava para arrendar, e depois para venda, desde o início de 2008. Acabou por encontrar um comprador no vizinho do lado, no final do ano passado. Concretizado o negócio, as obras das adormecidas salas de cinema iniciaram-se, nos primeiros dias de 2014.

 

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Deste lugar com especial significado na memória cinéfila – cujo prédio era propriedade de uma família da região de Tomar -, apenas deverão permanecer as paredes e ainda as cadeiras das suas salas de cima. As pertencentes ao par de salas que existia na cave tiveram de ser enviadas para o lixo, pois estavam completamente estragadas pela humidade. A bomba hidráulica que assegurava a extração da água acumulada nas fundições do edifício – em contacto com um lençol freático – estava, há muito, avariada. Razão pela qual ambas as salas se viram inundadas e o seu recheio inutilizado.

 

O cinema Quarteto fechou em 16 de Novembro de 2007, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC). Falhas de segurança, sobretudo no combate a incêndios, foi o motivo invocado. “Falta um sistema automático de detecção de incêndios, há reposteiros de material altamente inflamável a tapar caminhos de evacuação e revestimentos de paredes e tectos em material também muito inflamável”, disse à Lusa, na altura, Paula Andrade, responsável daquele organismo. A IGAC denunciava também “muita falta de manutenção no recinto, sobretudo ao nível das instalações eléctricas” e garantia que o encerramento duraria “até as anomalias serem corrigidas”. O que nunca veio a suceder.

 

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Na altura, o fundador do cinema, Pedro Bandeira Freire, mostrou o seu desagrado pela forma como a IGAC fora implacável no fecho da mítica sala, onde se deram a conhecer aos lisboetas os nomes mais relevantes da cinematografia mundial, como Rainer Werner Fassbinder, Jacques Rivette, Matin Scorsese, Dusan Makavjev, Jean Luc-Godard, Nagisa Oshima ou Terrence Malick. O empresário, que acusou a entidade estatal de “agir de má fé”, acabou por entregar as chaves do edifício ao senhorio, em Março de 2008. Um mês depois, faleceria, com 68 anos, vítima de um acidente vascular cerebral. E com ele desaparecia uma importante fatia da memória de uma Lisboa boémia, moderna, inconformada e culta, que tentava reiventar o país a partir das Avenidas Novas – da qual faziam parte, entre outros, o escritor Almeida Faria, seu sócio, mas também José Cardoso Pires ou o cineastas Fernando Lopes e João César Monteiro.

 

“O Pedro Bandeira Freire era um homem que tinha duas paixões, o cinema e as namoradas. Ele era um tipo muito atento ao que se passava e foi buscar a Paris este conceito de várias salas num só lugar. Quando viu, gostou tanto que decidiu que tinha de trazer para Lisboa uma coisa destas”, conta a O Corvo o antigo projecionista do Quarteto, Francisco Rodrigues, de 58 anos. Francisco, que trabalhou durante 28 anos no cinema, o qual tinha como lema “quatro salas, quatro filmes”, vê o que se está a passar com mágoa. “Nunca mais quis ir ao cinema”, conta este homem, que, após três anos no desemprego, é agora porteiro de um prédio na Avenida da República. Os novos proprietários ainda lhe deixaram lá ir buscar alguns objectos, recordações de uma era que agora lhe parece remota.

 

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As actuais instalações da igreja, que ficam paredes-meias com o antigo Quarteto.

Texto e fotografias: Samuel Alemão

 

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