Câmara pede classificação de “interesse público” para a Sá da Costa

ACTUALIDADE
Samuel Alemão

Texto

Carla Rosado

Fotografia

URBANISMO

Santa Maria Maior

24 Julho, 2013


Os vereadores da Câmara Municipal de Lisboa votaram hoje por unanimidade uma moção pedindo à Direcção-Geral do Património Cultural a abertura de procedimento de classificação da Livraria Sá da Costa “como imóvel de interesse público”. O pedido surge na sequência de uma petição pública surgida anteontem pela mão de um conjunto de cidadãos precisamente com esse intuito, depois do encerramento da loja por insolvência decretada, na semana passada, pelo Tribunal do Comércio de Lisboa. O estabelecimento, que celebrava este ano um século de existência, abriu portas pela última vez no sábado e funcionava nas instalações da Rua Garret desde 1943.

O documento agora votado pela edilidade lisboeta, apresentado pelos vereadores do executivo Manuel Salgado, Helena Roseta e Catarina Vaz Pinto, manifesta ainda o seu apoio “à  necessidade de salvaguardar a Livraria Sá da Costa enquanto espaço emblemático e actividade cultural constituinte do espírito e alma do Chiado”. Na introdução da moção, intitulada “Em defesa do valor patrimonial e cultural da Livraria Sá da Costa”, considera-se que o seu fecho “bem como de outros estabelecimentos comerciais congéneres existentes, tanto em Lisboa como noutras zonas do país, representa uma séria apreensão para todos os que defendem a memória e a oferta cultural diversificada e de qualidade na cidade, e uma clara perda de um espaço da cidade com significativo valor cultural”.

Depois de elencar razões para considerar pertinentes a classificação da loja, entra as quais o facto de ela ser “um dos primeiros estabelecimentos comerciais da Baixa de Lisboa apresentando decoração Art Deco, que ainda preserva”, o documento afirma que a livraria detém “um elevado valor cultural e patrimonial para a cidade, destacando-se como critérios justificativos para a sua classificação, por um lado, a exemplaridade na sua imagem arquitectónica – apresentando-se como um espaço de valor patrimonial pela a sua arquitectura original preservada até aos dias de hoje – e, por outro, a importância do espaço do ponto de vista da investigação histórica, testemunho notável de vivências reflectidas na nossa memória colectiva”.

Ou seja, o importante é não apenas manter imaculado o edifício, mas também a sua actividade livreira e cultural. E esta questão motivou divergência entre os vereadores do executivo e os da oposição, apesar do voto consensual. As críticas vieram sobretudo de António Carlos Monteiro, do CDS-PP, que disse que “não podemos esquecer o sucedido aquando da discussão do PDM (Plano Director Municipal)”, sugerindo que a alteração deste instrumento de planeamento urbano, num processo liderado pelo vice-presidente Manuel Salgado, terá aberto o caminho para situações de desvirtuação do uso de lojas de comércio tradicional nas zonas históricas.

Também o vereador Vítor Gonçalves, do PSD, lançou críticas à actuação da Câmara Municipal de Lisboa, afirmando que “esta moção chega por pressão da opinião pública e em clima pré-eleitoral”. Farpas surgidas, na última reunião pública de vereação antes das eleições autárquicas de 29 de Setembro, após Manuel Salgado ter reconhecido que a autarquia “não tem instrumentos para impedir a mudança de ramo comercial”. “Mas tudo faremos para que se mantenha como livraria”, frisou. A vereadora Helena Roseta, por seu lado, disse que “para casos excepcionais, como é este, podemos sempre condicionar o uso”.

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COMENTÁRIOS

  • Diogo Oliveira
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    É uma excelente notícia. Mas é um aproveitamento político enorme. Veja-se a quantidade de património negligenciada pela CML. De repente é preciso salvar uma livraria. Uma livraria que necessita de ser salva porque se tornou notícia. E as outras lojas que entretanto faliram e a que ninguém ligou paravina? A CML sempre negligenciou a relação com o comércio tradicional…e agora, tão perto das eleições, vem António Costa fazer de salvador. Haja paciência para tanta parvoíce. Longa vida à livraria Sá da Costa e continuação de um excelente trabalho.

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    “esta moção chega por pressão da opinião pública e em clima pré-eleitoral”
    Realmente, basta lembrar o caso da Picadilly (última Alfaiataria com carácter verdadeiramente “Saville Row”) que foi confrontada com um Ultimatum durante obras de tansformação do edifício, tendo sido dito à proprietária do estabelecimento que o respectivo espaço seria utilizado como entrada do edifício.
    Pouco depois este foi disponibilizado para aluguer a preços exorbitantes tendo vir a ser ocupado por uma loja de sandes, com um ambiente/contraste em relação à envolvente do Chiado, que eu classifiquei : “Como um frigorifico iluminado de porta escancarada num salão” /
    A Picadilly fazia parte integrante da História/ Tradição do Chiado, também tinha “um alto valor patrimonial e cultural, pelas memórias e pelas manifestações culturais que lá se realizaram, e insere-se numa zona classificada de interesse público” e eu já tinha denunciado a situação muito antes:
    Manuel Salgado “não mexeu uma palha” e muito menos a Roseta … as coisas mudam quando as eleições se aproximam …
    António Sérgio Rosa de Carvalho.

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