Uma espera de anos e um esforço de mobilização que redundaram numa desilusão. Afinal, quase todo o interior do antigo cinema Ódeon, junto aos Restauradores, deverá mesmo ser demolido para dar lugar a um empreendimento imobiliário, que terá como elemento central um centro comercial. Estará assim aberta a porta para a destruição do tecto em madeira tropical, considerado único no país, desta sala inaugurada em 1927.

 

A Direcção Geral do Património Cultural (DGPC) acha que o essencial é manter a fachada do edifício e que, lá dentro, “dado o avançado estado de degradação”, já não será possível preservar mais que o frontão da boca de cena. Por isso, dá luz verde para que se avance para a reconstrução do imóvel, que já não será assim classificado como imóvel de interesse público, como havia sido avaliado entre 2004 e 2009.

 

A informação foi divulgada, este fim-de-semana, pelo blogue do grupo cívico Movimento Fórum Cidadania Lisboa, que publicou a resposta do Ministério da Cultura ao seu apelo, feito a 22 de Abril, para que desencadeasse “os procedimentos urgentes de resgate” da histórica sala de espectáculos, “invertendo, assim, o rastro de indiferença e de ignorância”.

 

Algo que não terá surtido efeito. “Face à impossibilidade de manutenção do interior do edifício, dado o seu avançado estado de degradação, consideramos que o resgatar para a cidade de pelo menos a sua imagem exterior e de alguma memória interior é já uma mais-valia a considerar”, considerou a DGPC, segundo a informação transmitida pela chefe de gabinete do ministro da Cultura.

 

Na mesma informação escrita, reproduzida pelo blogue do Cidadania Lisboa, é explicado que, a 13 de Abril passado, havia dado entrada nos serviços da DGPC um novo Pedido Informação Prévia (PIP) – instrumento apresentado pelos promotores imobiliários sempre que desejam avançar com um novo projecto – para o antigo Ódeon, por o anterior, de 2010, ter entretanto caducado. O que significa que existe, de facto, vontade dos proprietários em prosseguir com o empreendimento.

 

Após analisarem o PIP, os técnicos da direcção-geral emitiram novo despacho de aprovação do projecto imobiliário, condicionado “à preservação das caixilharias/carpintarias dos vãos exteriores do piso térreo nos dois arruamentos (que poderão ser integradas juntamente com as novas caixilharias propostas)”, “à implementação de uma solução com menor expressão nas divisórias entre frações nas varandas existentes nos pisos 1 e 2”, bem como “à execução da caixilharia das novas trapeiras em ferro ou madeira”.

 

Esta decisão, que a DGPC já terá transmitido aos serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa, é fundamentada pelos “antecedentes” processuais – concretamente a “aprovação condicionada, em 27 de Julho de 2010, de uma proposta de alteração do uso, de sala de espetáculos para uma utilização mista com ampliação” -, mas sobretudo devido “ao profundo estado de degradação do imóvel”.

 

Além disso, os responsáveis baseiam ainda a sua decisão no facto de considerarem que estará “garantida a salvaguarda das principais características do edifício, nomeadamente a leitura urbana da imagem do antigo cineteatro” e “no interior, a preservação do frontão da boca de cena (incluindo os seus elementos decorativos e o arranque dos balcões)”. Para os serviços da DGPC, é satisfatório que, no exterior, sejam mantidos não apenas a volumetria como os elementos arquitetónicos e decorativos (corpo de varandas, cantarias, caixilharias e vitrais).

 

Desta forma, reconhece-se a quase inevitabilidade de transformar em centro comercial – com parque de estacionamento subterrâneo – um edifício histórico, inaugurado em 1927 e cujo processo de classificação como imóvel de interesse público chegou a ser aberto, em 2004, pelo antigo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), mas foi arquivado cinco anos depois, pela entidade que lhe sucedeu, o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR).

 

O cinema Ódeon encerrou em meados da década de 90, quando já funcionava apenas como sala de projecção de filmes pornográficos. O primeiro PIP foi aprovado pela Câmara de Lisboa em 2011. Em 2014, chegou a ser discutida, na Assembleia da República, embora sem qualquer conclusão tangível, uma petição solicitando ao Estado Português a preservação desta sala, onde foram estreados em Portugal filmes, hoje considerados clássicos absolutos, de nomes como Erich von Stroeheim, Fritz Lang, Tod Browning, Serguei Eisenstein, George Cukor ou Frank Capra.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Francisco Braz Teixeira
    Responder

    Mais uma loja dos chineses?

  • Joaquim Xavier Lopes
    Responder

    Se for uma loja dos chineses sempre é melhor do que ser mais um edificio devoluto a caminho da ruina, como é agora.

    • Cláudia Rocha
      Responder

      O problema não é o que é agora, é como chegou ao estado de degradação de agora.

      • MANUEL DA COSTA
        Responder

        Esse problema nunca será explicado, pois envolve interesses e incompetências. Pessoas e entidades “intocáveis”, onde a corrupção não é estranha. Vejamos o estado de degradação a que chegou o Conservatório Nacional em Lisboa, e agora o Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Entre tantos casos, estes poderão servir de exemplo.

      • Fátima Gomes
        Responder

        Ora aí está, Claudia!! Uma pergunta muitíssimo pertinente… Se tinha algum tipo de valor (arquitectónico, cultural,etc…) porque carga d’água chegou a este estado?? Somos mesmo um país de atitudes desprezíveis no que toca a valorizar o seu passado. Não dá dinheiro… deita fora!!

    • Joaquim Xavier Lopes
      Responder

      Cláudia Rocha chegou ao que chegou porque todos nós deixámos de ser clientes do espaço e ninguém apresentou nenhum outro projecto de exploração viável do local.
      Tal como deixámos de ser clientes de muitos outros espaços icónicos em Lisboa.

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em centro comercial https://t.co/Lx2giHnZPB #lisboa

  • Dina Paulista
    Responder

    Manda abaixo que atrás vem gente… 🙁

  • Claudia Rocha
    Responder

    Processo de classificação iniciado em 2004, com este resultado em 2016, por entretanto se ter degradado quase… https://t.co/nOHEMEhfhm

  • Mario Fernandes
    Responder

    Um centro comercial e ainda por cima com estacionamento. Coisa tão anos 90.

  • José Artur Barata
    Responder

    Estes políticos de merda só aprovam é centros comerciais….

  • Paula Ribeiro
    Responder

    Nem acredito que ao fim de tanto tempo de espera e angústia,seja esta a escolha final para este edifício histórico da cidade e Lisboa. Esta mais que visto que não há justiça para a justiça! Estamos mesmo pobres de valores! O dinheiro e os interesses de alguns falam mais alto! Que presidente de Câmara de Lisboa e este?!?!

  • Joao Villalobos
    Responder

    Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em centro comercial https://t.co/3FlPK4sM8s

  • Joao Villalobos
    Responder

    Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em centro comercial https://t.co/3FlPK4sM8s

  • Val Cesar
    Responder

    …Tristeza , era mesmo isto que Lisboa estava a precisar

    • Vasco
      Responder

      Tem saudades do cinema porno? Veja na internet.

  • Paula Afonso
    Responder

    Uns criam,com muito orgulho,uma National Trust (uk) com objectivo de preservar o patrimonio, que fazem de forma eficaz, outros,com elevado indice de deficiencia mental, aprovam comerciais… Nasci mesmo no pais errado .

    • Joaquim Xavier Lopes
      Responder

      O Reino Unido cria essas coisas enquanto mantém uma divida externa superior a 9 mil trilhões de dólares.
      É fácil fazer bonito com o dinheiro dos outros, enquanto ninguém nos obrigar a pagar.
      O problema é que não temos dinheiro para mais devaneios e a nós ninguém nos deixa endividar mais.

    • Paula Afonso
      Responder

      Sugiro que primeiro conheca a National Trust.

      • Vasco
        Responder

        E a Fronzen Rents Trust?

  • Jose Delaunay
    Responder
  • Gualter Santos
    Responder

    O Medina e as suas loucuras

  • Mundo Notícias
    Responder

    Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em… https://t.co/Q2oI3sytI4

  • Joaquim Xavier Lopes
    Responder

    Só vejo “lagrimas de crocodilo”.
    Que culpa tem a Camara Municipal de só aparecerem projectos para centros comerciais?
    Que culpa têm os orgãos autarquicos dos portugueses só quererem centros comerciais?

    Porque fechou o Odeon? Porque deixou de ser rentável por falta de clientes. Clientes esses que agora choram a sua perca.
    Foi o mesmo com o cinema Londres e com outros ícones da nossa cidade.

  • Paula Gomes
    Responder

    PARA A CONSTRUÇÃO DE 1 MESQUITA COM UM CUSTO DE 3 MILHÕES DE EUROS DOS BOLSOS DOS CONTRIBUINTES ERA CONSIDERADO DE INTERESSE PUBLICO- ESTE JÁ NÃO É DO INTERESSE PUBLICO, PORQUÊ? Estes senhores que exercem cargos políticos da Camara Municipal tem uma demagogia interessante! Assim irão muito longe nas próximas Eleições, acho que vão pisar as pedrinhas da calçada portuguesa e escorregar do pedestal!

  • José
    Responder

    Quanto mais breve a sua transformação, MELHOR.
    Como está, é uma vergonha para a cidade de Lisboa e para o pais.
    Quem nos visita, fica espantado com o estado do edificio.
    TODOS QUEREM A CLASSIFICAÇÃO,PARA QUÊ???
    AO TEATRO NÃO VÃO, AO CINEMA TAMBEM NÃO E ENTÃO???
    Quando morrer o la feria, vai acontecer o mesmo, com o POLITEAMA.
    No RESTO DA Europa, o que não falta são exemplos de TANTOS EDIFICIOS HISTÓRICOS TRANSFORMADOS C.COMERCIAIS OU NOUTRA COISA.

  • José
    Responder

    O CENTRO COMERCIAL DO CHIADO É UM SUCESSO.
    Vai se passar o mesmo com o ODEON.

  • Nuno Rebelo
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em centro comercial – https://t.co/nWEm6cMdqK

  • Jose Cintra
    Responder

    Será mais um chinês..!!??

  • José Antunes
    Responder

    Mais uma página da história cultural da cidade que se rasga em beneficio da especulação e de mais um duvidoso centro comercial…
    recua-se trinta anos, ao tempo da paranóia do nefasto Kruz Abcassis que autorizava a abertura de galerias comerciais não importava como nem onde e que, na maior parte dos casos, já se encontra encerrada à anos

  • Man Next Door
    Responder

    Cinema Ódeon tem luz verde do Estado para ser convertido em centro comercial https://t.co/5HYVcZaE11

  • Vasco
    Responder

    Não façam o centro, que o pessoal aqui só gosta é de ruínas.

  • José Ramos
    Responder

    Só gostava de saber se a Câmara ou o Estado vai abrir mão das madeiras preciosas do teto e de outros materiais, alguém vai tirara proveito.

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