Era uma das bandeiras de José Sócrates. O actual governo não lhe achou tanta piada e decidiu abandoná-la. A degradação e o abandono dos postos de carregamento dos veículos eléctricos levam António Costa a mandar retirar a sinalização e os lugares reservados. Para dar espaço ao estacionamento convencional.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

 

A rede de postos de abastecimento dos carros eléctricos está quase ao abandono. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) decidiu, por isso, começar a retirar a sinalização vertical junto aos mesmos, permitindo que todos os automobilistas estacionem nos lugares que, supostamente, seriam reservados ao carregamento deste género de veículos. “Os lugares de estacionamento são um bem precioso”, argumentou António Costa, na reunião pública de executivo, da última quarta-feira. O presidente da autarquia havia sido questionado sobre a situação da rede de abastecimento pelo vereador João Gonçalves Pereira, do CDS-PP, através da apresentação de uma moção.

Gonçalves Pereira diz que “é hoje notório que a rede de abastecimento carece de uma manutenção cuidada e urgente, sendo muitos os casos de postos de abastecimento eléctricos na cidade de Lisboa que estão em mau estado de conservação, vandalizados ou mesmo desligados, avariados, sem funcionar”. Na moção – que, de forma inédita e tal como outra referente à integração de técnicos de acção social nas equipas das Unidades de Intervenção Territorial, não foi sujeita a votação por recusa de António Costa -, o vereador centrista critica ainda o facto de os lugares reservados para o carregamento de veículos eléctricos estarem “recorrentemente ocupados por outro tipo de veículos, inviabilizando o carregamento das viaturas [eléctricas]”.

O eleito pelo CDS-PP considera que se está “perante estacionamento abusivo e ilegal, mas muito do qual é da responsabilidade do município, uma vez que não colocou junto aos postos de abastecimento a sinalização vertical adequada”, o que “inviabiliza também acções de fiscalização por parte das forças de segurança, tornando a rede ainda mais inoperacional”. De seguida, o documento elenca treze casos concretos de “irregularidades” detectadas pelo gabinete do vereador, entre ausência de sinalização vertical ou a inoperacionalidade do posto. Por isso, a moção pede à câmara que faça uma lista detalhada dos postos existentes, do seu estado de funcionamento e conservação e ainda da existência, ou não, da respectiva sinalização. E onde ela não exista, que passe a existir.

A moção pede ainda à CML que “faça chegar à empresa MOBI.E as anomalias detectadas para que, em articulação com a mesma empresa, se proceda à reparação e normalização dos respectivos postos de carregamento”. A MOBI.E é a entidade, sob tutela do Ministério da Economia, criada pelo governo de José Sócrates, para gerir a Rede Nacional de Mobilidade Eléctrica – aquela que foi, precisamente, uma das bandeiras do anterior executivo socialista, integrada no Plano Nacional de Ação para a Eficiência Energética. Mas a sua actividade encontra-se praticamente suspensa, por decisão do actual governo em não prosseguir a mesma estratégia, nomeadamente de manutenção e alargamento da rede de 1300 pontos de carregamento normal e 50 de carregamento rápido em espaços de acesso público.

Tudo sonhos de um passado recente – um futuro que já é pretérito. Sem que se saiba ainda o que vai suceder neste campo. O actual secretário de Estado da Energia, Rui Trindade, disse, a 18 de Outubro de 2012, que, em vez da rede de abastecimento através dos postos já instalados, o caminho passaria por promover o carregamento dos veículos “nos escritórios, nos centros comerciais e nas nossas casas”, por ser “menos caro”. Garantia ainda que isso “não significa que se é contra o veículo eléctrico”. Certo é que o sítio e a página de facebook da MOBI.E estão sem actividade visível desde há um ano. E, mais importante que isso, a rede de postes de fornecimento de energia apresenta sinais de deterioração e abandono.

Uma situação denunciada por António Costa, na reunião de quarta-feira, antes de se recusar a levar a moção do vereador do CDS-PP a votação. “Temos tirado a sinalização vertical dos postos de abastecimento dos veículos eléctricos, porque a MOBI.E tem desinvestido na rede. Ao que que parece, e por decisão deste governo, está adormecida”, disse o presidente da câmara. “Não vou reservar lugares que não servem para nada e não se destinam ao fim para que estavam destinados. Seria estar a roubar espaço para o estacionamento, que é um bem escasso”, rematou o autarca. Apesar disso, na página da autarquia faz-se a promoção desta rede e garante-se mesmo que, em Lisboa, “existem na via pública cerca de 500 postos de carregamento lento”.

 

Comentários
  • Helena Soares
    Responder

    Isto foi uma bandeira da UE, que entretanto foi descontinuada. Não é específica de Portugal

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