Cidadãos querem salvar da demolição antigo Cinema Paris contra “febre da especulação imobiliária”

ACTUALIDADE
Samuel Alemão

Texto

URBANISMO

Estrela
Campo de Ourique

25 Julho, 2018

O veredicto estará aparentemente traçado, mas, ainda assim, existe quem tenha esperança na sua reversão. Um grupo de cidadãos lançou, no passado fim-de-semana, uma petição pública apelando à suspensão da demolição do antigo Cinema Paris, anunciada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), no início de Junho. A antiga sala de espectáculos, situada na Rua Domingos Sequeira, entre a Basílica da Estrela e Campo de Ourique, abriu em 1931, de acordo com o projecto do arquitecto Victor Manuel Carvalho Piloto, seguindo influências Art Déco, e encontra-se sem utilização desde há mais de três décadas. De lá para cá, as muitas indefinições quanto ao que fazer com o imóvel têm andado a par com a sua progressiva degradação. Ao ponto de já em 2003, aquando da presidência da câmara de Pedro Santana Lopes (PSD), se ter avançado que a demolição seria o destino do edifício. A mobilização popular, na altura, travou um desfecho que volta agora a ser visto como muito provável.

No abaixo-assinado “Salvaguarda do antigo Cinema Paris”, dirigido à Câmara de Lisboa e à assembleia municipal da cidade, pede-se uma “solução alternativa (…) que não implique a sua demolição mas que permita a sua recuperação e reutilização como equipamento cultural da cidade e das carenciadas freguesias da Estrela e de Campo de Ourique”. Na petição, é ainda solicitado aqueles dois órgãos autárquicos que “tomem em consideração o elevadíssimo valor urbanístico, cultural e paisagístico das envolventes à Basílica da Estrela, Hospital Militar, Jardim da Estrela, Quartel da GNR e complexo dos Ingleses, impedindo a febre da especulação imobiliária e se coíbam de aprovar projectos urbanísticos e de arquitectura que maculem aquela que é uma das poucas zonas de Lisboa onde é possível ter paz e bom ambiente”.

Decisões em relação às quais, salienta-se nos considerandos da petição, os decisores políticos e técnicos da autarquia se devem basear, após julgarem “as várias opções que há no local” e avaliarem o “Interesse Público de que se reveste esta situação”. São quatro os argumentos essenciais avocados pelos autores do abaixo-assinado para apelar às suspensão da demolição do antigo Cinema Paris e à sua reabilitação enquanto equipamento cultural: a ausência de salas de espectáculo na Estrela e em Campo de Ourique; o facto de o edifício ter sido “objecto de avaliação e recomendações várias pela sindicância feita em 2007 aos serviços de urbanismo da CML”; “o alto valor especulativo dos terrenos circundantes ao antigo Cinema Paris, designadamente nas suas traseiras, na Rua da Estrela”; e ainda porque, diz-se, a “anunciada demolição não reflecte nenhuma auscultação à cidade e, especificamente, à população da Estrela e de Campo de Ourique”.




“Trata-se de um cinema histórico, que não deveria ir abaixo, e em relação ao qual se podia encontrar uma utilidade cultural ao serviço da comunidade”, afirma, em declarações a O Corvo, Gieselle Unti, uma das promotoras da recolha de assinaturas, assumindo assim a vontade de não deixar cair uma causa dada como perdida para muitos. Moradora em frente ao Paris, vê com apreensão a prevista substituição da antiga sala de cinema por um qualquer empreendimento imobiliário e, dessa forma, mais um contributo para o apagamento da memória. O facto de a sentença de demolição ter sido já anunciada não esmorece Gisselle. “Isso deve levar as pessoas a se mobilizarem ainda com mais força, porque se aproxima um momento decisivo”, diz, lamentando ainda que a Câmara de Lisboa não assuma um papel activo na preservação deste edifício. “A câmara poderia tomar em mãos a recuperação deste imóvel, nem que fosse em parceria com um privado, pois tem obrigação de zelar pelo património histórico. Além disso, a conversão do Cinema Paris num espaço cultural faria todo o sentido, pois estes bairros, por não estarem na zona central, estão carenciados de equipamentos desse género”, afirma.

ocorvo24072018cinemaparis3

As tapumes em redor do Cinema Paris são já parte do cenário há muitos anos

Não é a primeira vez que se realiza uma recolha de assinaturas a favor da preservação daquela antiga sala de espectáculos – a última vez que tal aconteceu foi há pouco mais de três anos, reunindo então apenas 166 assinaturas. Em todo o caso, tal vontade muito dificilmente conseguirá contrariar a sentença de morte do degradado imóvel, há muito anunciada e recentemente confirmada pelo vereador do Urbanismo, Manuel Salgado. Na reunião descentralizada do executivo camarário de 6 de Junho, o autarca disse que a câmara municipal se encontrava a apreciar um projecto urbanístico para o local onde ainda permanece a velha sala de espectáculos, a qual deverá ser demolida – isto porque, considerou, “do ponto de vista arquitectónico não é propriamente um edifício com grande valor”. O projecto de construção de um novo edifício naquele sítio, informou, foi entregue em 18 de Maio passado, depois de o anterior, apresentado pelo mesmo promotor há quase um ano, ter sido chumbado por um parecer da Direcção Geral do Património Cultural (DGPC).

 

Quando deu essa informação, o vereador tentou esvaziar as esperanças que alguns possam ter relativamente à preservação do antigo cinema – até porque o próprio Salgado admitira, já no final de 2015, como muito provável um cenário de demolição. Nesta última reunião pública, no mês passado, o autarca considerou mesmo o Paris como “uma chaga já há décadas”, relativamente à qual não restará outra solução se não a sua destruição e substituição por uma construção nova. “O valor patrimonial que o edifício tinha era, sobretudo, uma pintura no interior, uma vez que, do ponto de vista arquitectónico, não é propriamente um edifício com grande valor”, afirmou, acrescentando que “já está tudo danificado e chegou-se a um ponto de tal degradação, que já não é viável a recuperação daquele imóvel para a função de cinema ou cineteatro”.

 

O Corvo tentou ouvir os presidentes das juntas de freguesia da Estrela e de Campo de Ourique sobre esta questão, mas tal não foi possível até ao momento da publicação deste artigo – tendo-se o autarca de Campo de Ourique, Pedro Cegonho (PS), escusado a fazer comentários sobre a mesma. O presidente da junta da Estrela, Luís Newton (PSD), já havia manifestado, noutras ocasiões, em declarações a O Corvo, a sua resignação com a anunciada demolição.

 

Para subscrever a petição: peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT90130

MAIS ACTUALIDADE

COMENTÁRIOS

Comentários
  • José Colaço
    Responder

    Quando era jovem, o cinema Paris era um dos meus cinemas. Para além do Paris, tinhamos o Europa (cujo edificio já não existe), em Campo de Ourique e o Jardim Cinema, na Pedro Alvares Cabral, que actualmente é uma loja chinesa.
    Fico muito contente de , finalmente, demolirem o Paris. Não serve para nada há décadas. E, se não for demolido, vai continuar como está.

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Send this to a friend