A televisão de Maria Vinha, de 64 anos, passou a estar muito menos tempo ligada, durante as noites dos dias de semana. “Antes, ficava em casa a ver novelas. Mas, agora, venho para aqui, caminho, sinto-me muito melhor e convivo com estas pessoas. Já não quero outra coisa. E a televisão fica desligada”, confessa, sem deixar de manter o passo estugado imposto pelo grupo que se embrenha pelos espaços verdes dos Olivais, neste aprazível início de noite de verão.

 

Desde que, no passado 29 de Abril, a junta de freguesia local lançou as caminhadas nocturnas populares, baptizadas de Olivais By Night, não tem cessado de aumentar o número de aderentes. As razões de quase todos para ali estar são muito semelhantes às da professora reformada do primeiro ciclo – e vão de encontro ao definido pela autarquia. Melhorar a saúde, combatendo o sedentarismo, mas também aumentar o convívio entre as pessoas, fortalencendo assim os laços dentro da comunidade. O Corvo acompanhou, na passada quinta-feira (2 de Julho), um dos três grupos de moradores que, todas as noites da semana, pelas 20h30, se põe a mexer. Cerca de três dezenas comparecerem à chamada.

 

Maria Vinha está muito satisfeita porque sente melhorias claras nos seus padecimentos: colesterol, diabetes e articulações. Como se isso não bastasse, convive com os que a acompanham, de segunda a sexta-feira. “Está-me a fazer muito bem”, reforça, pouco antes de a animada turma chegar ao vasto parque urbano do Vale do Silêncio. Uma festa em andamento. Durante uma hora, conhecidos e desconhecidos juntam-se para palmilhar a freguesia, ao início da noite de todos os dias úteis. Muitos participantes confessam ter passado a conhecer melhor determinados espaços da freguesia onde vivem há décadas, mas onde nunca haviam passado.

 

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Os caminhantes dividem-se em três grupos e partem de pontos distintos, liderados por um guia voluntário – o qual se responsabiliza pelo percurso em determinado dia da semana. A Junta de Fregueisa dos Olivais investiu na colocação de três sinais, idênticos aos das paragens de autocarro, em cada um dos pontos de partida – e que também são de chegada para cada circuito. Acompanhámos o grupo que arranca sempre da sede da junta, no Bairro da Encarnação. Há outro sinal junto ao recém-inaugurado Parque Infantil da Encarnação Norte e outro ainda ao lado da Biblioteca dos Olivais.

 

Consoante o programa definido, no momento, pela pessoa encarregue de desenhar o percurso – a qual, envergando um colete fluorescente, vais sempre à frente -, os três grupos vão-se cruzando entre si, juntando ou divergindo. A ideia é não criar percursos repetidos, fugir às rotinas. Ruas, avenidas, praças, parques, jardins, nada escapa a estas brigadas de andarilhos urbanos. A grande maioria são pessoas aposentadas, sobretudo mulheres. Mas há gente mais nova e também alguns homens, embora poucos.

 

É o caso de Adelino Gomes, 71 anos, antigo mecânico automóvel, que tenta fazer a ligação entre os que vão a passo mais apressado e os que se deixam ficar mais para trás. Aliás, essa é a sua única razão de queixa. “Há uns que andam muito depressa, puxam muito, e, depois, aqui o pessoal fica atrasado. Isto deveria ser mais equilibrado”, sugere. De resto, só tem coisas boas a dizer destas passeatas nocturnas realizadas a passo mais ou menos acelerado. Adelino acha que a nova forma de passar as noites lhe está a fazer muito bem. Até porque é hipertenso e os níveis de colesterol já lhe mereceram chamada de atenção por parte do médico. “Tomo um comprimido”, explica.

 

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Durante a caminhada, os participantes vão pondo a conversa em dia, demonstrando o seu afecto uns pelos outros, rindo, dizendo piadas, mandando bocas e incentivos mútuos. Cumprimentam vizinhos, amigos, conhecidos com quem se cruzam, uns a conversar à esquina, outros a fazer o seu exercício individual ou apenas a passearem o cão. A determinada altura, começa-se a cantar. A cada vez que um grupo de ciclistas – com as suas lanternas LED nos capacetes e nas bicicletas – se cruza com os passeantes nocturnos, ouvem-se gracejos e cantorias. Apenas no atravessamento das passadeiras se pede atenção a todos e, por uns instantes, se interrompe a vozearia.

 

A freguesia dos Olivais, para quem vem dos bairros centrais da capital, como acontece com o repórter do Corvo, assemelha-se supreendentemente vasta, variada e arejada. Há muito território para explorar. Muitos recantos, jardins e praças aparzíveis, sobretudo a esta hora em que a circulação automóvel nos bairros essencialmente residenciais por onde vamos passando é relativamente reduzia. Dá para o guia de serviço escolher à vontade o rumo a tomar.

 

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Nesta noite, como todas as quinta-feiras, cabe a José Pereira, 59 anos, liderar o percurso. O funcionário público, de colete envergado e acompanhado da filha adolescente, confessa ao Corvo ser um amante da actividade desportiva, tendo já praticado futebol e voleibol, entre outras modalidades. José explica que os percursos são aleatórios, definidos a cada partida. “A única preocupação que tenho é a de ir olhando para o relógio, para que as caminhadas não vão para além de uma hora”, explica. A meio do percurso, admite que, por vezes, é complicado ter de gerir e conjugar diferentes ritmos de caminhada. Por isso, há um grupo mais rápido que, a dada altura, se separa do grupo principal e zarpa por outro caminho.

 

O sucesso da iniciativa deixa sorridente Duarte Carreira, 29 anos, vogal da Junta de Freguesia dos Olivais. Foi dele, juntamente com a funcionária Olga Branco, 51, que partiu a ideia de lançar o Olivais By Night. “Quisemos fazer estas caminhadas como uma forma de contribuir para o bem estar físico e até emocional da população. Aqui na freguesia, havia muitas pessoas que gostavam de o fazer, mas ou tinham medo de andar sozinhos à noite nas ruas ou, pura e simplesmente, não tinham motivação para fazê-lo por falta de companhia”, explica o jovem autarca. “Além disso, esta é uma forma de conhecer os vizinhos e também ficar a conhecer a freguesia”, acrescenta.

 

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O sucesso da iniciativa é de tal ordem – com participações médias de 70 pessoas por noite -, que a Junta de Freguesia dos Olivais está já a pensar em criar um quarto ponto de partida dos percursos nocturnos, instalando o correspondente sinal do Olivais by Night. No final do circuito, novamente ao lado do edifício da junta de freguesia, os participantes, dispostos numa roda, fazem um último exercício físico de descompressão, liderado por Olga Branco. Todos participam com visível entusiasmo. Há risos alargados. Amanhã há mais.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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