corvo_feira_livro2 São raros os livros que se dedicam por inteiro ao fenómeno popular que são as Marchas de Lisboa. Por isso, “As minhas marchas”, escrito por Carlos Mendonça, o homem que transformou Alfama num bairro vencedor, é um bem precioso, onde se explicam os segredos do sucesso, se partilham músicas, desenhos e recordações pessoais escritas num tom franco e castiço.  

 

Texto: Rui Lagartinho            Ilustração: Sofia Morais

 

Estava Carlos Mendonça “posto em sossego”, quando em 1990 recebe o convite para ensaiar a Marcha de Alfama. As exigências que faz para aceitar o desafio assemelham-se às de um político que, estando na reforma ou no exílio, recebe um convite para assumir um cargo, recorda Carlos Mendonça no livro as “Minhas Marchas” agora publicado pela Alêtheia: “Eu escolhia o tema, escrevia as letras das cantigas, desenhava o figurino e os arcos e controlava a feitura dos mesmos. Ah! É verdade, falta dizer que não aceitaria sugestões ou propostas de mudança no meu trabalho de quem quer que fosse.”

 

A ditadura deu frutos: a marcha deu um salto no tempo, desempoeirou-se de um figurino rígido, os marchantes ganharam disciplina e deixaram de faltar aos ensaios, o bairro nunca mais deixou de ganhar prémios na Avenida. Em poucos anos, Carlos Mendonça desmonta os mitos sobre Alfama, introduz na sua arte elementos esquecidos, que faziam parte do quotidiano do bairro durante séculos. Tudo numa profusão de tecidos nunca vistos, de cores feéricas.

 

O livro agora lançado pela Alêtheia elenca, ano a ano, os temas musicais, as letras, os figurinos e as pequenas histórias que serviram de inspiração ao seu trabalho: em 1996, por exemplo, a floresta de manjericos que invade o Largo do Chafariz de Dentro, em Alfama, com dezenas de vendedoras acotoveladas em redor dos seus vasos, cravos de papel e pregões, deu o tema ao desfile.

 

 

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Com uma carreira de bailarino interrompida pelo serviço militar obrigatório e uma vasta experiência de figurinista, que o levou a trabalhar na BBC, em Londres, e a partir da década de 1980 na RTP e no teatro português, Carlos Mendonça dedica-se às marchas de Lisboa de alma e coração. Vinte e cinco anos depois, confessa que as marchas continuam a ser uma das suas “fontes de emoção”.

 

Se, para os preguiçosos, a tradição é sempre melhor, quando é o que é, como se pode fazer diferente, não cansar, manter a entusiasmo e a chama da primeira vez? Segundo Carlos Mendonça, o importante é não cair na rotina e resistir, nos últimos anos, a “não abrasileirar, não cair em excessos fáceis, potenciados pela transmissão televisiva”.

 

Depois de um interregno de quatro anos em que trocou Alfama pelo Alto Pina, uma transferência que deu brado no meio e que catapultou o Alto Pina para a vitória, Carlos Mendonça voltou a encontrar condições para trabalhar na marcha do seu coração e voltou à Alfama para quem desenhou os fatos e os arcos da marcha deste ano. Esta noite, lá estará ele na Avenida, vaidoso, talvez de livro debaixo do braço.

 

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