E, de repente, eles estão por todo o lado. Os ciclistas começaram a ganhar espaço e visibilidade numa cidade ainda oprimida pela ditadura automóvel. O fenómeno, recente, mas em grande crescimento, vem colocar Lisboa a par das grande cidades europeias – embora com um atraso considerável. O que, há alguns anos, seria coisa de excêntricos, irrompe como realidade nova, fruto de mudanças sociais e das circunstâncias económicas. Tanto que ainda parecem muitos aqueles que não sabem como reagir ante tal fenómeno, sejam os peões ou os automobilistas, mas também os próprios ciclistas. O livro “A Gloriosa Bicicleta – compêndio de costumes, emoções e desvarios em duas rodas” (Texto Editores – Leya), de Laura Alves e Pedro Carvalho, chegado às livrarias esta semana, propõe-se preencher a lacuna de conhecimento sobre o assunto entre nós.

 

“É uma espécie de análise histórica e sociológica do uso da bicicleta, mas também humorística”, explica Laura, jornalista freelancer (já escreveu para O Corvo) e ciclista militante. Trata-de de uma espécie de livro de cabeceira, de vocação mais ou menos generalista, visando dar resposta ao grande número de dúvidas de todos os que tenham o mínimo interesse por esta “máquina fantástica”. Para iniciados e iniciantes. Até porque não param de aumentar as fileiras dos que aderiram a este meio de “mobilidade suave”. De coisas de malucos, de freaks, a bicicleta passou a ser vista como aquilo que sempre foi, um meio de transporte ágil, bonito, silencioso, ecológico e muito económico. Esta última característica poderá ter acentuado a tendência, admite a autora do livro – função partilhada com Pedro Carvalho, director da revista B – cultura da bicicleta.

 

Laura sempre circulou em duas rodas. Desde os tempos em que vivia numa aldeia na região de Coimbra. Após uns tempos em Lisboa, decidiu fazer o mesmo nas artérias da capital, em 2007, numa altura em que eram ainda muito poucos a tentá-lo. Mas já existiam. É como em tudo o resto: os pioneiros desbravam caminho. “Começaram a surgir pessoas com outra visão das coisas, que haviam estudado em países onde o uso da bicicleta estava bastante disseminado, como a Holanda, e achavam que se podia fazer cá o mesmo”, explica a jornalista. Aos poucos, foi-se instaurando uma moda, a bicicleta passou a ser vista como uma alternativa, até por estar associada a valores ecológicos. Em simultâneo, a crise económica e financeira veio fazer com que muitos fossem obrigados a optar por este meio de deslocação, por ser o mais acessível. “Para além das coisas más que as dificuldades económicas trazem sempre, também há coisas boas, e uma delas foi o levar muitas pessoas a regressarem à bicicleta”.

 

Nas ruas e avenidas de Lisboa, vê-se de tudo um pouco: do ciclista urbano casual ao profissionalão todo equipado, passando pelo hipster que mais parece ter saído de uma produção de moda, até às pessoas mais modestas, usando bicicletas e roupas baratas. Com uma tão diversificada população ciclista, é natural que também as atitudes e a forma de estar sejam díspares. Há um grande desconhecimento sobre as regras de circulação, da etiqueta ciclista e dos mais diversos aspectos técnicos. Por exemplo: muita gente não sabe que o uso de luzes é obrigatório de noite. O livro agora lançado pretende suprir essa generalizada falta de informação. “Numa altura em que está a crescer a ciclomania em Portugal, não há muitas obras sobre este assunto, sobretudo com esta abordagem. O que existe é, sobretudo, académico ou demasiado técnico”, afirma Laura Alves. Na verdade, a obra não deixa de abordar questões práticas, acabando por ser também uma espécie de guia para principiantes da bicicleta.

 

Por ser também uma moda, poderia suspeitar-se que se trata de um fenómeno passageiro. “Vai continuar”, garante Laura, notando uma mudança de atitude em muita gente, sobretudo das novas gerações. “O português tornou-se muito acomodado. Tudo é muito difícil, mas, se houver vontade, tudo se faz. Se tiver de ir ao Castelo de bicicleta, é claro que é um pouco mais complicado, mas faz-se perfeitamente”, diz. Aliás, um dos objectivos da obra é a desmistificação da ideia de que a cidade não tem condições, que não é ciclável. Percepção que vai mudando, reconheça-se. E tal nem tem que ver com a multiplicação das ciclovias, que se tem verificado nos últimos anos – infra-estrutura que Laura nem sequer considera fundamental. “Muitas estão mal concebidas tecnicamente”, diz. O mais importante, considera, é haver “respeito mútuo” entre ciclistas e automobilistas.

 

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A GLORIOSA BICICLETA

Compêndio de Costumes, Emoções e Desvarios em Duas Rodas
Laura Alves e Pedro Carvalho

Texto Editores – Leya

PVP: 14,90€

 

Texto: Samuel Alemão 

Fotografia: www.flickr.com/photos/catorze/1804395502/

Comentários
  • Cátia Fonseca
    Responder

    Já comecei a ler o livro e estou a ADORAR! Acho que qualquer ciclista que se mova na selva urbana se vai identificar com o livro 🙂

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