Entre 2010 e 2013, as políticas restritivas impostas às duas empresas que estruturam o transporte público na região de Lisboa fizeram com que perdessem um total de 120 milhões de passageiros: a Carris passou dos 235 para os 165 milhões (menos 70 milhões) e o Metropolitano dos 180 para os 130 milhões (menos 50).

O Metro e a Carris, disse terça-feira o director da Mobilidade e Transportes da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Tiago Farias, entraram nesse período numa “espiral inacreditável” de perda de oportunidades. Mas com as negociações para a concessão dos transportes colectivos, encetadas entre o Governo e a Câmara, surgiu este ano “uma luz” para que venha a ser o município a decidir a função dos dois operadores, anteviu o quadro superior da CML, no segundo debate de uma série de quatro sobre os transportes públicos de Lisboa, organizado pela Assembleia Municipal.

Apesar da conjuntura recessiva, no ano passado – informou Luís Barroso, administrador da Carris e do Metropolitano – as receitas tarifárias da Carris cobriram 89,2% dos custos operacionais, ficando por cobrir 10,3 milhões de euros, enquanto o valor registado no Metropolitano foi de 78,4%, com um défice maior: 17,3 milhões de euros. Um défice conjunto, portanto, de 27,6 milhões, apesar da forte subida do preço dos bilhetes e da redução de custos, aspecto este criticado por funcionários das transportadoras presentes no debate.

Apesar das restrições impostas aos transportes públicos de Lisboa – a Carris, por exemplo, teve que reduzir, naquele triénio, 21% da sua oferta de veículos/quilómetros –, o negócio da gestão dos transportes colectivos parece ter alguns atractivos. Rui Lopo, vereador da mobilidade da Câmara Municipal do Barreiro, outro membro do painel do debate, sublinhou-o ao dizer que ela “é rentável, ou não teríamos aqui um operador privado a deitar as unhas de fora”.

Referia-se à empresa Barraqueiro, transportadora que hoje opera 2530 autocarros e 120 combóios, representada ali pelo seu colega de painel Luís Cabaço Martins. O administrador do grupo privado citara aqueles 21% para argumentar que uma empresa privada, como a sua, teria a vantagem da independência face ao poder político e certamente não se sentiria obrigada a fazer a redução da oferta que a Carris fez.

A fragilidade das empresas públicas foi referida também por Rui Lopo (que foi eleito pela CDU), ao criticar a insuficiência das chamadas indemnizações compensatórias. Nos últimos 20 anos, garante, o Metropolitano de Lisboa foi prejudicado em meio milhão de euros por mês.

Lopo citou ainda outro caso de negócio apetecível, no quadro de eventuais privatizações: a operação de transporte fluvial entre o Barreiro e Lisboa, a quarta maior ligação fluvial do mundo, que é gerida por uma empresa pública.

Foi pacífica a ideia de que o tarifário dos transportes colectivos “tem que ser o que as pessoas possam pagar”. Mas trata-se de uma evidência que choca com o problema de como cobrir o preço comercial do transporte. Com financiamentos provenientes do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), de portagens impostas a veículos particulares, de benefícios fiscais? A questão ficou no ar.

Se os operadores públicos são melhores que os privados, ou o contrário, não ficou esclarecido. Mas, em ambiente municipalista, foi notória a esperança – prosseguida pela actual vereação – de uma gestão local dos transportes colectivos.

Para quem tenha ouvido o administrador da Carris, Luís Barroso, dizer que a empresa sofre “três a quatro paragens extraordinárias por dia, mais de 58 horas por mês”, devido ao mau estacionamento na cidade, é possível que se levante uma dose de expectativa quanto às capacidades da Câmara.

Os debates prosseguem a 3 de Junho.

Texto: Francisco Neves

  • Mónica Lopes Alfredo
    Responder

    Experimentem baixar os preços, em vez de os aumentar.

  • Maria de Morais
    Responder

    podiam ter feito uns quantos mais, se tivessem aumentado o numero de carruagens no fim de semana passado…

  • Xana Fidalgo
    Responder

    Se baixassem um pouco os preços tinham aumentado o número. Quem tuido quer tudo perde!

  • Mariana Mi
    Responder

    Para muita gente passou a compensar ir de carro (partilhado ou não). Principalmente para as pessoas que tinham passe combinado.
    Eu pagava 25€ só para carris e agora sou obrigada a pagar 35€ para carris e metro. E não preciso de andar de metro…

  • Filipe S. Henriques
    Responder

    Carris e Metro perderam 120 milhões de passageiros nos últimos três anos http://t.co/gHPPPuMEnk

  • Luís Romão
    Responder

    RT @fhenriques: Carris e Metro perderam 120 milhões de passageiros nos últimos três anos http://t.co/gHPPPuMEnk

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