É uma batalha antiga de muitos amantes dos eléctricos e demais defensores das formas de transporte menos poluentes. A reactivação da linha 24, que ligava o Cais do Sodré a Campolide, quando encerrou à circulação, em Agosto de 1995, para a construção de um parque de estacionamento neste bairro, está fora dos planos da Carris. A ainda empresa pública admitiu em nota escrita enviada ao Corvo, na semana passada, não ter planos para proceder ao relançamento de uma das mais acarinhadas carreiras de eléctrico da cidade. A procura seria reduzida para os custos, argumenta. Além disso, aponta a existência de uma alternativa nos autocarros.

 

Fica assim, mais uma vez, por cumprir uma promessa antiga – em relação à qual existe mesmo um protocolo assinado entre a Carris e a Câmara Municipal de Lisboa, em 1997 – e que, no ano passado, chegou a ser anunciada pela autarquia como um dos potenciais atractivos associados à total reabilitação do Largo Rafael Bordalo Pinheiro. O arruamento passaria a ser dedicado, quase em exclusivo, aos peões e às esplanadas, havendo lugar para uma zona de tomada e largada de passageiros do eléctrico – preservando-se os carris tais como estavam. A obra terminou em meados de Janeiro passado. Mas as notícias do regresso do 24 parecem ter sido manifestamente exageradas.

 

“Do ponto de vista da Carris, a eventual reposição da circulação de elétricos efetuando a carreira 24E não é uma prioridade, dado que, naquele percurso, existe já um serviço de transporte em autocarro”, diz a fonte da empresa. “Contudo, trata-se de matéria que não depende exclusivamente da Carris, pelas implicações que tem ao nível da necessidade de obras na via férrea e na rede aérea, disponibilização de veículos, reordenamento viário e de estacionamento”. As duas últimas são competências da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Em Fevereiro de 2014, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, dizia ao jornal Sol, que se estava a “estudar os eléctricos que ali vão passar”.

 

A realidade seria, porém, mais complexa. Aos motivos alheios à sua vontade para que esta operação não se lhe afigure oportuna, a Carris junta-lhes outras justificações relacionadas com o seu próprio funcionamento. “A atual inexistência de veículos disponíveis obrigaria a sacrificar no todo, ou parcialmente, alguma carreira e a colocação da infraestrutura em condições operacionais implicaria o correspondente investimento, ao mesmo tempo que a expectável utilização desse serviço seria reduzida”, esclarece a transportadora. Um argumento, aliás, já utilizado noutras alturas em que se aludiu ao ressuscitar do 24.

 

Um objectivo que se vai protelando, para frustração de quem, há muito, vem reclamando a sua concretização – como é o caso do grupo cívico Movimento Fórum Cidadania Lisboa. Depois do encerramento, em 1995, da linha surgida 90 anos antes, têm saído sucessivamente goradas as expectativas dos que gostariam de voltar a fazer uma ligação de eléctrico subindo a Rua do Alecrim, passando junto ao Bairro Alto, Miradouro de São Pedro de Alcântara, e depois na Rua da Escola Politécnica, no Largo do Rato e Rua das Amoreiras. E isto apesar de existir um compromisso formal nesse sentido, firmado em 1997, entre a Carris e a CML e também de diversas moções aprovadas na Assembleia Municipal de Lisboa.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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