A polémica construção do Centro Cultural de Belém espelha uma época de grandes infra-estruturas num país acabado de entrar na CEE. O futuro do equipamento, 20 anos depois, joga-se na continuidade da colecção Berardo de arte moderna e na conclusão do projecto. A obra lançada no governo de Cavaco Silva, estimada em 32,5 milhões de euros, acabou por custar perto de 190 milhões de euros.

 

Texto e fotografias: Luís Filipe Sebastião

 

Os detractores apodaram-no de Centro Comercial de Belém. Mas o centro cultural inaugurado faz duas décadas continua à espera dos últimos dois módulos – um hotel e zona comercial –, capazes de lhe assegurar um complemento financeiro. Uma aposta difícil de concretizar, como admitiu a O Corvo fonte oficial do CCB.

 

As dificuldades em encontrar investidores para a construção do hotel são admitidas pela assessoria de imprensa do CCB. A administração presidida por Vasco Graça Moura, explicam, “tem aproveitado visitas institucionais ou empresariais para apresentar informalmente a disponibilidade do espaço e a possibilidade de aí instalar um projecto hoteleiro que funcione em ligação ao CCB, tendo também sensibilizado o Ministério da Economia para esta oportunidade”. Mas, acrescentam, como “qualquer projecto de qualidade para este espaço implica um investimento avultado”, e o modelo de concessão está em aberto, “o tempo de manifestação de interesse é necessariamente ‘longo’.”

 

Por outro lado, como estão “activos os direitos autorais dos arquitectos responsáveis pelo projecto”, na resposta por escrito enviada a O Corvo adianta-se que os projectistas “terão de participar ou ser consultados sobre qualquer projecto arquitectónico”. Já quanto a condicionalismos da nova obra, “decorrem da natural necessidade de respeitar a envolvente monumental e edificada dos espaços, e do necessário alinhamento, em termos de volumetria e fachadas, com os módulos já construídos do CCB”. Além disso, terá de assegurar o “respeito pela ideia inicial de manter áreas públicas de atravessamento e fruição por parte da população.”

 

Enquanto o hotel não avançar, a administração do centro cultural aposta naquele espaço “para apoiar logisticamente grandes eventos culturais ou comerciais no CCB, estando a ser estudada a possibilidade de desenvolver projectos de programação temporária” nestas áreas. Exemplos: “concertos e cinema ao ar livre”.

 

O projecto de Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, seleccionado de entre 57 a concurso, previa cinco módulos, dos quais apenas três estão construídos. A obra dos arquitectos italiano e português gerou acesa polémica, pela linguagem contemporânea junto ao Mosteiro dos Jerónimos. O monumento remonta ao século XVII e está classificado, com a Torre de Belém, como património mundial pela UNESCO.

 

Os custos da empreitada dos três módulos construídos até hoje também ampliaram o coro de críticas: os estimados 6,5 milhões de contos (32,5 milhões de euros) acabaram perto dos 38 milhões (190 milhões de euros). A construção do CCB foi lançada em 1988, era Cavaco Silva primeiro-ministro. Na sua génese, o equipamento cultural destinou-se a acolher, em 1992, a sede da presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias. O que aconteceu antes da abertura ao público, no ano seguinte. Em Março de 1993, abriram portas o centro de reuniões e o pequeno auditório, seguidos do centro de exposições, em Junho, e do grande auditório, em Setembro.

 

“Não havia um lugar onde pudesse ser apresentada, tirando a Fundação Calouste Gulbenkian, uma grande exposição internacional”, explicou à rádio TSF, por ocasião da comemoração dos 20 anos do CCB, Teresa Gouveia, à época secretária de Estado da Cultura, para justificar o lançamento do projecto.
No espaço à beira-Tejo, foram encontrados vestígios do seiscentista Palácio da Praia e, em 1940, foi aqui montado um dos pavilhões da Exposição do Mundo Português. Na década de 1980, porém, como recordou o antigo ministro do Planeamento, Luís Valente de Oliveira, numa conferência em Janeiro no CCB, os terrenos onde foi construído o equipamento estavam ocupados com matagal e por “restos de máquinas de terraplanagem, amarelas e enferrujadas”, de “um depósito de sucata da Junta Autónoma de Estradas”.

 

Vasco Graça Moura, presidente da Fundação CCB, desde Janeiro de 2012, salientou o papel “de relevo” do centro cultural na vida cultural de Lisboa e do país, mas alertou para a necessidade da sua manutenção. O responsável, à TSF, apontou como exemplo a substituição do sistema de varas de palco no grande auditório, que custou um milhão de euros, mas indispensável sob pena de o espaço “ficar obsoleto” para cumprir as diversas valências, do cinema ao teatro, da música à ópera.

Ao longo de duas décadas, o CCB chegou aos dez milhões de visitantes. No entanto, as visitas têm vindo a cair, nas exposições e em espectáculos. Nem a entrada gratuita no Museu Colecção Berardo (aqui instalada desde 2007) altera o cenário.

Oiça o que dizem sobre as duas décadas de CCB.


A conclusão do projecto arquitectónico pode ajudar a aumentar as fontes de receita. Os problemas com a titularidade dos terrenos, que pertenciam à Câmara de Lisboa, estão resolvidos. Mas a construção do hotel pode demorar. Uma área comercial adjacente também pode estabelecer uma ligação com a malha urbana envolvente.

 

“O que Lisboa ganhou foi o que se gastou. Não vejo quaisquer benefícios”, comentou com ironia um morador. Uma frequentadora do espaço, também residente na zona, tem opinião contrária. O CCB passou a oferecer uma programação diversificada, em termos de espectáculos, mas a colecção Berardo limita a oferta de exposições: “Admito que haja quem goste, mas eu não gosto”, frisou.

 

O acordo com o empresário Joe Berardo, válido por dez anos, contempla a aquisição pelo Estado do importante acervo artístico do empresário madeirense. Transacção que a crise poderá deitar por terra. Miguel Leal Coelho, administrador do CCB, considera que a continuidade da colecção Berardo para lá de 2017 “é uma questão política”, que cabe ao Governo decidir. Contudo, não tem dúvidas sobre alternativas para o espaço: “Já havia CCB antes da colecção aqui estar e haverá centro cultural depois da colecção”.

 

O espaço tem vindo a ser procurado para a realização de eventos comerciais, como forma de equilibrar o orçamento, numa cidade que viu surgirem, nas últimas décadas, novos pólos culturais e de lazer, como a Culturgest ou outras infra-estruturas no Parque das Nações.

Veja o vídeo de um equipamento que passou a fazer parte da cidade:

 

  • Alexandre Nunes
    Responder

    Agora que vai deixar de chover isto resolve-se!

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    Entre a qualidade urbana do CCB ( integração na escala da Praça do Império, ela mesma concebida para os dois Pavilhões da Exposição do Mundo Português ) , a indiscutível qualidade Arquitectónica e Volumétrica ( integrada em Linguagem-Tipologia e Escala da Praça e dos Jerónimos ) a sua adequada adaptação espacial e estilística à Função, a sua capacidade de contextualização (Materiais / Lioz) a sua adequada relação com a envolvente e Horizonte do Tejo (Terraços suspensos / Tejo) e a sua Itemporalidade Simbólica e Arquétipa sintonizada com a “Gravitas” emblemática da Lusitanidade/ Belém … e … o Desastre de Irresponsabilidade e Despesismo, além da insensível Ruptura Espacial e Estílistica que constitui o Novo Museu dos Coches … Bem … aqui temos algo que ficará como símbolo de toda uma Atitude que nos levou ao ponto onde estamos …
    Responsáveis … !?
    António Sérgio Rosa de Carvalho.
    Ver :

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