E se Lisboa passasse e estar acessível à margem sul de bicicleta ou, mesmo, a pé ? A ideia de uma ciclovia atravessando o Tejo é bastante apelativa, concordam muitos. Seria um ícone, mas não parece suscitar o interesse das entidades que gerem a Ponte 25 de Abril. A Estradas de Portugal e a concessionária Lusoponte ignoram-na. E as autarquias remetem-se ao silêncio.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

E se Lisboa passasse e estar acessível a Almada para qualquer pessoa em bicicleta ou, mesmo, a pé, com a criação de uma ciclovia e de uma passagem pedonal na Ponte 25 de Abril? Ganhar-se-ia um ícone, além de se aumentar a mobilidade entre as duas margens do Tejo, sustenta Miguel Barroso, arquitecto, utilizador de bicicleta e consultor na área da mobilidade sustentável.

 

A ideia de criar essa ligação é bastante apelativa, dizem muitas outras vozes. E não só as de entusiastas de um projecto com esse objectivo, entre elas as de mais de 2500 utilizadores de bicicleta, como até as de alguns dos detractores do projecto, que não é consensual, por enquanto. Mesmo entre ciclistas, se há quem defenda acerrimamente um projecto com esse objectivo, também há quem considere, desde logo, que, tendo em conta a situação do país, ele não é prioritário.

 

Entre a crescente comunidade de utilizadores de bicicleta, circulam pelo menos duas petições: uma de um grupo de cidadãos, que conta actualmente com 1063 subscritores, e uma outra lançada em 2013, por António Manuel Pinto dos Santos, um engenheiro, gestor operacional da Brisa, que, em pouco tempo, reuniu mais de mil assinaturas – um entusiasmo que, porém, se foi esvaindo com o andar do tempo, contando agora com perto de 1600 assinaturas.

 

Ninguém ainda estudou a sério a hipótese, desenvolvendo um projecto de execução, mas, à partida, qualquer das entidades com responsabilidades na ponte refere logo vários problemas – sejam os ventos fortes a que a estrutura está sujeita, sejam questões de segurança da travessia, sejam ainda eventuais tentativas de suicídio, ou mesmo o facto de o trajecto se incluir numa autoestrada concessionada.

 

Já prevendo os vários entraves que as entidades gestoras da Ponte 25 de Abril poderiam suscitar à circulação em bicicleta e a pé na Ponte 25 de Abril, António Pinto dos Santos desenvolveu a sua ideia – acessível em almalisboa.com – contornando obstáculos vários. Entre eles, o financeiro.

 

“O projecto tem um custo elevado, rondando os 10 milhões de euros, mas poderia ser candidatado a fundos comunitários, como o Interreg IV, em que o Estado português pagaria apenas 15 por cento”, ou seja, 1,5 milhões de euros.

 

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Já Miguel Barroso, embora defendendo um projecto diferente, mas com idêntico objectivo, sustenta que, “estando a Ponte 25 de Abril incluída na Rede Transeuropeia de Transportes, é elegível para receber uma ciclovia. E poderia haver um projecto candidato a financiamento no âmbito da Eurovelo Route, a rota europeia de ciclovias.

 

Na fórmula prevista por Pinto dos Santos, o tabuleiro rodoviário não seria utilizado, optando-se antes pela utilização de uma área “vazia” do tabuleiro ferroviário, na qual se criariam duas vias, uma destinada à circulação das bicicletas e outra para peões.

 

Esses corredores seriam uma espécie de gaiolas transparentes, para permitirem a observação da vista que se obtém do alto da ponte, cujo tabuleiro está a 150 metros de altura.

 

“De ambos os lados da dupla linha de comboio, há dois corredores disponíveis para a ciclovia, com largura e altura livre suficientes, que permitem inscrever o rectângulopara a ciclovia/passagem pedonal, para além do duplo passadiço pedonal já existente ao lado da dupla linha ferroviária e que serve exclusivamente de apoio à operação ferroviária”, sustenta António Pinto dos Santos.

 

A ciclovia e a passagem pedonal seriam, nas palavras do autor desta ideia, “uma estrutura leve, totalmente arejada mas coberta e à prova de tentativas de suicídio em toda a extensão do tabuleiro, assemelhando-se a um túnel coberto em forma de gaiola”.

 

No projecto que esboçou, Pinto dos Santos previa igualmente uma forma de acesso ao tabuleiro, de um e outro lado da Ponte, a partir da superfície. Na margem norte, em Lisboa, seria necessário construir um elevador, junto aos pilares, capaz de fazer ascender os ciclistas e as pessoas à altura do tabuleiro. Já na Margem Sul, do lado de Almada, “a solução seria uma rampa pouco inclinada na direcção da colina do Cristo Rei”. Outras obras teriam de ser feitas, em particular na margem sul, para ligar a ciclovia a Almada.

 

Para o arquitecto Miguel Barroso, esta seria porém uma “meia-solução”. “O problema desta meia-solução assenta no facto de se criar uma situação que acaba por ser desagradável para quem ali circulasse, com os comboios a passar por perto”, disse ao Corvo o consultor de mobilidade sustentável, que defende a construção de uma via específica, “um tabuleiro ultraligeiro”, ao lado do tabuleiro rodoviário.

 

Quer o arquitecto, quer o engenheiro defensores desta travessia consideram que ela traria muitos benefícios a Lisboa e a Almada.“O investimento terá retorno garantido, não só para a mobilidade, mas acima de tudo para o turismo”, salienta Miguel Barroso.

 

Os exemplos da Golden Gate Bridge, em São Francisco, que foi construída já a considerar a travessia para bicicletas e peões, e o da Ponte de Brooklyn em Nova Iorque, vêm sempre à tona, quando se fala na possibilidade de criar uma via para bicicletas e peões na Ponte 25 de Abril. “Também há ventos fortes que sopram na zona daquela ponte, em São Francisco, e isso não impede que funcione a ciclovia. A Golden Gate é um dos locais mais visitados do mundo”.

 

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A ponte de Golden Gate, São Francisco, é apontada como um bom exemplo.

 

Miguel Barroso dá ainda outro exemplo, de uma outra ponte, a Bay Bridge, também em São Francisco, que, não tendo sido construída de raiz para ser usada por bicicletas, está agora em vias de criar novas vias no tabuleiro, com esse fim. “Tem sido uma luta de anos da San Francisco Bay Coalition e agora vai, finalmente, ser construída essa ligação”, afirma o arquitecto.

 

Por cá, a luta pela ciclovia na Ponte 25 de Abril vai ainda no princípio. E o entusiasmo inicial manifestado pelos subscritores da petição lançada por Pinto dos Santos parece ter apenas brilhado como um fogo-fátuo. “As pessoas põem muitos gostos na página do facebook (em https://www.facebook.com/pages/Almalisboa/305493132930251) mas depois nem todas vão assinar a petição”, lamenta António Pinto dos Santos.

 

Passar da ideia ao projecto é algo que, ao que O Corvo apurou, não está ainda nos horizontes das entidades que gerem a Ponte 25 de Abril. Contactada pelo Corvo, a Estradas de Portugal disse não estar sequer a estudar o assunto. “A EP-Estradas de Portugal nunca colocou, nem estudou esta hipótese”, disse fonte do gabinete de comunicação da empresa.

 

Mas mesmo sem estudar a hipótese, a EP adianta, desde logo, vários obstáculos: “Na Ponte 25 de Abril, são aplicáveis as disposições de trânsito relativas a autoestradas e vias equiparadas, que proíbem a circulação de peões e velocípedes, pelo que não é possível utilizar a plataforma rodoviária para o fim pretendido. A utilização da plataforma ferroviária também não é possível, dado que os passadiços de serviço existentes, para além de terem uma largura reduzida, são destinados exclusivamente à evacuação dos passageiros das composições ferroviárias, perante a ocorrência de situações de emergência”.

 

E, conclui a Estradas de Portugal, “a eventual implementação de uma via para ciclistas ou peões teria sempre que ser efetuada a partir de uma estrutura completamente nova e distinta das atuais plataformas rodoviária e ferroviária. Existem ainda outros aspectos, relacionados principalmente com os acessos e com a segurança dos utilizadores da ponte, de terceiros e das próprias estruturas, que necessariamente teriam que ser acautelados em qualquer projeto desta natureza”.

 

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Também contactada pelo Corvo, a concessionária da Ponte 25 de Abril, a Lusoponte, embora entendendo que a ideia de um travessia deste tipo “pode ser muito apelativa”, nunca foi porém sequer encarada. “Nunca nos apresentaram nenhum projecto, pelo que a Lusoponte não se pronuncia”, disse fonte do gabinete de comunicação da empresa.

 

Outras duas entidades que, eventualmente, poderiam encarar a possibilidade, e às quais apelou António Manuel Pinto dos Santos, são as autarquias de Lisboa e Almada, que poderiam dar o empurrão para se estudar um projecto.

 

“Na câmara de Lisboa, a ideia chegou a ser encarada com bons olhos pelo antigo vereador da Mobilidade, Nunes da Silva, que me disse que apoiava a proposta. Mais tarde, já no tempo do vereador Manuel Salgado, voltei a pronunciar-me sobre esta hipótese, quando fui convidado para intervir em palestras sobre mobilidade realizadas no Centro de Informação Urbana de Lisboa. Mas, depois disso, não houve qualquer indicação de que a ideia seria considerada”, disse Pinto dos Santos.

 

Na Câmara Municipal de Lisboa, a assessora de António Costa remeteu a questão para o vereador José Sá Fernandes, que O Corvo tentou ouvir, porém, sem sucesso. O silêncio foi também a resposta da Câmara Municipal de Almada.

 

  • Pedro Vale Dos Santos
    Responder

    Falta de vontade e interesses à mistura dá nisso. Não era “simples”, mas é possível. Além do prático que iria ser em termos de locomoção, adicionava tanta nova dinâmica (e por consequência economia).

  • R
    Responder

    Que palhaçada …

  • Paulo Ricca
    Responder

    Passa-se exactamente o mesmo na ponte da Arrábida no Porto, onde seria bem mais simples e barato. A questão é: os burocratas não estão para aí virados se não tiverem nada a ganhar com isso. Daí os patetas argumentos das disposições legais que impedem circulação de peões e bicicletas.

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Bicicletas com asas 🙂

  • R
    Responder

    Mais do mesmo, tanta necessidade que a nossa cidade tem, e para meia dúzia se tanto usufruírem, mais importante seria respeitarem os passeios que são para peões, com as ciclo vias vazias… Enfim modernices.

  • Roena
    Responder

    foi bom ter achado essa pagina

  • Denise
    Responder

    Cara, o pessoal aqui leva o assunto muito a serio nessa pagina . Curti . Ah! Sofria com noites mal dormidas h

  • Marilda
    Responder

    Acompanho sempre que posso os conte

  • Alfreda
    Responder

    Amor, a que eu quero

  • MS
    Responder

    Uma pequena correção: o tabuleiro não está a uma altura de 150 metros, está a cerca de 70.

  • Etelvina
    Responder

    Achei muito vantajoso esse conte

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