Suspensões, amortecedores, colunas de direcção e pneus. São estas as principais vítimas do mau estado generalizado do pavimento na cidade de Lisboa. E a carteira de quem tem de pagar o seu arranjo, claro está. Sobretudo pelos profissionais da circulação automóvel diária pelas artérias da capital, como os taxistas. As queixas são em coro, referem-se a múltiplos locais e têm como alvo comum a Câmara Municipal de Lisboa, acusada de nada fazer para resolver o problema. “Eles não fazem manutenção e nós é que pagamos”, queixa-se Alfredo Rodrigues, 53 anos, há uma dúzia deles ao volante do táxi, enquanto espera um cliente, na praça ao lado do Teatro Nacional Dona Maria II, no Rossio. A autarquia reconhece a gravidade e a escala da questão, debatida na última reunião do executivo municipal, na quarta-feira. Mas assume estar a ser muito difícil debelá-la, pois as verbas disponíveis são muito reduzidas face à dimensão do cenário.

“Este ano tem sido particularmente agreste em termos de degradação dos pavimentos”, admite Manuel Salgado, o vice-presidente do município. Trata-se da constatação do óbvio, pois um rápido percurso pelas principais artérias de Lisboa permite perceber a dimensão do problema, agravado pelas condições meteorológicas deste Inverno. Nem é preciso sair do centro. Cais do Sodré, Rua do Ouro, Restauradores, Avenida da Liberdade, Avenida Almirante Reis ou Calçada da Estrela são locais onde se evidenciam as más condições do pavimento, através da profusão de buracos e de grandes irregularidades no asfalto. “Isto tem piorado bastante, nos últimos tempos”, diz Alfredo Rodrigues. Um cenário corroborado pelo colega Paulo Jorge, 51. “Está muito mau e não se vêm arranjos nenhuns”, lamenta, enquanto empurra o seu carro um pouco mais para a frente, evitando ligá-lo e gastar combustível. Ao ouvi-lo, Américo Gregório, 59, diz: “Vá lá ver a cratera que está em frente à Loja do Cidadão dos Restauradores”.

De facto, o enorme buraco está lá, junto a uma paragem de autocarro. Permanecendo ali, durante uns momentos, podemos observar como os taxistas se tentam desviar da sua rota. Amândio Silva, 66, ao volante de um táxi “há seis ou sete anos”, lamenta o “grande descuído por parte dos responsáveis”, que deveriam agir, sem demoras, em vários pontos da cidade – sobretudo “na faixa Bus do sentido ascendente da Avenida da Liberdade, que necessita de uma intervenção urgente”. “Isto é um desgaste tremendo dos carros e obriga-nos a ir à oficina, muito mais vezes”. Outras vias especialmente criticadas pelos condutores profissionais, devido ao seu mau estado, são a Avenida Infante Dom Henrique, a Estrada de Benfica e o troço entre a Praça do Comércio e Santa Apolónia. Mas o arruamento por eles mais vezes citado é a Rua do Ouro, na baixa pombalina.

Uma realidade reconhecida pela autarquia. “A Rua do Ouro está em muito mau estado, é inegável”, afirmou Manuel Salgado, na reunião de executivo desta semana. O vice-presidente queixa-se da severidade meteorológica conjugada com a situação financeira, o que está a impedir a câmara de conseguir dar uma resposta adequada. O autarca explica que, para fazer face ao problema, são usadas duas abordagens, uma assente num “programa de tapa-buracos” e outra num “programa de repavimentações das vias” – tendo já algumas delas sido apontadas como prioritárias (Rua Ivens, Rua do Sacramento e junto ao Teatro São Carlos). “Mas, infelizmente, não temos verbas necessárias para cobrir a cidade toda. Estamos a ver como poderemos alocar mais verbas para tapar os buracos no centro da cidade e nos bairros”, diz.

Texto e Fotografia: Samuel Alemão

 

  • Jorge Galvao
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    Rebentei um pneu há 3 anos, abri processo na policia, entreguei tudo na CML mas, até hoje, nada pagaram. Devíamos era todos proceder assim. Em relação aos esgotos eu fazia o mesmo, esquecia-me de os pagar até ser ressarcido pela autarquia do prejuízo que tive com o pneu rebentado no tal buraco …

  • Miguel Cardoso
    Responder

    Talvez se utilizassem as verbas que ainda estão a gastar na “reformulação” do Marquês, conseguissem resolver o problema; na gestão viária também as opções são políticas

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