A Câmara Municipal de Lisboa, que há mais de 20 anos elabora sucessivos estudos de requalificação da Praça de Espanha, quer fechar de vez o mercado de rua que ali funciona. Recentemente, tentou transferir os vendedores que lá estão para Chelas. Eles não aceitaram e propuseram nova localização em Sete Rios.

 

Texto: Fernanda Ribeiro      Fotografia: Carla Rosado

 

O movimento é escasso, no mercado de rua da Praça de Espanha. Vende-se pouco, lamentam-se alguns feirantes, que andam apreensivos e pouco amigos de conversas com jornalistas. É que, em breve, o movimento ali poderá mesmo ser nulo, se for para a frente o plano da autarquia de fechar o mercado e demolir os pavilhões que ali foram erguidos temporariamente, há cerca de 28 anos.

 
Não é a primeira vez que os vendedores são colocados perante a hipótese de terem de sair da Praça de Espanha, onde estão há décadas, desde que foram desalojados do Martim Moniz.

 
“É cíclico e, aí de dez em dez anos, a câmara diz-nos que temos de sair daqui. Mas, desta vez, parece que é a sério, porque dizem que o plano já foi aprovado”, disse ao Corvo Vitor Palmela, vendedor do mercado e membro da comissão que representa os 75 comerciantes ali estabelecidos. A maioria deles  remete aliás qualquer esclarecimento para os membros desta comissão que elegeram.

 
Para a Praça de Espanha, a pedido da autarquia, já foram feitos diversos planos, alguns deles com grandes ambições mas nenhum concretizado. Em 1989, houve o chamado plano Salgueiro, em 1990, o plano do arquitecto Siza Vieira, e em 2005 um outro, feito pelo arquitecto João Paciência.

 

O mais recente estudo de requalificação da Praça foi desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico e discutido pela Câmara Municipal de Lisboa em Dezembro do ano passado. Nele já se previa a demolição dos pavilhões do mercado. Mas os comerciantes – tal como a maioria dos lisboetas – desconheciam-no e dizem que foi uma entrevista dada por António Costa, ao Correio da Manhã, em finais do ano passado, que os alertou.

 
“Tentámos uma audiência na câmara, mas, como não conseguíamos ser recebidos, decidimos fazer uma espera ao António Costa, para lhe perguntarmos se era verdade que o mercado ia fechar. E assim foi. Apanhámo-lo à saída de uma reunião e ele disse-nos: “O quê? Então ainda não vos avisaram?”.

 
A partir daí, o processo acelerou, conta Vitor Palmela. “Logo no mesmo dia, recebemos um telefonema, a marcar uma primeira reunião com o vereador Sá Fernandes. Mas ele foi um bocado arrogante. Disse-nos que para a zona do mercado estava prevista uma zona verde e nós ou aceitávamos ir para Chelas, ou nada. Porque, a haver alguma indemnização, não seria a câmara que nos ia pagar, mas o Montepio e a seguradora Lusitânia, com quem a câmara estava em negociações”.

 
O Montepio e a Lusitânia são donos de parcelas da Praça da Espanha e, de acordo com o novo plano que a câmara quer pôr em prática, está previsto que instalem novas sedes nas áreas a requalificar.

 
Ainda que contrariados, os vendedores dizem admitir sair dali. “Nós não nos opomos à saída, mas queremos ir para um espaço que seja digno”, diz Mukesh, outro comerciante da Praça de Espanha, salientando que para ali estarem os vendedores pagam taxas à câmara, 75 euros por metro quadrado.

 
Mukesh diz não perceber porque são tratados com tanto desdém: “Em todas as cidades da Europa há mercados de rua. Não são coisas más. Este é um mercado que abre todos os dias, não é uma feira”, sublinha.

 
A zona para onde a câmara os quis transferir não reunia condições, considerou Vitor Palmela. “Fomos ver e aquilo eram umas galerias, de um espaço de habitação na zona J de Chelas, com chapas à volta. Ora, ali é que não vendíamos mesmo nada. Não aceitámos. E, numa segunda reunião, propusemos à câmara irmos para Sete Rios, em frente ao Jardim Zoológico. Mas, desde então, não soubemos mais nada. A câmara não nos disse nem que sim, nem que não”.

 
Segundo os vendedores, o prazo para a saída da Praça de Espanha, que inicialmente era até ao mês de Maio, terá sido alargado até ao fim do ano.

 
O Corvo solicitou esclarecimentos ao gabinete do vereador Sá Fernandes, responsável pelos mercados, mas não obteve resposta.

 

 

  • Carlos Lopes
    Responder

    Há um bom terreno vago junto ao Alvalidl.

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Alvalade? Está a brincar? Isso já foi motivo de abaixo-assinado ao tempo de JSoares …

  • Carlos Gonçalves
    Responder

    Que seja num sítio de passagem , com transportes públicos ,como o que temos aqui na praça de Espanha .
    E que não seja numa zona habitacional,como a que encontramos na zona j de Chelas .

    Carlos Gonçalves .

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