Uma luz acende-se na escuridão cinéfila que se abateu sobre Lisboa. E vem mesmo lá do centro, do coração da cidade. A partir da Primavera de 2014, numa data ainda a precisar, na Rua do Loreto, junto ao Largo de Camões, começará a funcionar o Cinema Ideal. Mostrar cinema português, europeu e, em geral, “todos os grandes filmes de todos os países e de todos os tempos” é a missão da novo equipamento cultural, que mais não será, afinal, do que o renascimento de uma das mais antigas salas de cinema de Lisboa. Abriu em 1904, como Salão Ideal, passou por diversas fases, chamou-se Cinema Ideal, Cine Camões e, nos anos mais recentes, sob a designação Cine Paraíso, esteve entregue à exibição de filmes pornográficos. Renasce ao comemorar 110 anos, foi ontem anunciado.

“A cidade precisa de outros tipos de cinemas, diferentes dos existentes nos centros comerciais, que, basicamente, exibem apenas filmes americanos e vendem pipocas”, diz Pedro Borges, dono da Midas Filmes, empresa distribuidora cinematográfica que decidiu pegar neste projecto, contando para isso com a parceria da Casa da Imprensa, dona da sala – que fica no piso térreo do prédio onde funciona a agremiação dos jornalistas. Essa zona do edifíco vai agora entrar em obras, depois de ter visto o seu interior reduzido ao mais elementar, com as paredes despidas. Agora será integralmente reabilitado, mantendo a estrutura original – da qual se destacam uma sala com balcão e capacidade para 200 espectadores e o foyer -, reequipado com equipamentos de projecção digital de imagem e som, novas cadeiras e novo ecrã. Um luxo.

A ideia do projecto é, segundo Pedro Borges, que as pessoas “reganhem o gosto de ir ao cinema por ir ao cinema, apenas porque os filmes são bons, e não por uma outra coisa qualquer”. O empresário fez notar que “não há mais nenhuma cidade europeia desta dimensão e desta importância que tenha presenciado uma razia tão grande de salas de cinema, na sua zona central”. Trata-de, no fundo, do mais elementar dos gestos: trazer a sétima arte de volta ao epicentro da vida da capital – área de enorme vitalidade cultural, mas que, por mistério, ignora o cinema. No mesmo espaço funcionará também uma cafetaria, uma livraria, uma biblioteca de cinema e DVDteca, onde haverá lugar a regulares debates, workshops, concertos e outras actividades.

 

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A nova vida do Cinema Ideal não será, contudo, sinónimo, e apesar do que poderia sugerir, de “um cinema da Midas”. “Haverá uma colaboração muito estreita com outros produtores e distribuidores, para a exibição e estreia nesta sala de longas-metragens e documentários, sobretudo do cinema português”, garantiu Borges, na apresentação feita à comunicação social. A programação e animação estarão a cargo de uma Associação Cultural Cinema Ideal, que reúne uma dúzia de pessoas da área e será acompanhado por um conselho de curadores, com duas dezenas de membros – entre os quais a actriz Rita Blanco, que ontem esteve na sala onde decorreu a apresentação do projecto.

No primeiro ano de actividade, o novo Cinema Ideal, que tentará ter uma “política diferenciada de preços de bilhetes”, deverá estrear os novos filmes de Pedro Costa, João Salaviza, Margarida Cardoso, João Botelho, Bruno de Almeida e João Canijo. O festival Indie Lisboa do próximo ano já deverá contar com exibições na nova sala – cujas obras estão orçadas em 350 mil euros, uma parte dos quais, não especificada, com recurso ao crédito bancário e a outra com dinheiros públicos. Além da Câmara Municipal de Lisboa, também já foram estabelecidos contactos com a nova Junta de Freguesia da Misericórdia. “Queremos funcionar para a comunidade, através de uma troca de serviços. Queremos recuperar o conceito de cinema de bairro”, afirma Pedro Borges.

 

Texto e fotografias: Samuel Alemão

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