Câmara de Lisboa quer acabar com o trânsito de atravessamento na cidade

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Samuel Alemão

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27 Outubro, 2015

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) está a estudar a implementação de um grande plano para desviar de algumas das principais artérias da cidade o trânsito automóvel que não se destina à capital, em especial no troço do Eixo Central compreendido entre o Marquês de Pombal e o Campo Grande, mas também na Segunda Circular. A intenção, garante Fernando Medina, o presidente da autarquia, é reduzir a poluição, aumentar os níveis de segurança, permitir uma maior e melhor utilização do espaço público e, deste forma, melhorar a qualidade de vida dos lisboetas. Uma alteração radical que poderá ser concretizada através do desvio para o Eixo Norte-Sul e para a Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL) do tráfego automóvel com essas características.

Para o tentar conseguir, a câmara está já em conversações com a Infraestruturas de Portugal (IP) – entidade que gere as rodovias nacionais e que congrega as antigas Estradas de Portugal (EP) e Refer -, garantiu Fernando Medina, no final do debate público sobre o plano de reformulação do Eixo Central de Lisboa, organizado pela Assembleia Municipal de Lisboa (AML), ao final da tarde desta segunda-feira (26 de Outubro). Um projecto defendido de forma enfática pelo presidente da CML, que vê na sua concretização o início de uma nova etapa na vida da capital portuguesa, marcada pela “ambição de devolver o espaço público às pessoas”. Carros a atravessar o coração de Lisboa, disse numa resposta à proposta do CDS-PP para se construir um túnel rodoviário sob a Praça do Saldanha, “é uma solução do passado”.

No epílogo de um debate surpreendentemente calmo, no qual a nota dominante foi o tom mais ou menos consensual em torno da necessidade de se realizar a remodelação urbana do Eixo Central – propósito da obra aprovada pela câmara no início de Setembro, e integrada no Programa Uma Praça em Cada Bairro -, a nota de maior relevo da sessão foi assim o plano anunciado por Medina para desviar de Lisboa o trânsito de atravessamento. E não tanto a proposta alternativa do vereador do CDS-PP, João Gonçalves Pereira, à empreitada de 9,4 milhões de euros que autarquia se prepara para lançar no espaço público entre Picoas e o Campo Pequeno. A proposta do autarca centrista foi até muito criticada por um número razoável de cidadãos que pediram a palavra.

Já depois de terminada a participação dos inscritos e dos representantes das forças políticas com assento na assembleia, Fernando Medina fez uma defesa veemente do projecto apresentado, no início da sessão de esclarecimento, pelo vereador do Urbanismo, Manuel Salgado. “Este projecto nasce com uma marca, que é a marca do inconformismo com a situação actual. Mas há uma segunda marca, que é a da ambição em devolver à cidade esta zona nobre e introduzir aqui, em escala e em muito maior dimensão, aquilo que já vem sendo experimentado noutras zonas da cidade, como a Avenida Duque de Ávila”, disse o presidente da autarquia.


“No fundo, o que nós queremos é mais qualidade de vida para quem anda a pé e de modos suaves de mobilidade, mais vantagens para o comércio local e de rua. Mais difusão do turismo pela cidade. E, sobretudo, mais usufruto do espaço público da cidade, porque é isso que, verdadeiramente, configura uma visão moderna da cidade, uma visão de futuro da cidade de Lisboa”, considerou Medina, esclarecendo que essa é a razão pela qual o projecto “tem a importância que tem”. Mas o presidente da CML foi mais longe na explanação e ligou a reestruturação do espaço público naquela área a um desígnio maior: o da mobilidade. Ocasião aproveitada para reforçar a intenção da autarquia em gerir os transportes colectivos da cidade. O edil disse que vai pedir ao próximo governo que realize essa transferência de tutela.

Foi no final da sua intervenção que Fernando Medina aproveitou para lançar a semente do que pretende que venha a ser uma revolução na forma como se encara a circulação automóvel na cidade. “Existe um erro conceptual de considerar que o Eixo Central de Lisboa é uma via que vem da A5, passa pelo Marquês e, depois, vai pela Fontes Pereira de Melo até ao Campo Grande. E é um erro que parte de não se ter percebido qual é o verdadeiro eixo estruturante da distribuição de tráfego em Lisboa, que é o Eixo Norte-Sul. E agora fala-se em soluções de desnivelamento que irão pôr mais carros numa zona que deveria ser muito mais humanizada e com muito menos avenida. Creio que importaria salientar a necessidade de fazer uma correcção numa obra que não está bem feita, que é a ligação da A5 ao Eixo Norte-Sul”, afirmou o edil lisboeta.

Fernando Medina disse que o Eixo Norte-Sul “é que é o verdadeiro distribuir de tráfego entre o Sul e o Norte da cidade”. “Porque não é normal alguém pensar que se vem da A5 e se vai atravessar a cidade de Lisboa até ao Campo Grande. Peço desculpa, mas isso é uma visão de há 40 anos. Porque o papel da CRIL, a montante, e do Eixo Norte-Sul, depois, é precisamente evitar que isso aconteça. Se continuarmos a olhar para o Eixo Central como um eixo de atravessamento, temos uma divergência de fundo sobre a visão da cidade”, disse o autarca, que considera ser muito importante o diálogo encetado com a Infraestruturas de Portugal para resolver esta questão.

Medina informou a audiência de que a CML tem estado em conversações com a IP para resolver três problemas relacionados com o trânsito de atravessamento em Lisboa. Para além da alteração da ligação da A5 ao Eixo Norte-Sul, estão a ser discutidas as perturbações causadas pelo imenso tráfego que vem da A1 e entra na Segunda Circular e, por outro lado, daquele que entra nessa via vindo do IC 19. “Temos na Segunda Circular um outro eixo de atravessamento da cidade completamente absurdo, em que a maior parte dos carros que o fazem não deviam passar por lá, mas sim pela CRIL – que não desempenha o papel que devia desempenhar. E estamos a pagar muito por isso, com milhares e milhares de carros a passar ali todos os dias”.

O presidente da Câmara de Lisboa terminou a intervenção ante a AML salientando que os munícipes podem enviar sugestões sobre o projecto do Eixo Central, através de um email existente no sítio da CML. Tais sugestões, garantiu, poderão vir a ser acolhidas e incorporadas na obra já na sua fase de execução. Este assunto, aliás, ainda será alvo de mais uma reunião das 3a e 8a comissões da AML – as mesmas que convocaram este debate -, com o vereador Manuel Salgado. O projecto em causa recebeu o voto favorável de 16 dos 17 vereadores do executivo municipal, quando foi aprovado.

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COMENTÁRIOS

  • Jorge Parente Baptista
    Responder

    Simples, se querem desviar o trânsito de atravessamento, tornem a CRIL mais acessível e a CREL sem portagens.

  • Rute
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Câmara de Lisboa quer acabar com o trânsito de atravessamento na cidade – https://t.co/1Pw2JXYyHI

  • Manuel Queiroz
    Responder

    Finalmente!

  • Zélia Sakai
    Responder

    Obrigada pela informação.
    Parabéns pelo seu trabalho.

    Saudações,
    ZS.

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