Centro de inovação causa ruptura entre Associação Renovar a Mouraria e câmara

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Samuel Alemão

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VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

11 Março, 2015


Novo equipamento, que custou dois milhões de euros e resultou da recuperação de um velho quarteirão, deverá abrir a 25 de Maio. Mas não com as características sociais esperadas pelos dirigentes da mais importante associação local, bem como de outros agentes. “Aquilo vai ser mais uma incubadora de empresas, sem ligação ao bairro”, criticam. A Câmara de Lisboa desmente e garante que o CIM será “uma alavanca importante da dinamização social e económica da Mouraria.”

O uso e a forma de funcionamento que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) decidiu dar ao novo Centro de Inovação da Mouraria (CIM), com abertura prevista para 25 de Maio e considerado um elemento essencial no processo de regeneração em curso naquela zona da cidade, estão a provocar grande contestação junto de algumas associações locais. Tanto que a mais importante delas, a Associação Renovar a Mouraria (ARM) – que se tem notabilizado pelo trabalho feito junto da comunidade -, decidiu bater com a porta, desistindo de participar no projecto e acusando a autarquia de subverter os propósitos originais do mesmo, “reduzindo um equipamento estratégico a um mero imóvel empresarial”.

O CIM, que desde a concepção do Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria (PDCM) estava previsto funcionar como um edifício multifuncional ao serviço da população do bairro e a instalar no então decrépito Quarteirão dos Lagares, viu as suas obras terminarem recentemente. Todavia, quando a câmara o mostrou à comunicação social, no passado 27 de Fevereiro, numa cerimónia em que esteve presente Graça Fonseca, vereadora com o pelouro da Inovação, o CIM foi apresentado como “a primeira incubadora na área das indústrias culturais e criativas na cidade”, recebendo o cognome de Mouraria Creative Hub. Esta é a razão principal de um diferendo que se foi construindo nos últimos meses, mas que é menorizado pela CML.

A 23 de Janeiro, cerca de um mês antes da apresentação do centro – que custou cerca de dois milhões de euros cofinanciados por fundos comunitários e está, até 15 de Abril, a receber candidaturas para alojar “50 empreendedores” de áreas como moda, media, design, música, gastronomia e ofícios manufaturados como a azulejaria, olaria, joalharia ou restauro -, a assembleia geral da ARM deliberou que, “por discordância de conceito”, a associação “não irá participar neste projecto nos moldes em que ele está definido”. Mas mostrava-se disponível para rever a sua posição, se houvesse por parte da autarquia “abertura para uma reaproximação aos propósitos originais do equipamento”.

“A Associação Renovar a Mouraria considera que esta vertente centrada unicamente num conceito de incubação empresarial não cumpre a função para este equipamento, nem no que diz respeito à candidatura aprovada pelo QREN, nem no que diz respeito à proposta aprovada no Orçamento Participativo (OP) 2012”, diz-se logo no primeiro parágrafo de uma carta assinada por Inês Andrade, presidente da associação, e enviada a Graça Fonseca e a João Meneses, director executivo do CIM e coordenador do Gabip (Gabinete de Apoio a Bairro de Intervenção Prioritária) Mouraria, na sequência da tomada de posição desta organização não-governamental.

Recordando os pressupostos fundadores do CIM – os quais, entende a associação, terão agora sido pervertidos em favor de uma visão mais virada para os negócios -, a missiva cita e sublinha o que estava escrito em dois documentos: a candidatura para a Refuncionalização e reabilitação do Quarteirão dos Lagares para criação do Centro de Inovação da Mouraria, co-financiada pelo QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), por um lado, e, por outro, a proposta vencedora da edição de 2012 do Orçamento Participativo promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, na qual se apresenta o CIM como um “Centro de desenvolvimento social, cultural e económico”.

Entre o que estava inscrito no QREN, a carta destaca o facto de o Quarteirão dos Lagres se ter revelado “um potencial tesouro de património medieval e islâmico (…) que apela a uma intervenção integrada para que, através do encontro com as origens islâmicas, contribua para a identidade do bairro e dos seus habitantes”. Sublinha também o papel que teriam “ateliers e pequenas empresas com actividades nas áreas do conhecimento, da criatividade e da inovação, que se pretende dinamizem e potencializem essa identidade encontrada e que contribuam para a promoção turística do bairro”. A carta lembra ainda que na candidatura ao QREN se escrevia que a entidade gestora deveria “garantir o acesso ao logradouro, que se constituirá como um espaço público, para fruição da população.” O que, diz Inês Andrade, não irá acontecer, pois o logradouro terá as portas fechadas.

Referindo-se à proposta vencedora do Orçamento Participativo 2012, a presidente da direcção da Renovar a Mouraria lembra que a mesma apresenta o CIM como um “Centro de desenvolvimento social, cultural e económico”, cujo objectivo último seria “promover e desenvolver a dimensão de aprendizagem e formação profissional, dando um enfoque na recuperação dos ofícios tradicionais em Lisboa”. Além disso, teria “uma dimensão de incubação de projetos empresariais e/ou sociais que envolvam direta e indiretamente a comunidade local”, contribuindo para a “reforçar a dinamização territorial da Mouraria”. Tudo coisas que, teme a dirigente associativa, poderão não passar de palavras bonitas colocadas em papel, mas não concretizadas.

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Ao Corvo, Inês Andrade sublinha as propostas feitas pela associação à estrutura liderada pelo gabinete de Graça Fonseca para, através de “uma governança partilhada” daquele que deveria ser um “equipamento-âncora” do bairro, tentar recuperar o que vê como o “espírito original” do projecto. Entre elas estavam “a constituição de um conselho consultivo integrado por personalidades com intervenção no território e das áreas da cultura e da história relevantes” ou ainda a “abertura do espaço ao público, quer para a comunidade quer como pólo de visitação turística, aspecto fundamental para a dinamização social da zona de implantação”.

Mas tais propostas não terão sido aceites pela câmara, diz Inês. A responsável associativa lamenta tal desfecho e teme que, por causa do mesmo, se estejam a desperdiçar uma oportunidade única e também o dinheiro ali investido, desvirtuando uma ideia original. “Não nos identificamos com o projecto. Aquilo podia ser outra coisa, um equipamento público, com uma dinâmica constante e de portas abertas à comunidade, mas vai ser mais uma incubadora de empresas. Para nós, e como está a ser desenvolvido, trata-se de algo muito redutor, pois não cumpre o que foi aprovado na candidatura ao QREN”, acusa, lamentando ainda que, por isto, a ARM não possa aproveitar o acervo disponibilizado pelo arabista Adalberto Alves, para ali constituir de um núcelo interpretação associado ao estudo da herança islâmica.

No mesmo sentido vão as críticas de Ernesto Possolo, membro da Bairros, rede de desenvolvimento local que integra diversas associações da Mouraria. “Houve um claro desvirtuar do conceito do CIM. A ideia inicial era fazer ali algo mais virado para a inovação social e não para as indústrias criativas. Ora, isto vai ser sempre um corpo estranho aqui na Mouraria. As pessoas não vão ser incluídas num processo que se queria de fortalecimento da coesão territorial, como se chegou a pensar”, considera o activista local, que se diz ludibriado pela câmara e os seus agentes no terreno. Ernesto vai mesmo mais longe, acusando os técnicos da CML de se “aproveitarem da comunidade da Mouraria para aparecer na fotografia” e João Meneses, em concreto, de “nunca ter conduzido bem o processo”.

Ao Corvo, o coordenador do GABIP Mouraria diz, porém, que continua a trabalhar com a Bairros. O mesmo não se podendo dizer, admite Meneses, em relação à Associação Renovar a Mouraria – a quem o responsável preferiu não endereçar nenhuma resposta escrita à carta enviada por Inês Andrade. Reconhecendo tartar-se a ARM de uma entidade “com um papel muito relevante”, o responsável municipal pelo gabinete de revitalização da Mouraria escusou-se, todavia, a fazer mais comentários e disse preferir que O Corvo citasse a sua longa resposta às questões colocadas sobre o assunto pelo jornal Rosa Maria, editado pela associação.

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Contestando as críticas de falta de diálogo, na sua resposta João Meneses diz que “até hoje, todo o processo de decisão foi partilhado e aberto”. “Aliás, e por comparação, talvez até mais aberto do que o próprio processo de tomada de decisão da ARM”, acrescenta. “Ora, tal como a independência e autonomia da ARM devem ser respeitadas, a ARM também deve compreender que a CML/Equipa de Gestão do CIM deve poder gozar de alguma liberdade criativa e de iniciativa”, considera, antes de garantir que a estrutura por si dirigida “terá sempre total disponibilidade e interesse em fazer as alterações que se venham a mostrar necessárias e viáveis”.

João Meneses rebate as acusações de que a nova infra-estrutura funcionará como um objecto estranho na Mouraria. “Sempre defendemos que o CIM tem de estar bem enraizado no território. O seu nome reflecte esse desígnio, o júri constituído para avaliação de candidaturas tem forte ligação ao território e, sobretudo, teremos várias actividades de ligação à comunidade local e total abertura para a acolher de modo espontâneo”, garante. Mas deixa o aviso: “Porém, o CIM também tem uma dimensão municipal e, até, supra municipal, pelo que deverá envolver entidades externas à Mouraria na sua actividade”.

O responsável nega ainda que se esteja a subverter o conceito definido para o centro de inovação. “O CIM não é uma ‘incubadora empresarial’. Os projetos que venham a ser incubados ou apoiados pelo CIM podem ter diversos tipos de personalidades jurídicas, inclusive os que são próprios das organizações sem fins lucrativos. Ou seja, serão muito bem-vindas associações, cooperativas, entre outras”, assevera, deixando expresso o desejo da equipa de gestão do equipamento de que “este seja uma alavanca importante da dinamização social e económica da Mouraria”. Meneses desvaloriza, no entanto, a pretensão de ali instalar o centro de interpretação da cultura islâmica, por desconhecer o grau de “reconhecimento” do espólio reunido e alegando que tal valência seria muito dispendiosa.

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COMENTÁRIOS

  • Paulo Etnarama
    Responder

    Mais um objecto estranho que em nada serve a Mouraria nem bairros periféricos. Mais uma para os burgueses. Parabéns CML…

  • João Meneses
    Responder

    Meu caro Samuel Alemão,

    Com o devido respeito pelo seu trabalho jornalístico, aqui ficam breves notas:

    1) Classificar a Associação Renovar a Mouraria (ARM) como a “mais importante associação local” parece-me claramente exagerado e muito injusto para as dezenas de outras associações com mais passado e trabalho realizado na Mouraria. Desde a Largo Residências (mais recente) até ao Grupo Desportivo da Mouraria (mais antigo), exemplos não faltam. E, já agora, se me permite, seria também de bom tom ser mais objetivo nessa afirmação tão peremptória – por exemplo, materializando-a através de indicadores próprios para medir o impacte social local da associação (o qual, a meu ver algo injustamente, já foi várias vezes questionado pela população local);

    2) Afirma, também, que se verifica a contestação de “algumas associações locais” – seria possível dar mais, se possível todos os exemplos?

    3) Faltou mencionar no seu artigo algum aspetos da minha resposta ao Jornal Rosa Maria. Entre eles, que recentemente a ARM solicitou condições privilegiadas de acesso ao equipamento para aí instalar uma agência de comunicação, tendo inclusive solicitado à CML a aquisição de todo o equipamento necessário para o seu funcionamento (entre os quais, bons computadores, softwares dispendiosos, etc.);

    4) Também a Associação Bairros, no passado, apresentou um “caderno de encargos” à CML para ser parceira do projeto – o qual previa, por exemplo, o financiamento dos salários de vários funcionários seus;

    5) A dimensão museológica defendida pela ARM é muito interessante, mas atenção que não há nenhuma certeza quanto à qualidade/interesse histórico do espólio, nem orçamento disponível para o efeito, nem condições de segurança/funcionalidade no equipamento para acolher uma unidade museológica. Assim, ficou pendente essa possibilidade, ou seja, voltaremos a analisar a questão no futuro;

    6) De qualquer modo, e de todos este será o aspeto mais importante, tal como já afirmei repetidas vezes no passado à ARM, estaremos muito atentos e se se verificar que o Centro de Inovação da Mouraria não está a cumprir os objetivos a que se propõe ou que poderia ter outra função mais interessante, seremos nós os primeiros a (humildemente) reconhecer a necessidade de mudança. Neste momento, gostávamos de ter o mesmo voto de confiança que nos últimos anos a CML deu à ARM repetidas vezes e sob diversas formas. Neste momento, tentaremos criar uma excelente incubadora criativa, projeto em falta na cidade de Lisboa e com ligação forte ao passado da Mouraria (naturalmente, envolvendo o mais possível a comunidade local). Mas, de novo, se virmos que tal não resulta ou que haveria uma melhor função a dar ao edifício, seremos os primeiros a reconhecer a necessidade de mudança;

    7) Enfim, lamentamos a atitude da ARM, sobretudo porque acreditamos que a sua presença e participação seriam importantes para o sucesso do Centro de Inovação da Mouraria, mas temos esperança que tal ainda venha a acontecer;

    8) Por último, caro Paulo Etnamara, não sei quem são os “burgueses” a que se refere mas olhe que me parece que a frequência do Centro de Inovação da Mouraria não será muito diferente da frequência da própria Associação Renovar a Mouraria. Ah, e aqui fica o convite para aparecer!

    João Meneses

  • Ana Margarida Silva
    Responder

    DOIS MILHÕES !

  • P. Fausto
    Responder

    Talvez tivesse sido boa ideia especificar detalhadamente o propósito do edifício antes de o construir.

    Agora que está a obra acabada, qualquer diferendo cai rapidamente para a acusação mútua de oportunismo, como se pode ver pelas posições da Bairros (explícitas) e de João Meneses (veladas).

  • Susana Simplício
    Responder

    Deixo aqui o link e pequeno texto da Câmara Municipal de Lisboa com indicação do que é o Centro de Inovação da Mouraria / Mouraria Creative Hub.

    “O Centro de Inovação da Mouraria / Mouraria Creative Hub é a primeira incubadora de Lisboa a apoiar projetos e ideias de negócio das industrias criativas, em especial nas áreas de Design, Media, Moda, Música, Azulejaria, Joalharia, entre outras.
    Disponibilizamos postos de trabalho totalmente equipados, uma ampla rede de mentores, formação e consultoria à medida, acesso a soluções de financiamento e apoio à comercialização dos produtos e serviços.
    Tudo isto apenas a 10 minutos a pé do Chiado.”

    http://www.cm-lisboa.pt/centro-de-inovacao-da-mouraria-mouraria-creative-hub

  • Susana Simplício
    Responder

    Deixo aqui o link e texto da proposta do Centro de Inovação da Mouraria no Orçamento Participativo de 2012.

    Título:Centro de Inovação da Mouraria
    Número:242
    Área:Turismo, Comércio e Promoção Económica
    Descrição:
    Centro de desenvolvimento social, cultural e económico, localizado no Quarteirão dos Lagares, que visa ser um pólo centralizador destas dimensões. Visa promover e desenvolver a dimensão de aprendizagem e formação profissional, dando um enfoque na recuperação dos ofícios tradicionais em Lisboa; a dimensão de empreendedorismo económico e social reforçando os negócios locais já existentes e atraindo novos negócios; a dimensão de incubação de projetos empresariais e/ou sociais que envolvam direta e indiretamente a comunidade local; a dimensão de criação artística e cultural com enfoque nas indústrias criativas de forma a reforçar a dinamização territorial da Mouraria e simultaneamente a sua abertura à cidade e ao mundo. Poderemos ver alguns bons exemplos deste tipo de projeto: http://www.marsdd.com/; ; http://www.socialinnovationpark.org/; http://www.socialinnovationpark.com/; ; http://www.the-hub.net/; http://www.la-ruche.net/; http://www.la27eregion.fr/; http://www.youngfoundation.org/our-work/ventures-and-investment/our-ventures/our-ventures.
    Local:Quarteirão dos Lagares
    Custo:400000.00
    Prazo de execução:18 meses

  • Susana Simplício
    Responder

    Deixo aqui o link para a CARTA DE PRINCÍPIOS DO ORÇAMENTO PARTICIPATIVO DO MUNICÍPIO DE LISBOA.

  • João Meneses
    Responder

    Cara Susana Simplício,

    1) Ainda bem que vai à raiz. Vejamos: como bem transcreve, a proposta OP (também) previa que o Centro de Inovação da Mouraria deveria promover “a dimensão de criação artística e cultural com enfoque nas indústrias criativas, de forma a reforçar a dinamização territorial da Mouraria e simultaneamente a sua abertura à cidade e ao mundo.” Pois é precisamente essa a sua missão atual. Se for bem sucedido nessa missão, mantém-se, caso contrário, altera-se, com toda a humildade, como temos dito. Essa parece-me ser a abordagem correta – e própria dos processos de aprendizagem contínua (e heurística);

    2) Nunca se esqueça de ler a Carta de Princípios até ao fim, ou seja, até ao Princípio 8. Isto é, ainda que neste caso haja fidelidade a uma matriz inicial, os resultados devem ser sempre dinâmicos, ou seja, se puderem ser aperfeiçoados, devem sê-lo! Não lhe parece ser essa uma regra salutar, digamos, para a vida em geral…?

    3) Por último, e por falar na vida em geral, que tal uma atitude mais construtiva e confiante? Ou, se preferir e em alternativa, que tal adotar preocupações verdadeiramente “reais” e decisivas para o futuro da Humanidade…? Sugiro-lhe os Objetivos do Milénio das Nações Unidas, que precisam de revisão urgente, ou as alterações climáticas.

    4) Por último, uma questão importante: para além de jornalista, é sócia da Associação Renovar a Mouraria…?

  • Susana Simplício
    Responder

    Respondo enquanto pessoa e cidadã. Os links que aqui deixei são meramente informativos, de acesso público, para uma opinião e leitura mais esclarecida sobre o assunto e o artigo em causa, sendo os posts imparciais. Qualquer interpretação aos meus comentários/posts foram de sua livre vontade.

    Não compreendo a relevância de saber se sou jornalista ou se sou sócia da associação renovar a mouraria ou outra coisa qualquer.

  • P. Fausto
    Responder

    Esta última intervenção de João Meneses é de uma deselegância pouco admissível a um representante da CML.
    Pelo menos serve para levantar um pouco o véu do que se passou. Começa a ser mais ou menos perceptível.

  • Inês Andrade
    Responder

    Não sendo esta a sede própria para alimentar este tipo de debate, pela natureza das insinuações proferidas contra a Associação Renovar a Mouraria (ARM), é nosso dever responder directamente às mesmas, visto colocarem em causa a credibilidade e trabalho realizado da mesma, noutros palcos tantas vezes referido como exemplo pelos mesmos actores.

    A posição oficial da ARM relativamente ao CIM, legitimada em assembleia geral, é a de não se identificar com a visão da CML para este equipamento, sendo também que esta não é 100% coincidente com as visões da proposta OP quer na candidatura QREN.

    Sempre estabelecemos com a CML uma boa relação de parceria e sempre sentimos da sua parte o reconhecimento do nosso trabalho. Parece-nos estranho que assim que assumimos uma posição que não está alinhada com a CML, seja posto em causa o nosso trabalho e relevância no território.

    Para responder concretamente à questão dos indicadores, não faz sentido estar a massacrar os leitores com inúmeros dados e resultados, vamos apenas apresentar uma breve síntese de números desde a abertura da Mouradia – Casa Comunitária de Mouraria (Dezembro de 2012), após a sua reabilitação, também ela feita por nós:

    54 pessoas alfabetizadas; 278 utentes com apoio jurídico e encaminhamento; 234 imigrantes com acesso a aulas de português; apoio ao estudo diário a 39 crianças e jovens; 61 guias locais formados. Todos estes serviços são gratuitos.

    Para quem pretender ter dados mais detalhados pode consultar os nossos relatórios de actividades http://www.renovaramouraria.pt/documentos-legais/

    No que diz respeito às insinuações de oportunismo e acesso privilegiado gostaríamos de frisar que a ARM defendia a co-existência de um Centro de Interpretação da Mouraria e não um museu, um espaço de estudo mas sobretudo um espaço de construção da identidade territorial. A ARM disponibilizou-se para a construção deste projecto e apoio na obtenção de fundos para o mesmo, bem como para as escavações arqueológicas.

    Foram mais de 12 meses de tentativa de construção conjunta do projecto, com diversas organizações locais, e conforme se pode ler nestas declarações da vereadora Graça Fonseca, “é a comunidade a definir o que acontece no edifício da Câmara”

    http://noticias.sapo.pt/nacional/artigo/inovacao-e-mobilidade-na-mourari_5158.html

    Quando começaram as negociações directas com a CML, as propostas apresentadas, na sua grande maioria, foram rejeitadas. Desde propostas para critérios de impacte local dos projectos a incubar, o enfoque na questão da cultura árabe do local, e, sobretudo, criarem-se condições para que o equipamento estivesse de portas abertas e assumisse um papel âncora na dinamização cultural e turística do bairro.

    Estas propostas eram parte de um todo de outras que resultavam de um conjunto de organizações locais que tinham vontade de fazer do CIM esse equipamento estratégico que fazia parte da candidatura ao QREN e da proposta que ganhou o OP. Foi ainda proposta a instalação de um estúdio de fotografia, som e imagem, de forma a servir a comunidade e os artistas locais, bem como os incubados.

    Após reunião da Associação Bairros (da qual a ARM faz parte) com a vereadora Graça Fonseca, foi-nos dito que apenas poderíamos apresentar propostas concretas de actividades a desenvolver, postos de trabalho e equipamento, e quais as contrapartidas que daríamos em troca, salientando que não haveria orçamento.

    Nessa altura, os parceiros envolvidos no projecto apresentaram as suas propostas concretas, tendo a ARM solicitado 4 postos de trabalho e equipamento informático para instalação de um atelier de comunicação com o propósito de servir os comerciantes, artistas locais e incubados, prestando, em contrapartida, serviços de fotografia, imagem e comunicação gratuitos para o CIM e incubados com projectos com impacto no território. Outra contrapartida dada pela ARM seria colaborar, em parceria com a Largo Residências na programação cultural do CIM.

    A ARM nunca solicitou condições privilegiadas de acesso, esta última proposta foi o esgotar de inúmeras possibilidades de intervenção que nos foram sistematicamente recusadas, a nós e restantes parceiros.

  • Associação Bairros, Rede Local de Desenvolvimento
    Responder

    A Associação Bairros, Rede Local de Desenvolvimento,

    Decorrente das circunstâncias e da notícia, apenas queremos acrescentar o seguinte.
    A Bairros é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Lisboa, é composta por 35 associados colectivos e individuais, que desenvolvem actividades nos âmbitos social, cultural, saúde, desporto, direitos humanos e cidadania.
    Somos uma Rede de portas abertas à comunidade e temos muita honra, em participar em projectos que potenciem a coesão social e territorial, na cidade de Lisboa.
    A Bairros têm muito orgulho nos seus associados, parceiros e colaboradores, porque em conjunto prestam um grande serviço à comunidade e à cidade de Lisboa.
    Concretamente ao CIM, lembramos que o projecto de requalificação resulta do programa do QREN e que o programa funcional agora em fase de implementação resulta do empenho e mobilização da comunidade local, através do voto de um orçamento participativo.
    Esclarecemos que, a Bairros nunca apresentou, qualquer caderno de encargos, nem postos de trabalhos. A Bairros durante o processo, demonstrou disponibilidade para dialogar, participar e colaborar com a CML, neste projecto, bem como, em outros projectos.
    No âmbito da sua missão “pensar e facilitar o desenvolvimento local” a Bairros efetuou um levantamento / diagnóstico aberto das visões para o futuro CIM entre o fim de 2012 e o início de 2014. Neste período o equipamento é promovido pela CML como alavanca central para perenizar o trabalho de desenvolvimento territorial impulsado desde 2009, este contributo da Bairros, é visto como relevante, na altura e é efetuado em plena coordenação com o Gabip Mouraria.
    Este trabalho integrou três “processos” :
    -Um Open Space em Outubro de 2014 “O futuro da Mouraria é agora, vamos construi-lo juntos? CIM!
    – Um processo contínuo de recolha de opiniões sobre o que poderia ser o CIM.
    – Um desafio à comunidade no início de 2014, através de uma rede social, a Caixa de Ideias para o CIM. O desafio foi bem aceite e bastante participado pela comunidade local.
    Este trabalho de levantamento foi efetuado com poucos meios e quase exclusivamente através de tempo pro-bono (horas extras e voluntárias) de todos os agentes, e de uma pequena verba europeia que a entidade conseguiu para a organização do Open-Space.
    Entre 2012 e 2014, a informação disponível relativamente ao modelo de gestão do futuro CIM, é que o equipamento irá com toda probabilidade para um concurso público.
    No início de 2014 a Bairros toma posição em assembleia como candidata para a gestão e aguarda a definição e publicação do concurso publico.
    Fruto do levantamento efetuado e sendo integrada por agentes do desenvolvimento local, a Bairros elabora um documento que recolhe as ideias do processo de auscultação e que se enquadra no projecto do QREN e do OP.
    Em setembro a Bairros é informada que não haverá concurso para gestão do CIM, e que o projecto irá ter uma função sistémica, como equipamento para a cidade, e mais reduzida nas valências de projectos incubados, focado nas indústrias criativas. O projecto inicial sendo mais local, virado para o desenvolvimento do território envolvente, e mais aberto em termos de valências, ao abranger projectos sociais culturais e económicos em geral.
    Este último ponto cria desapontamento e desacordo, em parte dos agentes locais.
    A Bairros transmite à vereação responsável e ao Gabip Mouraria a sua preocupação e o seu protesto através dos devidos canais e reuniões bilaterais.
    Após uma fase de reflexão, no final de 2014, foi proposto pela CML e através do GABIP Mouraria, à Bairros e aos associados, que partilhassem ideias e apresentassem propostas para: o mobiliário e equipamentos tecnológicos, a programação e animação, prestação de serviços na capacitação dos incubados no CIM, em regime pro bono ou eventualmente, a troco de descontos parcial ou total no preço de utilização das salas.
    A Bairros participa neste processo formal/informal com a iniciativa da CML e apresenta (apos recolha de sugestões dos associados) algumas actividades que iria prestar para o CIM e os incubados do CIM, em troca de desconto (parcial ou total) na ocupação do espaço e de equipamentos.
    A proposta de troca da Bairros é avaliada negativamente num primeiro momento, ficando o processo em aberto e em fase de observação até a data.
    Informamos que a clarificação aqui transcrita, já foi efectuada e que não iremos comunicar mais sobre o assunto neste fórum através de mais comentários.

  • João Meneses
    Responder

    Gente,

    Pensava não voltar aos comentários, mas aqui estou (peço desculpa por abusar da vossa paciência).

    Independentemente desta notícia, e da indubitável liberdade de podermos falar sobre tudo, o problema de um certo jornalismo “pela negativa” é ser sempre pouco criador. Ou seja, porque acaba sempre por gerar tensões e conflitos, nem sempre necessários, pode facilmente tornar-se numa arma de destruição maciça de projectos, comunidades, sonhos e relações. Digo isto em geral.

    Vejamos: Em síntese, o que se passou com o Centro de Inovação da Mouraria foi que a dado momento se geraram duas visões ligeiramente diferentes para o equipamento: uma mais apoiada na CML, outra em duas organizações locais. Adoptámos a primeira por nos parecer mais viável. Seria impossível adoptar as duas. Agora, tudo faremos (em parceria) para que o Centro de Inovação da Mouraria sirva o melhor possível a cidade de Lisboa, a Mouraria e, em particular, os seus frequentadores (empreendedores e comunidade local). Se correr mal, como tenho dito, afinaremos a rota com determinação!

    A Associação Renovar a Mouraria e a Associação Bairros têm tido um papel decisivo na regeneração da Mouraria. Tenho tido o privilégio de trabalhar com ambas nos últimos quatro anos. Não o digo por simpatia. Por isso, contava e desejava tanto a sua participação ativa na criação do Centro de Inovação da Mouraria. É verdade que não nos termos propostos por ambas na proposta que me fizeram chegar (já agora, não no “caderno de encargos”, que foi a expressão infeliz que utilizei anteriormente), mas nos termos possíveis e que acreditamos serem viáveis.

    Pessoalmente, tenho a maior estima por ambas as instituições e, em especial, pelas pessoas que nelas trabalham e com as quais tive o privilégio de trabalhar nos últimos ano – em particular, a Inês e o Mourad, cujas competências, dedicação e sentido construtivo me merecem imenso respeito.

    Por último, até tenho a esperança de que esta mini crise possa vir a servir para fortalecermos as relações. Como sabemos, as crises são excelentes oportunidades de mudança e aperfeiçoamento. Enfim, viva a Mouraria!

    Nota finalíssima: Para os mais resistentes que tenham chegado até aqui, podem contar com a minha promessa solene de não voltar a comentar esta notícia. Já basta.

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