Sem salvação possível. O Chafariz da Cova da Moura, localizado junto à Avenida Infante Santo e pertencente ao sistema de ramais do Aqueduto das Águas Livres, será demolido, apesar de estar classificado como uma parte integrante daquele Monumento Nacional. O mau estado de conservação do elemento patrimonial edificado no final do século XVIII é considerado irreversível pelas entidades responsáveis, que assim libertam o local para a construção de um parque de estacionamento junto à avenida, bem como de um elevador de acesso ao topo do geomonumento formado por um afloramento de calcário e sílex e de um espaço verde de ligação à Calçada das Necessidades. As obras, de resto, decorrem há meses.

 

A confirmação da acção de desmantelamento do chafariz localizado na freguesia da Estrela, que há muito padece de falta de conservação, foi dada por Manuel Salgado, vereador do Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa (CML), durante a última sessão da Assembleia Municipal de Lisboa, ocorrida na terça-feira (10 de Novembro). “Está em ruína e não tem qualquer possibilidade de ser recuperado”, diz o autarca, que afirmou estar a citar a informação que lhe fora dada pela Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo (DRCLVT). “O que se pode fazer é o registo de todos os elementos agora existentes, para preservação de memória futura, e desmontagem do que resta do chafariz”, afirmou o vereador.

 

A informação de Salgado a um deputado municipal repetia o que já havia escrito numa carta, de 27 de Outubro, em resposta a um requerimento sobre o assunto feito pelos vereadores comunistas Carlos Moura e João Bernardino, a 11 de Março passado – na altura, enviado ao então presidente da autarquia, António Costa. No documento, informa-se que, em 2009, na sequência de um pedido de informação prévia para o edifício situado no nº41 da Avenida Infante Santo e nº14 da Calçada das Necessidades – o qual veio a ser indeferido por “razões urbanísticas alheias à questão ora em análise” -, a DRCLVT “pronunciou-se no sentido da aprovação do projecto, incluindo a demolição do último vestígio do Chafariz da Cova da Moura, considerando que o estado de ruína não permitia a sua recuperação (…), não se afigurando viável a pretendida requalificação”.

 

No entanto, no parágrafo anterior dessa carta enviada aos vereadores, o responsável máximo pelo Urbanismo da CML informa que, devido ao facto de a construção do estacionamento subterrâneo se encontrar localizada na Zona Especial de Protecção do Aqueduto das Águas Livres – classificado como Monumento Nacional em 2010 -, “foi consultado o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, o qual se pronunciou no sentido da aprovação condicionada do projecto, assegurando a estabilidade e integridade do aqueduto e respectivos troços, incluindo o proveniente do Chafariz da Cova da Moura”. Uma informação, aparentemente, contraditória.

 

O avançado estado de degradação do monumento e a sua eventual destruição têm sido alvo de denúncia por parte do grupo cívico Fórum Cidadania LX, que também já em Março havia alertado para a situação. Numa carta enviada, no final do mês passado, ao director-geral do Património Cultural, Nuno Vassallo e Silva, o movimento pede uma atenção especial a este processo, “assegurando que o Chafariz da Cova da Moura seja preservado, independentemente de o mesmo ser ou não ser uma ruína, enquanto parte integrante de um Monumento Nacional, na esperança de que gerações futuras hão-de ser capazes de o dignificar”.

 

Texto: Samuel Alemão           Fotografia: Fórum Cidadania LX

 

  • Miguel Fonseca
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    É uma vergonha sem fim. Obrigado por vocês se manifestarem em prol disso.
    Eu moro na Pampulha, a 50 metros do “calhau” (como o designa o nosso Presidente da Junta).

    Muitas pessoas nem sabem que o Bairro da Lapa se chamava inicialmente “Lapa da Moura”, precisamente em função desse monumento.
    Da mesma forma que a “Cova da Moura” original fica aqui bem no centro de Lisboa e não na Amadora, também por essa lógica.

  • Miguel Fonseca
    Responder

    Deixo-vos aqui, por simpatia, um pequeno resumo da História da antiga Freguesia da Lapa (antes da Reforma Administrativa), em que se explica precisamente isso.
    Vem bem explícita essa questão, num blog aqui da zona.

    http://www.estrelaviva.net/2013/08/lapa-do-terremoto-aos-dias-modernos_28.html

    • Rodrigo
      Responder

      Obrigado pelo testemunho, desconhecia completamente esta história da Cova da Moura dentro de Lisboa.
      A respeito da obra, não duvido da necessidade de estacionamento nessa zona da cidade. Mas não consigo entender como é que segundo o vereador Manuel Salgado, o chafariz “não tem qualquer possibilidade de ser recuperado”.
      Não parece haver vontade…

  • Ana Dio
    Responder

    No Brasil é igualzinho. Temos a quem puxar. Quem foram nossos colonizadores? Lamentável…

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Chafariz que é Monumento Nacional demolido para se fazer estacionamento https://t.co/ImlSiwoGG3 #lisboa

  • Henrique Dias
    Responder

    “Não se afigura viável a pretendida requalificação…” Têm a certeza?

  • Simão Lobo
    Responder

    Porque nao Manter Monumento Nacional aka aqueduto e ter parque de estacionamento em simultaneo?

  • Rita Mathis
    Responder

    Oh não…. sem recuperação possível? Não se poderá aproveitar a ruína e “re”construir tal como era??! A engenharia, a ciência dos materiais e a História podem muito bem ajudar nisto.. O próximo deve ser o “irrecuperável” cinema Paris ). E o que é a nossa memória e o nosso DNA assim se desvanece. 🙁

  • Vasconcelos Maria Rita
    Responder

    votem nos socialistas…..

    • Nascimento
      Responder

      Veja lá se o Presidente dessa Junta não pertence á coligação de direita. Bem podia estar calada .

  • Adrndgmr Sylmlck
    Responder

    mais carros menos água

  • Sophia
    Responder

    Chafariz que é Monumento Nacional demolido para se fazer estacionamento https://t.co/y0WiReJdTk

  • catarina
    Responder

    este presidente da junta manda tudo abaixo, é o chafariz é o cinema paris. uma vergonha!

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