Um risco financeiro, tendo em conta a brutal perda de passageiros, mas que deve ser assumido em nome da melhoria da qualidade de serviço e da recuperação da procura. António Costa anunciou, esta terça-feira, em conferência de imprensa, o início de um processo de negocial entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Governo para que a autarquia assuma o mais rápido possível a gestão conjunta da Carris e do Metro. “Foi identificada a oportunidade do município assumir a gestão das transportadoras, sem prejuízo da titularidade do capital social continuar no Estado”, disse Costa, no encontro com os jornalistas, que se seguiu à reunião extraordinária do executivo com este asunto como ponto único. O presidente da câmara recebeu o mandato da maioria do executivo para ser ele a conduzir as negociações com a tutela.

O documento que autoriza António Costa a levar por diante o processo, em nome do município, fala na necessidade de se encontrar uma solução que respeite quatro pontos fundamentais: melhoria clara da qualidade, fiabilidade e segurança do serviço, da cobertura da rede e recuperação de passageiros; manutenção do equilíbrio operacional das empresas e do município; estabilidade social nas empresas; e equilíbrio de responsabilidades entre o município e o Estado, “de acordo com um modelo de financiamento sustentável dos investimentos futuros e da exploração, e tendo como pressuposto uma solução para os passivos acumulados”.

Costa não se quis comprometer com prazos, até porque o processo negocial está apenas no início. Mas ficou clara a vontade de assumir as responsabilidades de gestão, desde já. Até porque os gigantes passivos de ambas as empresas públicas ficarão sob a alçada da administração central. António Costa diz que terá de ser encontrado um modelo para garantir que Carris e Metro continuem a servir com qualidade os cidadãos de Lisboa e da sua área meropolitana – cujos órgãos directivos e os municípios que a compõem deverão também acompanhar o processo – e, ao mesmo tempo, a sustentabilidade financeira do seu funcionamento esteja garantida. Por isso, o cenário de privatização de ambas deverá ser afastado de vez, diz o edil.

Sem querer avançar soluções, Costa admitiu que a forma de reganhar muitos dos passageiros que desistiram de andar de transportes públicos na cidade, sobretudo nos últimos três anos, terá de passar por tarifas mais baixas. Até porque a incapacidade económica tem sido a principal razão para o abandono do uso dos transportes colectivos. O que poderá conduzir à óbvia constatação de que a operação poderá apresentar prejuízos. Por isso, tanto o presidente como o director municipal de Mobilidade e Transportes, Tiago Farias, assumiram ser esta uma operação “de risco” – embora essencial para Lisboa e os seus cidadãos. Tiago Farias sublinhou, aliás, a “oportunidade única” de aliar o controlo operacional das duas empresas às, já existentes, gestão da via pública e gestão do estacionamento.

Mais tarde, falando na Assembleia Municipal de Lisboa, Costa precisou que a política de estacionamento deverá ajudar a financiar a gestão do Metropolitano e da Carris. Depois de lembrar que a falta, ou a demora, do pagamento das indemnizações compensatórias tem sido um empecilho ao financiamento das empresas de transporte público, o autarca disse que terá de ser encontrado, entre o município e o Estado, um mecanismo eficaz de financiamento partilhado. O autarca classificou de “inteligente” o modelo a negociar com o Governo  – propriedade estatal e gestão municipal dos dois transportes colectivos – e disse que a oportunidade “é histórica”.  “Creio que a devemos agarrar. É com este espírito que nos fazemos ao caminho”.

 

* Actualizado às 19h10, com informações sobre o financiamento das empresas.

 

Texto:  Francisco Neves e Samuel Alemão

  • Nuno Rebelo
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Câmara disponível para assumir já a gestão da Carris e do Metro – http://t.co/s7wmP7Ckji

  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    Ainda vão fundir a Carris com a apanha do lixo…

  • PF
    Responder

    Esta medida faz todo o sentido.
    A melhor sorte (que se constroi com muito trabalho) para os responsáveis da CML, nesta dura tarefa.

  • João Barreta
    Responder

    Gerir a cidade sem gerir os seus transportes (rede) seria sempre uma gestão … menos conseguida, pelo que faz todo o sentido que a Câmara possa vir a assumir a gestão do Metro e da Carris. Recordo-me das dificuldades, e não foi há tanto tempo assim, em conseguir “cativar” a Administração do Metro para o “projeto” (entenda-se, ideia subjacente à criação da Agência para a promoção da Baixa Chiado (ABC)). Neste campo, ou seja, na promoção, dinamização e gestão das atividades económicas da Baixa e do Chiado poder contar com o envolvimento sério das partes será sempre … valor acrescentado. No entanto, atentemos nas “objeções” que virão de quem necessitará de encaixar milhões com as privatizações das ditas empresas. A troika preocupa-se com a(s) cidade(s)?????

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