Candeeiros clássicos de Lisboa substituídos por novos? Há quem não goste disso

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

URBANISMO

Cidade de Lisboa

16 Março, 2018

Têm sido visíveis as mudanças na iluminação pública da capital. Se a troca das velhas lâmpadas pelas muito mais eficientes e económicas LED obedece a uma estratégia quase consensual – embora alvo de críticas -, a substituição de candeeiros antigos por modelos contemporâneos divide opiniões. Em vários bairros, como Madre Deus ou Alvalade, ou em “zonas estruturantes”, como Campo Grande ou Terreiro do Paço, têm sido retirados postes clássicos, com décadas de uso, para dar lugar a candeeiros de desenho mais arrojado ou simplesmente “incaracterísticos”. “Alguns não são dignos de áreas urbanas consolidadas”, critica o ex-vereador António Prôa (PSD), lamentando a “falta de sensibilidade” da Câmara de Lisboa. “Os candeeiros não são só para iluminar, também fazem parte da identidade da cidade”, diz. Na Madre Deus, o assunto tem dado que falar. O presidente da Junta de Freguesia do Beato reconhece que nem todos gostaram da mudança. Mas diz que os tradicionais candeeiros serão recolocados na mata ao lado do bairro.

As alterações iniciaram-se em Setembro, ainda durante a campanha eleitoral para as últimas eleições autárquicas. “Reparámos que estavam a colocar candeeiros novos, ao lado dos antigos. Pouco tempo depois, começaram a retirar estes. Fomos apanhados de surpresa, mas percebemos logo do que se tratava”. Rui Mota Lopes, eleito do PCP na Assembleia de Freguesia do Beato, recorda o momento em que algo mudou nas pacatas ruas do Bairro da Madre Deus, uma ilha de inusual harmonia numa zona da cidade pautada por desordenamento urbanístico. Tanto que os moradores começaram a comentar o sucedido, e não pelos melhores motivos. “Fomos contactados por pessoas do bairro a dizer que que deveríamos tomar uma posição”, recorda o autarca, justificando a razão pela qual o seu partido mencionou a questão na tomada de posse do novo executivo. Pouco tempo depois, também os eleitos do CDS-PP na freguesia mostravam a sua preocupação.

Mas o processo de substituição não será, afinal, um exclusivo do Beato. Na realidade, tem acontecido em várias zonas da cidade, nos últimos anos. Não só em operações com incidência sobre determinados bairros – como o da Madre Deus ou o dos Sargentos (Ajuda), mas também nos chamados “eixos estruturantes” da capital, ou seja, nas suas zonas principais, onde os candeeiros têm uma maior envergadura. Por regra, as acções de permuta dos candeeiros tradicionais por novos, com um desenho contemporâneo, são levadas a cabo pelo Departamento de Iluminação Pública (DIP) da Câmara Municipal de Lisboa (CML) com a justificação da necessidade de se proceder à modernização do sistema. A autarquia tem, aliás, levado a cabo um longo processo de substituição de sistemática das tradicionais lâmpadas pelas de tecnologia LED, de maior eficácia na iluminação e no consumo. Prevê-se que, até 2021, metade dos candeeiros de Lisboa tenham lâmpadas destas. Este ano, serão colocadas em 5500 candeeiros.

A mesma lógica de contestação, mas a uma escala mais localizada, acontece em sítio como o Bairro da Madre Deus. “O bairro tem características particulares. Não é igual fazer isto num bairro de prédios ou num de moradias. Os que estão a ser colocados não têm nada a ver, nem em termos de aspecto, nem de altura”, critica Rui Mota Lopes, salientando estar de acordo com a troca das antigas lâmpadas pelas LED. O que está em causa é apenas a retirada dos típicos candeeiros dos anos 1940 e a colocação de outros de desenho actual. “Os novos subvertem a lógica arquitectónica, dão cabo do arranjo do bairro. Por algum motivo, achamos que os candeeiros tradicionais identificam a cidade, têm o nosso cunho. Enquanto que estes que ali estão a instalar não identificam cidade nenhuma do mundo, pela simples razão de que são todos iguais”, afirma.

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O eleito comunista na freguesia considera que, “a partir de certa altura, esta troca passou a ser um facto consumado”. Incomodados com tal cenário, os eleitos da CDU mencionaram a questão na sessão de tomada de posse do novo executivo socialista da junta, a 17 de Outubro, criticando obras que “fogem completamente à lógica de enquadramento paisagístico e arquitectónico, para além de diminuírem a qualidade do serviço”. Dois meses depois, a 20 de Dezembro, numa assembleia de freguesia em que prestava informações sobre a actividade do último trimestre, o executivo informava que tinha reunido com o DIP da Câmara de Lisboa, para tratar do reforço da iluminação em várias zonas do Beato e “dar continuidade à empreitada de remodelação da iluminação pública no Bairro da Madre Deus”, que deverá estar terminada este ano.

Nessa mesma assembleia, os eleitos do CDS-PP conseguiram fazer aprovar uma recomendação em que, além de se pedir à Junta do Beato uma “solução adequada” para a iluminação da Rua Dom José de Bragança, se solicita a “reutilização dos candeeiros antigos (substituídos), na nossa freguesia”. Os centristas criticam não apenas a opção pela utilização de LED branco – em relação ao qual, dizem, existirão diversos estudos que o qualificam como “potencialmente prejudicial à saúde humana, devido à componente azul muito pronunciada no seu espectro” -, mas também a retirada dos corpos dos candeeiros antigos.





“Embora a maioria das pessoas que habitam esta zona da Freguesia não concordem com esta substituição, quer devido à ‘falta de estética’ dos novos candeeiros, quer, inclusivamente, no que respeita à própria iluminação, esta tem-se vindo a realizar, colocando os novos candeeiros praticamente no meio dos passeios, nas ruas interiores do bairro (onde os passeios são mais estreitos), inviabilizando desta forma a passagem de cadeiras de rodas, ou de carrinhos de bebé”, lê-se na recomendação do CDS-PP aprovada na última assembleia de freguesia do ano passado.

Contactado por O Corvo, o presidente da Junta de Freguesia do Beato, Silvino Correia (PS), admite que “tem havido algumas pessoas preocupadas com o destino dos candeeiros que têm vindo a ser retirados”. Mas garante não existirem razões para preocupação. “Tivemos o compromisso da parte do DIP de que iriam ser recuperados e reinstalados na zona da Mata da Madre Deus”, explica o autarca, assumindo que a opção pela substituição dos clássicos candeeiros por outros de traço contemporâneo pode não ser consensual.

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“A nossa maior preocupação era que se melhorasse a iluminação, tendo em conta a segurança das pessoas. Reconheço que o modelo de candeeiro que ali tem vindo a ser instalado não muito a ver com a traça do bairro. Há pessoas que gostam e outras que não gostam. O que interessa é que a iluminação do espaço público melhorou”, diz, esclarecendo ser esta uma matéria que começou ser trabalhada pela junta e pela CML ainda antes de 2013 – ou seja, num momento anterior à reforma administrativa da cidade e ao processo de descentralização de competências. Questionado sobre o número de candeeiros novos colocados no Bairro da Madre Deus, desde então, apontou para “centenas”.

Certo é que, como já se viu, a reposição de forma mais ou menos sistemática de candeeiros de iluminação da via pública com décadas de uso por novos, de configuração contemporânea, começou há já alguns anos. Um pouco por toda a cidade. “Em muitos locais, os que existiam há muito têm sido substituídos por coisas absolutamente incaracterísticas. Ao ponto de alguma das intervenções terem desvalorizado o espaço público. E isso é inaceitável”, critica António Prôa, deputado municipal do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) e vereador durante mais de uma década, até Outubro passado. “Estamos a falar de um meio urbano que tem história. Quando se intervém no espaço público consolidado, como é o caso da maior parte de Lisboa, há que ter cuidado. E o que estamos a assistir é a uma enorme falta de sensibilidade”, acusa.

O eleito social-democrata considera mesmo que não existe um pensamento estratégico ou um planeamento nesta matéria por parte da Câmara Municipal de Lisboa. Pior que isso, diz, a autarquia estará a cometer um grave erro ao olhar para estas peças apenas pela sua função e não pela sua integração como elemento de um contínuo urbano. “Está-se a olhar para os candeeiros da cidade como se fossem apenas peças de iluminação, quando não o são. Durante a noite cumprem essa função, é certo, mas durante o dia são mais que isso, são elementos que fazem parte da paisagem do todo urbano, o qual tem uma coerência e deve ser respeitado. São parte da identidade da cidade, não há dúvida”, afirma Prôa, dando exemplos recentes de trocas de equipamento que considera infelizes em áreas como as Avenidas Novas ou Alvalade. “Colocaram ali peças que não são dignas de uma área urbana, mais parecendo de uma zona pouco qualificada”, lastima, referindo-se aos grandes postes de tom metalizado, também colocados, no ano passado, nas laterais do Jardim do Campo Grande – onde, durante muito tempo, pontificava um clássico modelo de grandes dimensões em aço e pintado de verde escuro.

António Prôa desempenhou funções de vereador com o pelouro do espaço público, entre 2005 e 2007. E acha que, no que se refere a estas questões, “em Lisboa o cuidado tem de ser outro” e o grau de exigência maior. Afinal, é a identidade da capital que está em causa, reforça. O oposto, no entanto, do que estará a acontecer, sugere. “Lisboa tem sido alvo de uma grande operação de reabilitação do espaço público e acho muito bem, concordo em pleno. Mas, neste campo, isso tem dado azo a dois tipos de situações erradas”, diz o membro da AML. Se, por um lado, refere, se verifica a substituição de candeeiros tradicionais por uns desenhados por arquitectos responsáveis pelos espaços – “onde pontifica um défice de eficiência em relação a preocupações estéticas, optando-se por rupturas, por vezes, exageradas” -, noutros casos, nota, “há intervenções em que se substituem candeeiros clássicos por peças que não têm valor”. Exemplo disso, aponta, é a retirada sistemática do modelo “Cavan”, feito de marmorite. “Faz parte da identidade de muitas zonas”, garante.

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No final do mandato como vereador da oposição, a 26 de Julho de 2017, António Prôa apresentou uma recomendação, aprovada por unanimidade, em que se pede à CML o estudo da criação de um “percurso cultural ilustrativo da evolução do mobiliário urbano e o seu espólio como forma de preservar a memória e a história da evolução do espaço público de Lisboa”. E pedia-se também a criação de um “núcleo museológico” no âmbito do Museu da Cidade, reunindo o espólio de “mobiliário e elementos urbanos” da capital portuguesa. Depois de ver aprovada pela vereação tal recomendação, corporizando uma preocupação que assume ter “há muitos anos”, Prôa promete, em breve, trazer de volta o assunto ao órgão onde agora desempenha funções, a Assembleia Municipal de Lisboa. O referido núcleo museológico, explica, deverá incluir materiais tão diversos como marcos do correio, sinalética de trânsito, bancos de jardim ou papeleiras. A inclusão de candeeiros, se bem que compreensível, seria “mau sinal”, diz, porque significaria que estar-se-ia a reconhecer a sua obsolescência.

O Corvo questionou, a 15 de Janeiro, a Câmara Municipal de Lisboa (CML), sobre a política de substituição de candeeiros no espaço público. As perguntas endereçadas à CML foram as seguintes: “Qual o critério utilizado para a substituição desses ‘candeeiros clássicos’? É mesmo necessário proceder à substituição de candeeiros com décadas de utilização? Não seria possível colocar novas luminárias LED, mantendo as peças existentes, adaptando-as para o efeito? Quantos desses candeeiros já foram substituídos, e quantos o serão no futuro próximo? Qual o destino a dar a tais peças “clássicas” de mobiliário urbano?”. Até ao momento da publicação deste artigo, não foi recebida resposta às referidas questões.

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COMENTÁRIOS

  • António Sérgio Rosa de Carvalho
    Responder

    Mais palavras para quê … ?
    Olhemos antes para a escolha do Comité Municipal de Amsterdam, que em conjunto com as associações cívicas e institucionais de defesa do Património (e da Imagem Histórica da cidade), decidiu desenvolver este protótipo.
    Reparem que o modelo da Lanterna de coroa da segunda metade do Sec. XIX é reproduzido em três variantes, mas aplica uma técnica (high-tech) de iluminação contemporânea com reflector, que conjuga de forma muito eficaz e subtil, a reconstituição da imagem histórica com a eficácia da Iluminação, mas de forma muito sofisticada e correcta para a zona dos canais e todo o Centro Histórico.
    Iluminação Pública … Faça-se Luz ! por António Sérgio Rosa de Carvalho.16/05/2011

  • António Sérgio Rosa de Carvalho
    Responder

    (…) “A questão da escala e da coerência das proporções é importante tal como a imagem em baixo da cour Napoleon no Louvre, ilustra … portanto ou a mesma escala nas laterais … ou “palitos” …
    Mas há ainda outra solução que exclui “palitos” ( que iluminam também as áreas das esplanadas ) … ou seja a solução alternativa de por exemplo da Praça Piazza San Carlo em Turim ( ver em baixo ) , de lanternas a pontuar as aberturas das arcadas.
    Grave é a situaçào do muro do Cais das Colunas. Além da alteração de cotas deste muro com as conversadeiras / bancos e pedestais / ele é parte integrante do TODO do Projecto original da Praça onde o Cais está incluindo como MONUMENTO NACIONAL / faltam os candeiros …
    Aqui os velhos candeeiros originais estão adequados à escala e proporção dos pedestais …”

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