Os excessos causados pelo turismo, associados às alterações legislativas recentes ao regime de arrendamento, estarão a empurrar muita gente para fora do centro de Lisboa. O crescimento da vida noturna em áreas tradicionalmente residenciais é apenas um dos sintomas. O alerta é de Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que fala na “ganância de muitos empresários, que querem ganhar num dia aquilo que poderiam ganhar num período prolongado”. Moradores e comércio tradicional sentem-se cada vez mais estrangulados pela hipervalorização das zonas procuradas pelos turistas.

 

Texto: Samuel Alemão

 

O aumento da vida noturna em Alfama e na Mouraria, relacionado com o incremento do turismo, está a provocar uma rápida degradação dos níveis de qualidade de vida. Tanto que terá já como consequência o abandono desses bairros por parte de alguns dos seus novos moradores. Quem o diz é Miguel Coelho (PS), presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que fala mesmo numa “onda destruidora”. “Alguns dos bairros da freguesia estão a ser invadidos pelos nossos filhos – se calhar, pelo meu também -, que vão para ali beber copos à noite e arrasam aqueles bairros”, afirmou o autarca, durante a sessão extraordinária desta terça-feira (15 de Março) da Assembleia Municipal de Lisboa.

 

Miguel Coelho – que falava durante o debate sobre uma recomendação apresentada pelo Bloco de Esquerda (BE), intitulada “Por uma cidade inclusiva e contra a gentrificação”, na qual se denunciavam os malefícios do excesso de actividade turística – diz que os efeitos negativos já estão a acontecer. “Deve ou não deve o nosso comércio noturno funcionar a partir da meia-noite? Temos aqui um conjunto de situações que levam a que as pessoas abandonem o território. Tenho muitos casais jovens que vêm ter comigo a dizer que se vão embora, porque os filhos não conseguem dormir à noite devido ao barulho da rua”, disse o presidente da junta.

 

O autarca afirma que “aquilo que está a acontecer no Bairro Alto e nos Cais do Sodré também começa a acontecer em Alfama e na Mouraria”. “As pessoas – não apenas os mais idosos, mas também os mais novos – começam a repensar se vale a pena viver no centro da cidade, porque a sua qualidade de vida está a ser perturbada e os seus filhos não conseguem descansar. A pressão turística não me incomoda, mas sim o mau uso que se faz da vontade que as pessoas têm de visitar a nossa cidade, por parte de empresários sem consciência nenhuma”, diz o eleito socialista, considerando que se deve ter cautela nas críticas ao turismo.

 

Para Miguel Coelho, o problema é a “ganância de muitos empresários do sector que, aproveitando todas as qualidades do nosso país e da nossa cidade, querem ganhar num único dia o que poderiam ganhar num período longo e prolongado”. “O turismo é importante para cidade, gera emprego, concretamente no território da minha freguesia. Há um determinado tipo de pessoas que ou trabalha na restauração ou não trabalham em mais lado nenhum”, afirma o autarca, que desafiou o BE a dizer se concorda com a limitação do consumo de álcool na rua a partir de certa hora.

 

O autarca levantou ainda a possibilidade de o comércio ser proibido de funcionar nesses bairros a partir da meia-noite. “É que a grande preocupação dos fregueses do meu território é que não querem um segundo Bairro Alto em Santa Maria Maior”, disse. O presidente da junta afirmou que têm de ser tomadas medidas urgentes, pois o território que administra – e do qual fazem também parte a Baixa e o Castelo – “está a perder população a um ritmo acelerado”. Miguel Coelho disse esperar que a Assembleia da República, na qual é também deputado, possa produzir legislação para que seja possível proteger a residencialidade desses bairros.

 

Já antes, o vice-presidente da Câmara de Lisboa, Duarte Cordeiro (PS) havia expressado o mesmo desejo. Até porque, alertou, a autarquia muitas vezes sente-se impotente face a determinadas dinâmicas, dado que não tem instrumentos legais para as poder alterar. “Nunca podemos perder de vista que há competências nacionais e competências locais. Somos completamente favoráveis às alterações legislativas que concedam maior protecção às pessoas a partir de determinada idade. Mas também somos favoráveis a que haja mecanismos de protecção a estabelecimentos comerciais de interesse municipal e que permitam às câmaras definir em concreto quais os que não podem ser despejados unilateralmente”, disse o autarca.

 

Duarte Cordeiro referiu que “é muito importante que fique claro qual o património que pretendemos proteger, quais são as pessoas que se pretende proteger” e produzir as alterações legislativas em conformidade. O vice-presidente da autarquia apontou os casos concretos da Lei do Arrendamento Urbano e do regime jurídico de obras em prédios arrendados. “Podemos bradar aos céus e pedir à câmara municipal para fazer determinado tipo de intervenções, mas quando não temos as competências para tal, isso não serve de nada”, afirmou.

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Casais jovens com filhos saem de Alfama e Mouraria por causa do ruído noturno https://t.co/khy5c1gLQt #lisboa

  • Sally Pethybridge
    Responder

    Casais jovens com filhos saem de Alfama e Mouraria por causa do ruído noturno https://t.co/kmIj9RK2KX The double-edged sword of tourism

  • Cibele E Peter Gunst
    Responder

    Iria Pinto Cardoso

  • Inês Oliveira
    Responder

    A vida nocturna realmente é uma questão perturbadora nos bairros de Lisboa. Mas o que realmente dificulta o nível de vida dos portugueses são as rendas de casas minúsculas e muitas vezes com problemas de infiltrações e etc…. Pois rendas de valor superior ao do ordenador mínimo (ordenado da maioria dos portugueses) faz com que a cidade já não seja para lisboetas, novos ou velhos!

    • Outra Inês
      Responder

      Concordo inteiramente!

  • Ana C C Lio
    Responder

    A cidade cresce anarquicamente, tudo é permitido. O caos impera nas ruas!

  • Zé Miguel
    Responder

    Ahahahahahahahaha

    São todos? Os gays com filhos adoptados também? Isto agora tem que se descriminiar, certo?

  • Marina Tabuado
    Responder

    Eu vivo em Alfama e o único ruído que ouço é proveniente das pessoas que aqui moram à mais de 30 anos. Já assisti por diversas vezes os turistas a chamarem a atenção dos habitantes locais por causa do ruído a horas tardias e a serem mal tratados.

    • joaquim
      Responder

      O teu pai deve ter um café só pode. Até já vários documentários sobre este malefício tem passado nas TVs, pior que um cego só quem não quer ver.

    • JMF
      Responder

      Pois é Mariana, a minha experiência é identica à sua, mas os turistas ultimamente são sempre o bode expiatório de tudo o que corre mal em Lisboa… Até parece que antes do boom de turismo isto era o paraíso na terra…

  • Maria José Oliveira
    Responder

    A lata deste Miguel Coelho. Anda há dois anos a receber queixas dos moradores e despertou agora para a indignação: https://t.co/Tgu6MpX0Xf

  • Morador
    Responder

    Alfama é definitivamente a zona mais silenciosa e tranquila onde vivi em Lisboa.

    É claro que já ouvi vizinhos aos berros de madrugada (raramente) e acredito que quem viva perto perto de bares/restaurantes. Agora, não façam daquilo que é esporádico, regra. Nem queiram uma cidade fantasma com recolher obrigatório depois do pôr-do-sol.

    Querem o que há de bom numa cidade cosmopolita e num monte alentejano. Mas esquecem-se que cada um dos casos tem os seus contras.

    • JMF
      Responder

      Já agora com tanta sugestão inteligente deixem-me acrescentar mais uma… por que é que não se mandam os residentes incomodados para o Seixal que é muito sossegado, á beira-rio ew com uma vista ótima, e ficamos só com os turistas que são pelo menos gente gira e, em geral, divertida e com aqueles que estão de bem com a Lisboa do séc. XXI?
      Ó MORADOR, isto é realmente tudo um drama do caneco…

      • Sandra Silva
        Responder

        Deves viver em benfica…

  • Carlos Guilherme Silva
    Responder

    Podem sempre ir morar no Bairro Alto…

  • Outro morador
    Responder

    Deve haver aqui muitos donos de negócios a inventar utilizadores. É um inferno aturar os bebedos pela noite dentro, o tabaco, navegar por um mar de gente para entrar em casa e arranjar lugar para o carro perto de casa é mentira. Haja paciência para esta pouca vergonha.

    • MORADOR
      Responder

      Um mar de gente para entrar em casa? Em Alfama? So pode ser piada.

  • Pedro Vaz
    Responder

    Mas nós em lisboa temos uma área ribeirinha tão grande porque não deslocar toda este tipo de diversões nocturnas para lá? Assim eram beneficiados os moradores que não tinham de ouvir tanto barulho e os comerciantes trabalhavam à vontade sem as restrições cada vez maiores.

    • maria ornellas
      Responder

      Concordo com o Pedro Vaz.
      pois se a beira rio é compridíssima, bonita e como não moram pessoas não existem problemas, porque não aproveitá-la para todas essa diversões até tarde e deixarem os velhos bairros com restaurantes,casas de fado mas com os casais novos e os casais com mais idade descansarem o necessário.

  • Rui Martins
    Responder

    entre lisboetas e o comércio nocturno a CML e sucessivos governos têm favorecido os segundos contra os primeiros… https://t.co/QsfpwA4JXf

    • Vasco
      Responder

      Os milhares que vivem à custa dos senhorios em casas de rendas congeladas não foram nada favorecidos…

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com