Cidadãos contra torre na Almirante Reis por tapar vistas de miradouros e do novo Jardim do Caracol da Penha

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Samuel Alemão

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URBANISMO

Arroios

16 Maio, 2019

Um conjunto de residentes de Arroios, muitos dos quais se bateram há três anos pela criação do Jardim do Caracol da Penha, quer bloquear a construção de prédio com 60 metros de altura na Avenida Almirante Reis. O edifício, parte do projecto Portugália Plaza, não só descaracterizará aquela zona, dizem, como prejudicará as vistas dos miradouros da Penha de França e do Monte Agudo. E criará ainda um “efeito parede e sombra”, que comprometerá o desfrute do espaço verde a inaugurar em 2021. Por isso, o movimento cívico lançou uma petição para travar o que acredita ser um “erro histórico”. Os responsáveis pelo movimento são peremptórios: a construção da torre é como que “um monumento de 60 metros ao pior do passado e à incapacidade de reflectir sobre o futuro e o presente da cidade”.

Um rotundo não. Um grupo de cidadãos – parte do qual, dinamizou, em 2016, a mobilização popular em torno da construção do Jardim do Caracol da Penha, para onde estava previsto um parque de estacionamento – lançou esta quinta-feira (15 de Maio) um movimento para impedir a construção da torre de apartamentos prevista para o antigo quarteirão da Portugália, na Avenida Almirante Reis. Em causa está o impacto visual que o projecto causará, não apenas no futuro espaço verde, cuja inauguração deverá acontecer em 2021, mas também a perturbação das panorâmicas obtidas a partir dos miradouros da Penha de França e do Monte Agudo. Situação esta, referem, em clara violação do sistema de vistas inscrito no Plano Director Municipal (PDM) de Lisboa. “Estamos a fazê-lo porque achamos ser importante evitar este erro histórico”, diz a O Corvo Rita Cruz, do recém-criado “Movimento Stop Torre 60 Metros Portugália”.

Com o período de consulta pública relativo ao mega-projecto imobiliário a decorrer até 24 de Maio, os activistas, na sua maioria residentes na freguesia de Arroios, pretendem lançar um alerta generalizado para o que contemplam como uma clara agressão ao tecido urbano daquela zona da cidade. Razão pela qual decidiram congregar-se em torno da recolha de assinaturas, numa petição a entregar à Assembleia Municipal de Lisboa (AML), visando impedir o avanço daquela torre. O edifício constitui apenas uma parte do empreendimento promovido pelo Fundo Imobiliário Fechado Sete Colinas, que obteve parecer positivo do Departamento de Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa. Se bem que não apreciem o projecto como um todo, os membros do movimento recusam com especial ênfase a referida torre. “É um monumento de 60 metros ao pior do passado e à incapacidade de reflectir sobre o futuro e o presente da cidade”, afirma Rita Cruz.

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Simulação dos presumíveis efeitos da torre sobre as vistas obtidas a partir do Caracol da Penha, segundo o movimento de cidadãos

Na impossibilidade de se conseguir bloquear o avanço do Portugália Plaza, designação do contestado investimento imobiliário, o objectivo do movimento é que se proceda a uma alteração do projecto visando suprimir a torre de 16 andares. A activista salienta serem três as razões principais para contestar a parte mais vistosa do projecto, que prevê o surgimento de 85 apartamentos de luxo (cinco fogos T0, 44 fogos T1, 17 fogos T2, 17 fogos T3 e dois T4). “Antes de mais, a torre representará a descaracterização da Almirante Reis e dos bairros circundantes, estando desenquadrada da envolvente. Mas também provocará uma agressiva interferência no sistema de vistas a partir dos miradouros da Penha de França e do Monte Agudo, bem como das que se obterão do Jardim do Caracol da Penha”, explica a moradora na zona, referindo-se a previsíveis danos paisagísticos infligidos ao projecto vencedor do Orçamento Participativo (OP) de Lisboa 2016 – cuja empreitada foi aprovada na reunião de vereação da semana passada.


Projecção do que se pretende construir no quarteirão da Portugália

Num comunicado lançado na tarde desta quinta-feira (15 de Maio), no qual se anuncia o início desta luta, o movimento de cidadãos salienta o facto de a edificação de uma torre com seis dezenas de metros de altura entrar em claro choque com o sistema de vistas definido pelo PDM de Lisboa, conflituando com as panorâmica do Miradouro da Penha de França, mas também com o subsistema de ângulos de visão do Miradouro do Monte Agudo e o subsistema de vales da Avenida Almirante Reis. Embora o Jardim do Caracol da Penha não esteja ainda abrangido pelo plano director, revisto em 2012, os membros do movimento cívico não têm dúvidas que, pelo seu posicionamento, será afectado pela torre de 60 metros. Por isso, apelam: “Não queremos que o nosso jardim nasça torto!”. Além disso, tal construção irá também “criar uma zona de sombra agressiva naquela zona da cidade, prejudicando a qualidade de vida dos moradores por ela abrangidos”, diz Rita Cruz. Na página de Facebook do movimento, é mostrada uma simulação da vista a partir do futuro espaço verde, falando-se no surgimento de um “efeito parede e sombra”.

 

Aspecto actual do terreno onde deverá nascer o Portugália Plaza

 

O “Movimento Stop Torre 60 Metros Portugália” afirma-se como totalmente independente dos partidos políticos e pretende congregar o maior número de simpatizantes para a sua causa, embora os seus membros estejam cientes dos riscos de assumir uma posição pública sobre um assunto tão polémico em período eleitoral – está em curso a campanha para as europeias e as legislativas marcarão a agenda da discussão pública dos próximos meses. Os responsáveis pelo lançamento da plataforma cívica assumem, por isso, a necessidade de agir com cuidado para afastar eventuais aproveitamentos políticos do movimento, mas não escondem a urgência da acção. “Lançámos isto muito rapidamente e esperamos apelar ao maior número de pessoas”, explica a porta-voz do movimento, escusando-se a revelar que outras acções de protesto poderão ser desencadeadas no decurso desta campanha cidadã. “É uma dinâmica que se vai construindo”, explica, assumido que as decisões decorrerão dos resultados do processo de mobilização agora iniciado.

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COMENTÁRIOS

  • José
    Responder

    Não podem chamar de torre, a um simples predio com 16 andares.
    Não sejam mesquinhos nem egoistas.
    Em todas as capitais por o mundo fora, existem torres misturadas com o antigo, e ai sim, são torres, arranha-ceus, tem 40,50,60,70,80,90,100 andares.

    A cidade de Lisboa é a capital do pais, uma grande cidade, que por enquanto, ainda querem investir, não podemos falar que o predio tapa o sol ou a vista de um jardim, mentalidade egoistas. Como pode uma duzia de pessoas ser noticia por todo o lado. LISBOA GRANDE CIDADE. LISBOA É DE TODOS.
    Avançar com o projecto, e no futuro construir mais predio com mais pisos.

  • Luisa
    Responder

    Façam movimentos contra os graffitis, as marquises, as antenas parabolicas, contra os cães a cagar na calçada, contra os buracos na estrada.
    Agora um movimento para não se construir PREDIO COM 16 ANDARES???

  • Adriano
    Responder

    Esta gente, inventam qualquer coisa por causa de um predio de 16 andares.
    Tapar vistas, sombras, isto tudo é ridiculo. Porque é que não vão viver para o campo???Estão a viver numa grande capital.

    A cidade de LISBOA está atrasada, a nivel de inovação na arquitetcura, por causa da mentalidade egoista dos velhos do Restelo.
    Primeiro foi com a construção doutro predisito, FPM 41 . Não há paciência

  • Max
    Responder

    A torre de 60 metros está em completa desarticulação com a envolvente. Cortem a altura para metade.

  • Luís Marques
    Responder

    Não há paciência para estes activistas de Facebook, nem para quem dá voz a um grupo de meia dúzia de pessoas fazendo-as mais relevantes do que são.

  • José
    Responder

    A cidade de nova-york, tem predio de 20,40 andares ao lado de 80,100 andares.
    A cidade de Lisboa, não é uma cidade de provincia, que pensa que está numa pequena cidade, tem que voltar para o campo .
    A cidade é de todos, e com a falta de espaço, mais tarde ou mais cedo vão surgir predios ainda mais altos. Falar em sombras, tapar a vista, são pensamentos mesquinos, não sabem o que inventar mais.

    Até vai ser necessario crescer em altura para aproveitar áreas para fazer jardims, areas de lazer.

  • Fernanda
    Responder

    Lisboa não é NY, please!! A nossa historia não se faz nem no presente nem no futuro, em bairros históricos com tipificação própria, de prédios desta natureza. Modernidade e progresso está de mãos dadas com bom senso!

  • DMAlmeida
    Responder

    Lisboa terá um plano de URBANIZAÇÃO ? Qual a referência para construções deste tipo ?
    Existem URBANISTAS nesta cidade ?
    Para que servem ?
    Qual o parecer que nos podem dar, a nós, leigos na matéria em causa ?

  • Maria Barros
    Responder

    Tudo isto é uma vergonha.
    Nao vale a pena dizer mais nada.
    .”Fim de papo”!

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