Carris de eléctrico desativados são armadilha para ciclistas

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Cláudia Silveira

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Cidade de Lisboa

23 Maio, 2014

A falta de manutenção dos carris de elétricos abandonados nas ruas de Lisboa representa um perigo acrescido para ciclistas e motociclistas. Atenção redobrada e uma condução preventiva são conselhos para quem não dispensa as duas rodas na cidade. Quem é o responsável por estes troços é uma questão antiga, opondo a Câmara Municipal de Lisboa e a Carris.

Descer a Avenida Almirante Reis de bicicleta é um verdadeiro passeio. Quase não é preciso pedalar e podemos desfrutar da viagem por uma das maiores avenidas de Lisboa de cabelo ao vento. Basta ter os cuidados normais com o trânsito e também para não ganhar muita velocidade. Na zona dos Anjos, no entanto, surgem no chão os carris dos elétricos e mesmo o ciclista menos experiente sabe instintivamente que tem de redobrar a atenção para que as rodas não vão parar na ranhura dos carris. Nos carris da Almirante Reis passa o 28, que liga os Prazeres, em Campo de Ourique, ao Martim Moniz, mas existem em Lisboa muitos carris onde há muitos anos não passa nenhum amarelinho – nem de nenhuma outra cor.

Quem anda regularmente de bicicleta na cidade já sabe que onde existam carris – estejam em utilização ou não – é necessário estar mais alerta. Sobretudo quando chove. Laura Alves pedala quase diariamente em Lisboa há seis anos e, tal como praticamente todos os seus amigos ciclistas, já foi parar ao chão num dia de chuva por causa dos carris dos elétricos. Felizmente, sem gravidade.

Mário Alves, da Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBI), não tem dúvidas de que os carris são uma das causas de queda mais frequentes de ciclistas em Lisboa. Tanto porque a roda se pode enfiar no carril, como pelo escorregamento da roda sobre o carril e ainda “devido a irregularidades do pavimento por má manutenção fazendo com que haja ressaltos indesejáveis”. É na falta de manutenção, tanto do pavimento como dos próprios carris, que parece residir o perigo acrescido que representam os carris que não estão em utilização.

Essa é também a opinião de Ruben de Carvalho (CDU), ex-vereador da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que em 2010 apresentou uma proposta de remoção das linhas desativadas, que não teve, no entanto, desenvolvimento. “O carril de ferro vai-se deteriorando e começa a desfazer-se, criando pontas de ferro que representam perigo para as pessoas, tanto para os ciclistas e os motociclistas, como para os automóveis”. Isso não acontece nos carris em utilização, já que o próprio uso os mantém, nota o ex-vereador comunista, garantindo conhecer relativamente bem o problema, porque o investigou na altura. Não é, no entanto, um problema fácil de resolver, reconhece.

Desde logo, existe dificuldade na identificação do “dono do problema”. É uma questão com décadas e que se resume num “jogo do empurra” entre a CML e a Carris, como nota Pedro Martins, do pelouro da mobilidade da autarquia. “Apesar de a concessão da Carris prever que a empresa é responsável pela manutenção do pavimento onde existem carris, isso só acontece onde os carris estão em uso, e não nos outros”, diz, assumindo que não tem restado à CML outra solução se não suportar os custos dessas obras.


A Carris, em resposta através da agência de comunicação Unimagem, afirma que “quando são efetuadas intervenções mais profundas nos arruamentos onde existem linhas desativadas, sempre promovidas pela CML, é esta entidade que decide sobre o destino a dar aos carris, seja a sua remoção ou o seu tapamento com um tapete de betuminoso”.

Perante a explicação da Carris, e apesar de não ser nova, Ruben de Carvalho continua a surpreender-se: “Essa é boa! Quem é que lá pôs os carris e os utilizou enquanto foram rentáveis?!”. Para o ex-vereador, a solução realizada em alguns locais, de cobrir os carris com uma camada de betuminoso, não é uma boa solução. “Algumas ruas ficam com quase mais 10 centímetros de altura em relação aos passeios. Era o que acontecia na Rua do Ouro antes da repavimentação que foi feita, em que as várias camadas aplicadas faziam com que a estrada parecesse o dorso de um camelo”.

Outra questão sobre a qual parece não existir consenso é o número efetivo de quilómetros de carris desativados. Enquanto a Carris indica sete, Pedro Martins diz que, desses, muitos já foram ou arrancados ou cobertos, sem, no entanto, conseguir indicar um número exato. “A Rua Prior do Crato, em Alcântara, foi recentemente repavimentada e os carris removidos – que é o que acontece quando há operações mais profundas nos pavimentos. O mesmo vai acontecer na Rovisco Pais, junto ao Técnico, que será uma rua pedonal com ciclovia, no prolongamento da Duque D’Ávila. Também aí os carris serão removidos”, diz, notando que o “alto custo da obra de remoção dos carris tem sido inteiramente suportado pela CML”.

Uma linha que não será removida e, pelo contrário, vai ser reativada, é a da antiga carreira 24, que ia do Carmo a Campolide e que foi suprimida em 1995, estando, para tal, a Câmara a aguardar a chegada de um elétrico turístico.

A reativação de linhas que já existiram e a instalação de novas linhas seria, na opinião de Mário Alves, da MUBI, uma forma de ajudar a resolver o que considera serem os verdadeiros problemas de mobilidade e perigosidade da cidade de Lisboa: o excesso de automóveis e de velocidade dos veículos motorizados. “Os percursos de elétricos erradamente desativados no final do século XX deveriam ser restabelecidos, sinal de que Lisboa estaria a inverter uma política de décadas de privilégio ao automóvel particular. Uma cidade com mais carris ativos seria uma cidade melhor para todos os que nela se deslocam, qualquer que seja o seu modo de transporte”.

A reativação de outras linhas é, segundo Pedro Martins, “um caso de estudo. Existem vários locais onde poderão ser colocados elétricos a funcionar, embora não nos atuais carris”. Já a Carris, refere, na mesma resposta, que “não existem planos de expansão da frota de carros elétricos”, que é atualmente de 60 carros.

A quem anda de bicicleta, resta, entretanto, fazer uma condução preventiva, como alerta Laura Alves: cruzar sempre o carril na diagonal com a roda da bicicleta e nunca no sentido do carril. Talvez por viver e trabalhar na zona de Alcântara, entre o Largo do Calvário e a Avenida 24 de Julho, onde existem muitos carris em uso, não se sente particularmente incomodada pelos que estão desativados. “Se não servem para nada, era preferível que não estivessem lá, mas se estão, é preciso saber lidar com eles”.

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COMENTÁRIOS

  • Xana Fidalgo
    Responder

    E para motoqueiras como eu. Um perigo!!

  • Xana Fidalgo
    Responder

    Não há maneira de por uma cobertura provisória? inventa-se tanta coisa e não há nada que resolva este problema?

  • Tiago Freire
    Responder

    um perigo. andar de mota nestas ruas é uma aventura.

  • Bruno Teixeira
    Responder

    Não querendo despresar a V/ noticia que é bastante relevante… deixo aqui um comentário…Última hora… ALGUNS (para não dizer vários) Ciclistas são perigo para peões e automobilistas…(Ps: Eu sou ciclista)… Prato do dia… Passar vermelhos (Check); Passar nas passagens de peões e/ou passeios a abrir (Check); Achar que é normal andar aos “esses” e de preferencia a 3 ou mais (Check)… lamento, mas efectivamente há muita falta de civismo, particlarmente desde que o códio da estrada foi alterado esses “pseudo-ciclistas” julgam-se acima da Lei e fazem o que lhes dá na telha…

    • R
      Responder

      Totalmente de acordo….

  • Art Lourenço
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    São?Se fossem só os carris, os carris pelo menos todos sabemos que lá estão, muito pior são os buracos, as tampas de esgoto desniveladas etc. Lisboa é das piores cidades Europeias para andar de bicicleta e não é por causa das colinas, nem do calor , nem do frio, um dos principais problemas é o piso,para quem anda de bicicleta e de moto. é uma desgraça.Ponham mas é electricos em cima dos carris que fazem lá muita falta, em todos os aspectos. Caro Bruno Teixeira, existem, como em todo lado, pessoas com falta de civismo, mas não me parece que a coisa entre ciclistas seja assim tão grave, nada que com umas acções de sensibilização não se resolva,aliás quem faz mais isso até são os betetistas de Domingo,e eu também sou um bettista,de vez em quando. Isso é estar a tomar o pormenor pelo geral.Os ciclistas são perigosos para os automobilistas? pois são quantos e quantos ciclistas já atropelaram mortalmente automobilistas dentro das suas viaturas,Quantos e quantos ciclistas fazem razias aos pobres automobilistas…São aos milhares esses malandros. Haja paciência!

    • R
      Responder

      os ciclistas não respeitam nada nem ninguem basta passear na R Augusta (dava uma boa repostagem) esta rua é pedonal e segundo o novo código da estrada interdita a bicicletas … mas infelizmente é velos, … em bando. Deveria ser obrigatório como antigamente terem carta, e seguro e as bicicletas matriculadas. disse

  • Vasco Alves
    Responder

    Tanto o ferro como o cobre enterrado para negativar as linhas, daria para pagar o trabalho de levantamento destes carris.

  • Vasco Alves
    Responder

    As tampas de esgoto e os remendos são outro problema. As tampas são como as caixas de derivação nas casas, ramifica-se em vez de uma instalação feita com pés e cabeça. Como se usa (mal) ultimamente, derivado a…mas é “devido” a mau planeamento e a deficiente manutenção.

  • MUBi
    Responder

    Aqui está um post da MUBi sobre a seu depoimento integral ao CORVO: Solicitada pelo O Corvo a MUBi reflectiu sobre as questão dos carris do eléctrico na cidade: “Cidades com mais carris ativos seriam cidades melhores para todos os que nelas se deslocam, qualquer que seja o seu modo de transporte.” [No entanto] “Os carris são claramente uma das causas de queda mais frequentes de ciclistas.”

    Qual é a vossa opinião?

  • Mariana Mi
    Responder

    Concordo em absoluto com o que o Bruno Teixeira disse.
    Não sou ciclista mas sou peão e moro numa zona em que os passeios são largos. Resultado: constantemente vejo ciclistas nos passeios.
    Ao que o Bruno disse, acrescento a malta que anda em contra-mão.
    São cada vez mais ciclistas. São raros os que vejo a cumprir as regras de trânsito. Na grande maioria adaptam as regras que mais lhes convém no momento: ora são veículos, ora são peões.

  • Tiago
    Responder

    Infelizmente tenho caído algumas vezes por causa dos carris…
    Faço diariamente o caminho para o trabalho de bicicleta, circulando sempre na estrada e cumprindo o código da estrada. E é uma aventura muito perigosa, os automobilistas, principalmente taxistas e motoristas da carris, ainda pensam que estamos na estrada a brincar e que o nosso lugar é nos passeios.
    Sempre que me ultrapassam, aceleram e fazem-no com razia. Por exemplo, a subir na almirante reis, com duas faixas, o carro que circula na esquerda vai a empatar ou a parar. E é o cliclista que vai à sua velocidade pela direita que é buzinado pelos automobilistas que estão atrás. Ridículo.
    Ou então ultrapassam esse carro pela direita quase atropelando o ciclista que vai na faixa da direita.
    As estradas em Lisboa são uma porcaria, mas o pior é a falta de respeito e a insegurança que os automobilistas têm. Não generalizando, mas quase todos!
    Concordo que devem existir mais regras em relação aos ciclistas, para evitar/multar esse tipo de circulação em passeios como referem. Até acho que devia ser obrigatório ter carta de condução para circular na estrada. Nem digo cat b.

  • Tiago
    Responder

    *o pior é a falta de respeito e insegurança que os automobilistas transmitem ao ciclistas.

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