Ver para crer. A Câmara Municipal de Lisboa não ficou muito convencida com os argumentos do Governo para a transferência dos terminais de contentores de Santa Apolónia, Matinha e, possivelmente, Alcântara para o outro lado do rio, na zona da Trafaria, em Almada. A autarquia quer saber qual a verdadeira fundamentação técnica para a mudança de uma infraestrutura de tão grande relevância. Por isso, pede à administração central que explique melhor as razões da mesma. “Não conhecemos nenhum estudo aprofundado sobre esta questão, que é fundamental para a cidade. Não faz sentido pensar que isto é assunto resolvido. Ainda muita água vai correr no Tejo, até que tal esteja decidido. Muitos estudos terão que ser realizados”, afirmou Manuel Salgado, vice-presidente da autarquia alfacinha, na última reunião de excutivo, ocorrida na semana passada.

“Teremos, por isso, muito prazer em convidar a presidente da Administração do Porto de Lisboa a vir  a esta câmara explicar o projecto”, disse o autarca, lembrando que ela é uma pessoa ali bem conhecida, por ter desempenhado o cargo de vereadora  , durante a presidência de Carmona Rodrigues. “Não faz sentido termos vergonha do nosso porto, que é uma componente importante da cidade e que sempre a definiu. Pensamos que ter 19 quilómetros de esplanadas é uma utopia”, considera Salgado, referindo-se à linha de rio em Lisboa. As declarações do número de dois de António Costa surgiram poucos dias após o Ministério da Economia ter tornado público o Plano de Reestruturação do Porto de Lisboa. Nele, anunciam-se três objectivos: a saída dos contentores da área que vai de Santa Apolónia ao Rio Trancão; a continuação do terminal de cruzeiros em Santa Apolónia e a construção de uma marina no espaço da actual Doca de Pedrouços.

A construção de um novo terminal de mercadorias já estava prevista no Plano Estratégico de Transportes (PET), aprovado pelo Governo de José Sócrates. Nessa altura, foi decidida a duplicação da área do terminal de Alcântara, o que causou enorme polémica. A opção por avançar, agora, com a sua construção na Margem Sul surge num momento em que prevalece a indecisão relativamente ao terminal de Alcântara, concessionado à Liscont (grupo Mota Engil), até 2015. O processo de ampliação – que previa um prolongamento da concessão por mais 27 anos – está a ser avaliado , desde há um ano, pelo Tribunal Constitucional, após ter sido votada a sua suspensão na Assembleia da República, em 2010. A Câmara Municipal de Almada, entretanto, já veio contestar a transferência dos contentores para a Trafaria, por temer um impacto negativo.

Tal mudança estará relacionada com a profundidade das águas junto à Trafaria, o que tornará o novo terminal num excelente local de atracagem para barcos de grande porte. Assim o justifica o Governo. Mas a Câmara Municipal de Lisboa – cujo presidente, António Costa, elogiou a saída dos contentores de Santa Apolónia e a sua manutenção em Alcântara, por “ser um fonte de postos de trabaho” – quer agora mais detalhes. A apreensão do seu vice, Manuel Salgado, é secundada por José Sá Fernandes, vereador com os pelouros do Ambiente Urbano, Espaços Verdes e Espaço Público. “Não conhecemos estudos sobre a matéria, apenas o que vem nos jornais. Trata-se de um assunto que merece muita discussão, ao nível dos acessos, da segurança e até da própria sustentação da arriba fóssil da Caparica”, argumenta.

Texto e Fotografia: Samuel Alemão

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