Casal em protesto à porta da Procuradoria-Geral da República há mais de 6.500 dias

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santo António

7 Abril, 2014

Florindo e Flora Beja chegam pelas sete horas da manhã à porta principal do Palácio Palmela, onde funciona a Procuradoria-Geral da República, na Rua da Escola Politécnica. Desdobram um cartaz no qual, em linguagem telegráfica, está contada aquela que dizem ser a sua história de vida: acusam um juiz e um notário, irmãos de Florindo, de lhe terem inventado uma biografia, dando-o como morto e atribuindo a Flora um novo marido. O objectivo era, afirmam, apoderarem-se dos bens adquiridos pelo casal, o que terão conseguido a partir de uma folha de papel em branco assinada por Florindo em 1983.

Flora instala-se no banquinho portátil que traz consigo. No chão, ao seu lado, coloca um saco onde traz as sanduiches que lhes vão servir de almoço. A dois metros, Florindo abre uma pequena mesa onde coloca um grosso volume de fotocópias de documentos que, explica ele, provam tudo aquilo de que acusa os irmãos. Pouco tempo está sentado, a sua primeira preocupação é substituir o número dos dias que passaram desde que, em Março de 1996, decidiu instalar-se, em protesto, à porta da PGR. E depois há que actualizar o dossier.

“Estamos aqui porque é contra o Ministério Público que nós estamos. O Ministério Público é que começou tudo, eles é que nos querem prender. Mas não conseguem”, garante. Um dos últimos documentos acrescentados ao dossier consiste numa notificação do tribunal, informando o casal de que é arguido num processo com julgamento marcado para 20 de Março.



“Já fui preso mais de trinta vezes”, afirma Florindo, que não se mostra nada preocupado com a notificação. A acusação não varia muito: o casal está a perturbar a ordem pública. Florindo invoca o artigo 45º da Constituição, que regula o direito de reunião e manifestação. Ele cita o texto de cor.

“Leia aqui: o que diz? Diz que os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. E que a todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação”.

Há pessoas que passam e os cumprimentam, são habitantes da rua, na sua maioria gente com muita idade, por vezes estrangeiros páram a tirar fotos, um antigo sinaleiro que regulava o trânsito na esquina da Rua da Escola Politécnica com a Rua Nova de São Mamede, actualmente na reforma, mantém-se por perto, é uma das pessoas que mais conversa com Florindo. Este vai identificando os transeuntes. “Aquele é advogado. Passam aqui muitos, alguns vêm falar connosco”. Uma funcionária sai da porta da PGR e diz “até amanhã”.

Flora nem sempre tem um discurso coerente. “É preciso muito cuidadinho com eles, minha filha”, diz. Neste “eles”, estão englobados não só magistrados, como médicos. Aponta o dedo ao Hospital Miguel Bombarda. “Mandavam-nos buscar a casa, ia lá a polícia de madrugada e levava-nos para o Miguel Bombarda. Lá diziam-nos ‘fiquem aqui, ao menos têm comerzinho”. Mas nós não ficávamos. Queriam matar-nos, se tivessemos tomado os remédios que nos queriam dar, não durávamos 15 dias. E veja lá o que escreveram nesta receita”.

A letra está um pouco sumida, no papel com o cabeçalho do hospital psiquiátrico recentemente encerrado. Mas ainda consegue ler-se, claramente, o diagnóstico clínico após exame do casal: “folie à deux”. “Sabe o que isto quer dizer, não sabe?”, pergunta Flor, que acusa outros médicos de a terem impedido de engravidar, a seguir ao seu casamento com Florindo, em 1964. “Viraram-me o útero ao contrário”, garante.

O casal mostra um aspecto limpo e cuidado, ele sempre de fato e gravata, ela bem protegida da chuva e do frio, com o cabelo arranjado. Parece vaidosa da sua aparência e mostra-se renitente em dizer a idade. “Tenho 71 anos. Era costureira, o meu sonho era ter um prontinho a vestir de criança. Estávamos no Alentejo, tentámos vender alguma coisa para montar o negócio e descobrimos que não tínhamos nada. Isso foi em 1992, só então soube que o meu marido tinha sido dado como morto. E que estava enterrado no cemitério de Aljustrel. Destruiram toda a nossa vida”, acusa.

Florindo tenta calar a mulher. Diz ter sido industrial, dono de uma fábrica de espelhos em Santiago do Cacém, e ter ganho muito dinheiro nessa actividade. Quantifica em 8.700 contos o montante do roubo de que acusa os irmãos. Mas, para ele, ofensa de tanto ou mais gravidade é Florinda ter sido dada como casada com outro homem. Todos os dias, ou quase todos, entrega na Procuradoria-Geral da República um novo documento. “Não tenho dinheiro para selos, entrego em mão e eles guardam na cesta, mas dão-me um registo, não deixo ficar as coisas sem mais nem menos”.

Cada novo procurador que chega ao Palácio Palmela recebe das mãos de Florindo Beja um “dossier” com o conjunto dos documentos que, segundo ele, provam que foi roubado e dado como morto pelos dois irmãos.

Quando chove, Florindo e Flora abrigam-se debaixo de um plástico transparente, tal como aconteceu no dia em que o Corvo foi entrevistá-los. À hora do almoço, satisfazem-se com duas sanduiches. Um pouco antes das cinco da tarde, guardam os seus pertences, enrolam o cartaz e vão para casa, jantar.

Seguem esta rotina há 18 anos, 6.587 dias, cumpridos na última sexta-feira. Tinham julgamento marcado para 20 de Março, mas não ficaram presos. Vão continuar, sempre, para sempre, na Rua da Escola Politécnica.

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Comentários
  • pedron
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    uma vida RT @ocorvo_noticias: Casal em protesto à porta da Procuradoria-Geral da República há mais de 6.500 dias – http://t.co/p1JMhHCdwa

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