Há três décadas, a 27 de Setembro de 1985, o Amoreiras Shopping Center abria portas no coração da cidade de Lisboa. Como primeiro grande empreendimento comercial português do género, o Amoreiras – como é conhecido pelos lisboetas – marcou uma época especial na história da cidade e do Portugal do século XX. Foi, entre nós, a primeira catedral do consumo. Hoje, é visto como um espaço quase familiar. Há até quem lá esteja todos os dias e tenha feito amigos.

 

Texto: Ricardo Rodrigues

 

“Na altura, foi um obra muito grande, toda a gente falava do Amoreiras”, recorda Ivone Brito, 78 anos, uma lisboeta que vive na zona de Benfica desde a década de 1950 e frequenta o Centro Comercial das Amoreiras desde 1985, o ano da sua inauguração. Continua a fazê-lo e garante que, na época, o centro “deu muita vida à cidade”. De certa forma, para os lisboetas era como que a materialização de todo um ambiente de aproximação ao cosmopolitismo e ao desejo de “ser europeu” que se vivia naquela década, na vertigem da entrada para a então CEE (Comunidade Económica Europeia) e ainda no rescaldo do resgate financeiro de 1983 do Fundo Monetário Internacional.

 

Ivone Brito admite que não foi à inauguração do centro comercial – que neste domingo (27 de Setembro) comemora 30 anos -, mas que ainda no ano de abertura se tornou logo numa assídua cliente do Amoreiras. “Era empregada de escritório na Fiat. Entretanto, a direção decidiu acabar com os refeitórios e eu comecei a frequentar o Amoreiras com alguns colegas, porque podíamos comer por aqui”, conclui Ivone, ao relembrar-se de como começou a frequentar o centro comercial, faz agoratrês décadas. O certo é que o shopping começou então a fazer parte do dia-a-dia da vida dos lisboetas, a própria Ivone é testemunho disso. Hoje, podemos encontrá-la muitas vezes sentada num dos espaços comuns do centro a ler ou a fazer palavras-cruzadas.

 

 

“Em vez de ficar em casa o dia todo, venho para aqui fazer palavras cruzadas em francês”, garante Ivone, que tem necessidade de explicar que, apesar da sua idade, pretende ainda aprender um pouco dessa língua, já que o seu nome é, garante, “de origem francesa”. “Não é um centro muito barulhento e é agradável, tem muita diversidade de coisas e tenho o som da música para me fazer companhia”, explica, revelando que já tem feito algumas amizades com outros reformados que aproveitam o Amoreiras para relaxar e passar o tempo.

 

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Já perto da Loja das Meias – umas das marcas mais icónicas do centro comercial -, encontramos uma apressada Isabel, num claro contraste com a serenidade de Ivone. De sacos de compras num braço e pasta no outro, Isabel garante que costuma passear-se pelo Amoreiras nas suas pausas de almoço. “Quando tenho algum tempo depois do almoço, gosto de ver as montras. Venho aqui passear quase todos os dias”. Despede-se à pressa, justificando-se ao dizer que não pode chegar atrasada ao emprego. Afasta-se e perde-se no meio da multidão que, na pausa do almoço, faz parecer com que o Amoreiras esteja em hora de ponta.

 

 

No segundo piso do Amoreiras, numa esquina confinada entre grandes marcas, como a Padaria Portuguesa e a Zara, podemos encontrar uma pequena joalharia com todas as características de um comércio mais tradicional. Das poucas lojas pequenas que sobrevivem desde a inauguração do centro, Anselmo Rosa é um negócio familiar que cresceu com o Amoreiras. Damos com o próprio Anselmo Rosa no balcão da sua joalharia a fazer o inventário da loja. A sua filha, Maria José Rosa, garante que o pai sempre trabalhou neste ramo e que, há 30 anos, quando surgiu a oportunidade de vir para o centro, fizeram um grande investimento para abrir uma loja no novo espaço comercial.

 

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O motivo para abrir negócio no Amoreiras, diz Maria José Rosa, era pela euforia por parte dos lojistas causada pela dimensão da obra. “Era algo de novo, um grande centro”. Mas admite também que, “ao princípio, foram tempos difíceis”, graças ao grande investimento que a família Rosa teve de fazer para abrir o espaço no centro. “Os primeiros dois anos no Amoreiras foram um pouco assustadores: as pessoas criticavam, diziam que não estavam habituadas a uma área comercial tão grande”.

 

 

Na verdade, a obra do arquitecto Tomás Taveira foi alvo de enormes críticas nos primeiros anos, principalmente devido ao contexto económico português. Segundo Fernando Oliveira, director da Mundicenter – empresa proprietária do Amoreiras Shopping Center e de outras zonas comerciais -, “em 1983, nós estávamos sobre intervenção do Fundo Monetário Internacional e, portanto, a incerteza e a instabilidade, quer em termos económicos quer em termos sociais – que voltamos a repetir mais recentemente -, eram coisas que poderiam assustar os investidores. Mas eles foram capaz de arriscar e investir num empreendimento desta dimensão. E com sucesso”.

 

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“Foi um empreendimento que teve alguma polémica, como é normal em Portugal. Qualquer coisa diferente, que saia das rotinas, é sempre alvo de polémica. Mas o verdadeiro tribunal foi o tribunal dos visitantes e dos consumidores, que ditou a sentença e essa sentença foi o sucesso indescritível ao longo de 30 anos das Amoreiras”, afirma o director da Mundicenter, que acompanhou o Amoreiras desde os anos da sua construção.

 

 

Para Fernando Oliveira, o Centro Comercial das Amoreiras continua a ser hoje um lugar de encontros, de partilhas, de momentos e, acima de tudo, de compras. Na cidade, existem já outras superfícies comerciais de maior dimensão e bem mais enraizadas no quotidiano da cidade de Lisboa. Os desafios são grandes e a concorrência é forte, mas Fernando Oliveira garante que há “várias gerações que se revêm hoje nas Amoreiras”, graças à sua capacidade “de inovação, de criação de relações e de experiências com as pessoas”. O responsável diz que a superfície quer “continuar a apostar na diferenciação” face aos outros centros concorrentes.

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Centro Comercial das Amoreiras é um ícone na paisagem da cidade há 30 anos http://t.co/XxrVtFF5xy

  • JOÃO BARRETA
    Responder

    Fica a sugestão : Tentem fazer, de vez em quando, este mesmo tipo de “trabalhos” (e pela positiva), substituindo o CC Amoreiras pela Rua Augusta, pela Avenida de Roma, pelo Areeiro, por Campo de Ourique, por Alvalade, pelo Chiado, pela Rua do Carmo, pela Rua do Ouro, pela Rua da Prata, etc…, etc…, etc… .

  • Maria José Matos
    Responder

    .8

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