Carnide Clube recusa sair da sede, mas senhorio garante que ordem de despejo será cumprida

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

VIDA NA CIDADE

Carnide

30 Agosto, 2018

A colectividade desportiva está há 90 anos no Largo do Coreto, em Carnide, mas nem a história, nem a importância cultural que tem na freguesia, demoveram a proprietária da decisão de não renovar o contrato de arrendamento. O Carnide Clube terá de abandonar a sede no último dia de Agosto. O inquilino não teve opção de compra do imóvel, nem conseguiu negociar com a dona do edifício a permanência nas instalações. Por isso, não está disposto a cumprir a ordem de saída. “Se a senhoria quiser colocar-nos uma providência cautelar, está no seu direito, mas vamos ficar”, garante a presidente da histórica agremiação. O advogado da senhoria responde a tal promessa dizendo que “existem meios expeditos de assegurar o cumprimento da obrigação” da entrega do espaço. O presidente da Junta de Freguesia de Carnide acredita que a proprietária “não vai agir de má-fé”, até porque o clube ainda não sabe o resultado da candidatura a entidade com interesse histórico, realizada em Julho. * (reconhecimento, entretanto, publicado no Diário da República, nesta quinta-feira, 30 de Agosto, já após a publicação deste texto)

O Carnide Clube tem de entregar as chaves do palacete onde está sediado há 90 anos, até sexta-feira, dia 31 de Agosto, mas a colectividade recusa-se a abandonar a sede. “Se a Marquesa do Lavradio, a senhoria, quiser colocar-nos uma providência cautelar, está no seu direito, mas vamos ficar. Estamos confiantes que vamos ser distinguidos como entidade de interesse histórico”, avança a presidente do Carnide Clube, Tânia Estronca, em declarações a O Corvo. O reconhecimento do Carnide Clube enquanto “entidade de interesse histórico, cultural ou social local”, uma distinção que poderá ajudar a associação a permanecer naquele edifício mais cinco anos, esteve em consulta pública até meados de Agosto, esperando-se agora o aval da Câmara Municipal de Lisboa (CML). * Entretanto, e já depois da publicação original deste texto, o referido reconhecimento entrou em vigor nesta quinta-feira, dia 30 de Agosto, com a publicação do novo estatuto da colectividade em Diário da República.

Em meados de Abril, o filho da dona do imóvel, Miguel Almeida, dirigiu-se à sede do Carnide Clube para informar pessoalmente o inquilino da decisão de não renovação do contrato renegociado em 2013, de acordo com a nova lei das rendas. Na altura, foi a própria Câmara de Lisboa que aconselhou a associação desportiva a realizar a candidatura a entidade de interesse histórico, para espanto dos responsáveis do clube. “Ficámos muito surpreendidos com a ajuda da Câmara de Lisboa. Quando recebemos a carta da senhoria, mandámos logo emails para vários partidos políticos e todas as portas se abriram para nos receber. Nunca esperei que nos ajudassem, pensei que seríamos mais uma a fechar, como tantas outras colectividades que têm encerrado na cidade”, admite Tânia Estronca. O presidente da Junta de Freguesia de Carnide, Fábio Sousa (PCP), que também se mostrou disponível, desde o início, para apoiar o clube a permanecer nas instalações, situadas no Largo do Coreto, tem encorajado a associação desportiva a “aguardar”.

 

 

“A fase de consulta pública terminou e, agora, a Câmara de Lisboa está a apreciar as exposições feitas pelos cidadãos, para depois levar o tema a reunião do executivo. Acho que o proprietário não vai agir de má-fé e, enquanto estiver a decorrer o processo, vai esperar”, acredita o autarca. Miguel de Almada, advogado da proprietária do Clube de Carnide, diz, no entanto, que “mesmo que este reconhecimento venha a ser concedido, não se torna ineficaz a cessação do contrato de arrendamento por oposição à renovação já exercida”. A garantia é dada em depoimento escrito a O Corvo, sem ser explicado, porém, de que forma a distinção não protege a colectividade. A mesma resposta já tinha sido dada ao Carnide Clube, que reage com surpresa a tal argumentação. “Se conseguirmos este estatuto, podemos ficar mais cinco anos na sede e a Câmara de Lisboa pode expropriar o edifício. Não entendemos o que querem dizer, quando nos dizem que esse estatuto não nos vai ajudar”, diz Tânia Estronca.

 





 

Miguel de Almada afirma, contudo, que a actual proprietária não é insensível à “importância do colectivo para a comunidade local”. E uma prova do seu “espírito de colaboração”, alega, é visível na renegociação do contrato, em 2013, por “um valor de renda muito inferior aos mínimos legais”. O preço da renda comportava, porém, “a inutilização e desvalorização de um importante activo do património, com perdas progressivas muito substanciais”. Volvidos cinco anos, a Marquesa do Lavradio pretende, agora, requalificar o imóvel e “optimizar a utilização dos seus espaços”, mas o novo destino da sede do Carnide Clube ainda está “em fase de estudo e avaliação”. “Necessita de obras profundas, até por razões de segurança pública, mas só faz sentido optar por uma obra estrutural e coerente para todo o edificado e não continuar com pequenas intervenções de remendos pontuais. Neste momento, estão diferentes hipóteses em cima da mesa”, adianta.

O representante da proprietária garante ainda que a senhoria ofereceu “total disponibilidade para, e sem prejuízo da decisão que já estava tomada, procurar soluções no sentido de que o Clube encontrasse alternativas para sedear as actividades”. “Desde então, o Carnide Clube nunca voltou ao contacto com a senhoria, nem a procurou a fim de explorar conjuntamente esta via. Pelo contrário, resolveu encetar um conjunto de iniciativas unilaterais, incluindo uma campanha nos media, que contribuiu para extremar posições e restringir as opções de futuro”, critica o advogado da senhoria. A presidente da colectividade tem, contudo, uma versão diferente.

 

“Nunca houve vontade em ajudar. Disseram-nos que tinham pena, sabendo o historial do clube, e perguntaram-nos se não conseguíamos que a Câmara nos realojasse. Mudar uma colectividade que está aqui há 90 anos em quatro meses é um bocadinho difícil, a realidade é que não nos querem cá”, considera a dirigente. A poucos dias de ter de abandonar a sede da colectividade por si presidida há uma dúzia de anos, Tânia Estronca diz continuar surpreendida com a “falta de vontade do senhorio” em manter ali o clube. “Ninguém estava à espera, as pessoas estão muito chocadas, porque foi aqui onde passaram a sua infância e adolescência. Quando estamos num sítio há 90 anos é quase como se fosse nosso”, desabafa.

 

A 29 de Junho, o colectivo, juntamente com o presidente da Junta de Freguesia de Carnide, lançou uma petição pública online contra a saída da sede, que já conta com 1.985 assinaturas. Está, também, a circular uma subscrição manuscrita, já com 300 signatários, para os moradores mais idosos e sem acesso à internet. No início desta semana, a 27 de Agosto, o Carnide Clube realizou um protesto junto à sede para “reforçar o descontentamento” com a perspectiva de saída daquele local. “Apenas pedimos ajuda da forma que conseguimos e vamos continuar a socorrer-nos dos meios que temos, não concordamos que estamos a fazer uma campanha”, esclarece Tânia Estronca, em resposta às alegações do advogado da proprietária.

 

 

Situado no coração da freguesia há nove décadas, o Carnide Clube foi uma das primeiras creches sociais da cidade de Lisboa e o balneário público de alguns moradores. “Isto era uma zona de quintas e de fábricas e as pessoas deixavam aqui as crianças gratuitamente. As casas não tinham condições, não havia casas de banho nem esgotos, e os nossos balneários serviram muitas pessoas. Há pouco tempo, vinha aí um senhor tomar banho ainda”, conta a dirigente. O café, uma das fontes de financiamento da colectividade, recebe pessoas de vários estratos sociais, desempregados e idosos, que passam ali a tarde a jogar cartas, matrecos ou bilhar, preservando alguma memória da instituição.  “O clube acaba por ser um ponto de encontro, costumo dizer que é um centro de dia alternativo. As pessoas sentem-se em casa, sentam-se a ver televisão e fazem um bocado o que lhes apetece. À noite, é frequentado por malta mais nova”, explica. O Carnide Clube abre às 14h e fecha à meia-noite e aos fins de semana e feriados encerra às 2h.

 

O clube desportivo tem cerca de 750 atletas, 450 federados e 300 a aprenderem basquetebol no âmbito de um projecto social. Desde 2013, a modalidade desportiva é leccionada gratuitamente a crianças da freguesia de Carnide, mas também do Lumiar e da Brandoa, na Amadora, onde o projecto teve início. “Queríamos expandir o projecto, mas perdendo a nossa casa é difícil”, lamenta Tânia Estronca. O basquetebol pratica-se em espaços alugados, “durante algumas horas”, pela colectividade. Neste momento, estão a treinar diariamente no ginásio do clube cerca de 40 atletas de artes marciais: kickboxing, karaté e taekwondo. É aqui, também, que os treinadores se reúnem e onde se preparam novas épocas e jogos e onde já ficaram algumas atletas estrangeiras.

 

 

O Clube de Carnide tem vários títulos de campeão europeu em diversas modalidades, é o quarto clube português com mais títulos de campeões nacionais, e acabou de ser campeão da primeira divisão sénior de basquetebol feminino. “Temos um grande historial, principalmente a nível do basquetebol, saíram daqui grandes atletas. O ciclista Joaquim Gomes começou nas nossas instalações. Houve coisas que o progresso nos fez perder, mas o clube foi sempre muito virado para a população”, conta ainda a presidente do Clube, enquanto mostra as dezenas de taças e medalhas expostas à entrada. Os mais velhos recordam os bailes e as festas de carnaval, “que duravam uma semana”, assim como o cinema ao ar livre e até uma biblioteca que chegou a existir naquelas instalações.

 

O presidente da Junta de Freguesia de Carnide, Fábio Sousa, em declarações a O Corvo, e questionado sobre possíveis espaços alternativos para o Carnide Clube, caso as actuais venham mesmo a fechar, diz que “ainda não é altura de pensar nisso”. “Ter uma nova sede seria um plano C, seria assumir a derrota e a ideia é continuar lá. Ainda estamos na luta”, assegura, não deixando de reconhecer a dificuldade em arranjar um novo espaço. “Na freguesia, as casas são quase todas de privados, não há espaços camarários, é muito difícil arranjar outra sede. Há um grande equilíbrio das forças políticas relativamente a esta causa e a participação pública foi muito importante e acreditamos, por isso, que a luta ainda não está perdida”, conclui.

 

Segundo o advogado da Marquesa do Lavradio, na carta de oposição à renovação do contrato de arrendamento, bem como em correspondência mais recente remetida ao Carnide Clube, foi “expressamente requerida a entrega do espaço na data final do contrato” – isto é, 31 de Agosto de 2018. “Não sabemos se o Carnide Clube tem intenção de o fazer pontualmente, tendo apenas a certeza de que, caso tal não suceda, existem hoje meios expeditos de assegurar o cumprimento da obrigação a que o mesmo está adstrito e de salvaguardar devidamente os legítimos direitos da senhoria”, intima.

MAIS REPORTAGEM

COMENTÁRIOS

  • Paulo Só
    Responder

    Que eu saiba estamos em República, os títulos foram abolidos.

    • Jorge
      Responder

      Ou então estamos em democracia, e cada um pode usar o título que bem entender.

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Send this to a friend