O cruzamento entre a Rua de Campolide e a Avenida Calouste Gulbenkian tem assistido a muitos acidentes graves e a atropelamentos com mortos e feridos. Como o ocorrido a 7 de Maio. Apesar disso, tardam medidas para resolver o problema de um local onde, em Setembro de 2007, António Costa apresentou o Programa dos Pontos Negros da Cidade de Lisboa, pouco depois de chegar à presidência da autarquia. Na altura, este foi denunciado como um dos sítios mais perigosos da cidade. Mas os pedidos para a colocação de semáforos têm sido sempre ignorados pela edilidade. Que decidiu avançar com obras de sobrelevação da passadeira, nesta quinta-feira (21 de Maio).

 

Texto: Samuel Alemão

 

 

Na manhã de 7 de Maio, uma mulher de 63 anos perdeu a vida, depois de ter sido atropelada quando atravessava uma passadeira na Rua de Campolide. Foi projectada pelo impacto do automóvel conduzido por outra mulher, o qual abalroou também um motociclista que abrandara para deixar passar a senhora. Do acidente, resultou então um morto e um ferido grave. Tratou-se de mais um, num local com um longo historial de sinistralidade. E que motivou a colocação, por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML), de nova sinalização no local, dias depois do atropelamento. Já amanhã (21 de Maio), a autarquia realizará também obras de sobrelevação dessa passadeira.

 

A passadeira junto ao número 256 da Rua de Campolide, situada imediatamente antes do cruzamento com a Avenida Calouste Gulbenkian, é um local bem conhecido das autoridades devido à sua perigosidade. Ao longo dos anos, têm sido muitos os acidentes aparatosos ali ocorridos, entre os quais se contam atropelamentos que resultam em vítimas mortais e feridos graves. De acordo com informações recolhidas pelo Corvo, num café situado junto à passadeira em causa, terão ali morrido atropeladas, pelo menos, quatro pessoas, na última década – O Corvo solicitou à PSP os números mais recentes sobre a sinistralidade naquele local, mas os mesmos não chegaram até ao final do dia de ontem.

 

A CML conhece bastante bem o problema. Tanto que, em Setembro de 2007, num dos primeiros actos públicos como presidente da autarquia –após as eleições intercalares realizadas nesse verão -, António Costa apresentou naquele sítio o Programa Pontos Negros da Cidade de Lisboa, considerando-o como um dos 20 pontos negros – lanço de estrada com o máximo de 200 metros de extensão, no qual se registem, pelo menos, cinco acidentes com vítimas, num ano – da capital. Os anos foram passando, porém, e pouco de significativo foi feito para acabar com a situação. Isto apesar dos acidentes, dos atropelamentos, dos alertas e das sugestões feitas por munícipes para se colocar ponto final ao problema.

 

A instalação de semáforos poderia ser uma boa forma de reduzir drasticamente a sinistralidade grave. A aplicação de tal solução tem sido, todavia, ignorada pela autarquia lisboeta, que agora – e depois do reforço da sinalização vertical e horizontal naquele local, na sequência do último atropleamento – garante ao Corvo encontrar-se a “finalizar um projeto de medidas adicionais de acalmia de tráfego que visa eliminar a sinistralidade registada na zona”. Apesar dessas promessas, a câmara explica que, desde 2007, “tem vindo a tomar diversas medidas com vista a reduzir a sinistralidade na zona”. Entre elas estão diversas alterações à circulação rodoviária, a qual, admite a câmara, tem aumentando substancialmente naquele arruamento, por o mesmo estar a ser utilizado como via de atravessamento da cidade.

 

De facto, a Rua de Campolide tem vindo a funcionar como via preferencial de ligação entre Campolide e Amoreiras e o Eixo Norte/Sul. O tráfego é bastante intenso nos dois sentidos. Mas com a agravante de os automóveis que se dirigem ao Eixo Norte/Sul chegarem, embalados por uma longa descida, quase sempre a alta velocidade ao referido cruzamento com a Avenida Calouste Gulbenkian e à passadeira. Para muitos dos moradores e frequentadores daquela zona, a única forma de travar ou diminuir a sinistralidade automóvel seria através da colocação de semáforos e de bandas sonoras no pavimento, obrigando os automobilistas a tirar o pé do acelerador.

 

Mas as sugestões para a colocação dos semáforos junto daquele cruzamento, e por conseguinte também na passadeira, têm estado longe de ser bem acolhidas pelo departamento municipal responsável pelo tráfego automóvel. É o caso da proposta reiteradamente feita pelo munícipe Bruno Santos Palma, que, desde 2007, troca frequentemente correspondência sobre este assunto com os referidos serviços da edilidade. O problema tem sido motivo de abundante troca de emails entre as partes. Todavia, sem grande sucesso na sua resolução. Um projecto de alteração da situação no terreno chegou mesmo a ser apresentado como proposta do Orçamento Participativo 2010.

 

A mesma foi, porém, recusada pelos serviços, não tendo por isso sido colocada a votação. “O serviço responsável pela análise da sua proposta não a considerou, por estar a decorrer um processo de avaliação para o reordenamento do trânsito no mesmo local. Informou ainda o serviço que tomaria as medidas necessárias para uma acalmia do tráfego no local, se assim entendesse necessário”, recorda o munícipe, que, a 1 de Junho de 2011, esteve presente numa reunião pública descentralizada da CML, realizada em Campolide, onde o então vereador Nunes da Silva terá respondido que a CML não tinha verba para colocar os semáforos. Uma via sobre a qual aumentou a pressão de veículos em cima do passeio, após a EMEL ter passado a fiscalizar a vizinha Avenida José Malhoa.

 

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A sinalização horizontal e a placa foram colocadas já depois do último atropelamento mortal 

 

A apresentação da proposta ao Orçamento Participativo 2010 por parte deste cidadão nasceu da constação de que a perigosidade se mantinha elevada e os acidentes uma constante – isto apesar das obras que a CML ali realizou no verão de 2009. A isso mesmo fazia referência a descrição da proposta, que lamentava o facto de a “intrevenção da CML não ter contemplado a colocação de semáforos”. Por isso, dizia-se na fundamentação dessa sugestão de investimento – apresentada a 30 de Junho de 2010, mas que não chegou a ser validada -, “a velocidade de circulação dos veículos aumentou substancialmente, originando vários acidentes no local, por causa da inclinação acentuada da via e da curva sem visibilidade, pelo que é urgente limitar a velocidade dos veículos e proteger os peões”.

 

É certo que, apesar dos alertas e dos reiterados pedidos para que se optasse pela colocação de semáforos, esta medida nunca foi adoptada. Mas a CML, na resposta escrita dada ao Corvo, defende-se, elencando as diversas alterações à circulação rodoviária realizadas desde 2007: na saída da Avenida Calouste Gulbenkian para a Rua de Campolide (sentido Sete Rios): “eliminada viragem à esquerda (R. Campolide sentido Amoreiras); colocados balizadores a dividir as duas faixas de rodagem (obrigando a virar apenas à direita para a R. Campolide, sentido Sete Rios)”. No nó da Avenida Calouste Gulbenkian com a Rua de Campolide: “construídas ilhas de reperfilamento de vias para proteção dos peões na travessia”.

 

Adianta ainda: “Foi construído um novo acesso à Avenida Calouste Gulbenkian (sentido Sul) para os veículos que circulam na Rua de Campolide. Foram colocadas bandas redutoras de velocidade nos dois sentidos, na aproximação ao cruzamento, e criada uma faixa de aceleração para quem entra na Rua de Campolide (sentido Amoreiras) vindo da Av. Calouste Gulbenkian”.

 

Por fim, no mesmo esclarecimento, a autarquia reconhece que, “nestes últimos anos, tem-se verificado um aumento significativo do volume de tráfego nesta artéria, utilizada como uma via atravessamento da cidade”. E adianta que se encontra “a finalizar um projeto de medidas adicionais de acalmia de tráfego que visa eliminar a sinistralidade registada na zona”. Fica por saber se o mesmo contemplará a colocação de semáforos.

 

Ao final da tarde desta terça-feira, a autarquia tornou pública um nota em que avisa que “devido a obras de sobrelevação da passadeira existente na Rua de Campolide, junto ao Nº 262, este arruamento da freguesia de Campolide estará sujeito a condicionamento de trânsito no próximo dia 21 de maio, entre as 13h00 e as 17h00”.

 

 

  • pedron
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Câmara de Lisboa promete, desde 2007, uma solução para esta passadeira mortal – http://t.co/CGV1MHw117

  • José Júlio Costa-Pereira
    Responder

    O problema terá que ser resolvido pela autarquia, como lhe cabe.Mas o amâgo do problema penso estar numa grande maioria de autobolistas,que são, para além de inconscientes, uma cambada de energúmenos, dando origem a se tornarem assassinos.Para quando legislação bem pensada e fiscalização condizente ?

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