A Câmara Municipal de Lisboa (CML) está totalmente aberta à discussão sobre as medidas que terão de ser tomadas para contrariar a aparente incapacidade para se travar o aumento do número de carros a entrar em Lisboa. E entre as possibilidades que a autarquia não afasta está o “fecho total da Baixa à circulação de ligeiros”, diz Manuel Salgado, vereador com os pelouros do Urbanismo e Planeamento, para quem é tempo de se apostar decisivamente na melhor coordenação do sistema de transportes públicos. “Temos que fazer qualquer coisa”, diz Salgado.

 

As afirmações do vereador foram realizadas na última reunião de executivo, nesta quarta-feira (27 de Janeiro), e acabaram por servir como corolário da admissão do falhanço na obtenção de resultados das restrições à circulação automóvel no centro da cidade, implementadas pela criação das Zonas de Emissões Reduzidas (ZER). Algo que foi sublinhado por todos os partidos da oposição, mas que mereceu especial contundência nas críticas feitas pelo vereador António Prôa (PSD) – o qual lamentou o não facultar, por parte da câmara, de dados concretos sobre os níveis de poluição na Avenida da Liberdade, na sequência da criação das ZER.

 

Ainda no período de discussão ocorrido antes da ordem do dia, António Prôa fez uma apresentação em que punha em causa toda gestão municipal do tráfego automóvel na capital. E antes de lamentar o mau funcionamento do sistema de radares de controlo de velocidade, por muitos deles estarem aparentemente inoperantes, Prôa procedeu a uma forte crítica do funcionamento das ZER e dos resultados a que estas se propõem, sobretudo ao nível da redução dos níveis de poluição atmosférica. “A medida não atingiu os objectivos e só serve para prejudicar os cidadãos”, acusou o vereador social-democrata, que sempre se manifestou contra a sua aplicação.

 

Na resposta, Manuel Salgado admitiu a existência de problemas na obtenção de resultados com as ZER, nomeadamente da circulação no seu perímetro de veículos que afinal não o deviam fazer. “É um facto que há dificuldades de controlo, porque, neste momento, o município não tem qualquer capacidade de intervenção junto da PSP. A nossa intervenção tem sido pontual e limitada à actuação da Polícia Municipal. Não tendo nós a competência da regulação do trânsito, é difícil assegurar o controlo dos veículos que não cumprem as restrições impostas”, reconheceu o vereador.

 

Mas, segundo Salgado, há uma situação ainda mais grave, para a qual terá sido alertado, esta semana, por Francisco Ferreira, professor da Universidade Nova que está a dar apoio na aplicação e monitorização das ZER. “O mais grave é o aumento do número de veículos ligeiros que estão a entrar em Lisboa. Esta é uma questão de fundo, que nos deve preocupar a todos e que tem que ver também com a sustentabilidade da cidade e o sistema de transportes a nível metropolitano”, disse Manuel Salgado, classificando a questão como “um grande desafio ao município de Lisboa”.

 

“Temos que pensar como agir em relação a este problema e como conseguir reduzir o número de veículos que entram na cidade e fazer a transferência modal do transporte individual para o transporte público. Sem isto, não há alternativas. Teremos sempre a pressão de mais carros. O número de veículos vendidos, aliás, voltou a disparar no ano passado”, afirmou o vereador, antes de advogar a tomada de “medidas concretas”.

 

“Há, por exemplo, quem defenda, como o Professor Francisco Ferreira, na conversa informal que tive com ele, que isto só se resolve com o fecho total da Baixa à circulação de ligeiros. E há quem diga que isto só se resolve com a colocação de portagens na entrada da cidade”, afirmou. “Há múltiplas ideias e nós temos que as discutir de forma séria e ponderar como acudir a esta situação”. O vereador diz que a recente tendência de subida do número veículos na cidade contraria a descida sentida a partir de 2008.

 

As afirmações de Manuel Salgado mereceram comentários negativos por parte da oposição. A começar por João Ferreira, do PCP, que relembrou as críticas que o seu partido fizera, há um ano, quando entraram em vigor as novas restrições relacionadas com as ZER. “Como se veio a provar, montou-se uma operação de propaganda que não tinha razão de ser”, disse o eleito comunista. João Ferreira criticou, por isso, o que considera serem os “efeitos perniciosos” da criação deste sistema de triagem dos carros que entram no miolo da capital.

 

Já António Prôa lamentou que não tenha ainda sido possível “fazer um balanço adequado” do programa iniciado pela autarquia em 2008, mas censurou também o deficiente funcionamento dos radares. “Há sete anos que se impõem determinadas medidas que causam transtorno à vida dos cidadãos. O que se esperava, no mínimo, é que essas medidas fossem ponderadas e fossem consequentes, face aos objectivos a que se propõem atingir. Está ainda por fazer um balanço consistente. Mas os dados que vamos observando, ainda que avulsos, vão todos no sentido de concluir que essas medidas não são eficazes”, afirmou.

 

Texto: Samuel Alemão

 

  • Tuga News
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    [O Corvo] Câmara de Lisboa não afasta hipótese do “fecho total” da Baixa a veículos ligeiros https://t.co/6BRWL3g6nW #lisboa

  • Joao Parracho Filipe
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    Tuk-tuk incluídos?

  • Jorge Parente Baptista
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    Vamos passar a andar de helicoptero.

    • Mario Fernandes
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      Em cidades civilizadas europeias, como Copenhaga ou Estocolmo, o centro histórico/baixa é toda uma zona pedonal. E lá não são precisos helicopteros. Como é que eles conseguem?!

      • Pedro
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        Nem é preciso ir tao longe Mario. Toda a baixa de Barcelona é zona pedonal. E nao e por isso que as ruas deixam de estar apinhadas de gente. Em lisboa nem sequer a rua Garret esta vedada ao transito…. No comments!

  • Paulo Ramos
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    A maneira de matar o pouco comércio que existe

    • Mario Fernandes
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      Acha mesmo que as pessoas vão de carro fazer compras à Baixa?! Sabe qual é a rua com mais movimento e comércio na Baixa? É a Rua Augusta. Pois.

    • Paulo Ramos
      Responder

      Não com a quantidade o preço e fiabilidade dos transportes públicos vou mesmo andar neles

    • Mario Fernandes
      Responder

      Se o Paulo prefere gastar na gasolina e nos parques de estacionamento, é consigo. Eu prefiro o Metro ou andar a pé. Mas respeito que nem toda a gente é igual. Há quem prefira a vida de cidade europeia e quem prefira a de subúrbio dos anos 90.

    • Ricardo
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      As zonas com menos automóveis e mais peões são as que apresentam um comércio de rua mais saudável. Isso acontece um pouco por todo o mundo, e em Lisboa também.

      • Pedro Vaz
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        Deve estar a brincar não?

  • Mario Fernandes
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    Finalmente! Já deviam ter começado ontem.

  • Leonor Abrantes
    Responder

    Câmara de Lisboa não afasta hipótese do “fecho total” da Baixa a veículos ligeiros https://t.co/UEhBJpASwN #lisboa #feedly

  • Bruno Margarido
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    Comecem a partir da calçada de carriche….

  • Pedro Vaz
    Responder

    Mais uma vez os condutores são considerados pela CML como o maior mal desta cidade. Concordo com muito do que aqui foi dito mas à que primeiro criar condições para podermos utilizar os transportes públicos em condições. Gostam muito de se comparar aos paises do norte da Europa mas só no que convém, porque não falam do nivel de cidadania que por lá existe ou dos imposto que por lá se pagam mas que aqui ninguém quer pagar?
    Já agora porque não falam de cidades como Londres, Paris ou Madrid que tem veiculos que nunca mais acaba e no entanto todos gostam muito de visitar? Deixo outra questão, as alterações no Marquês de Pombal e na avenida da Liberdade não deveriam ter diminuído a poluição? Mais um embuste desta câmara e dos restantes lobys.

  • Sofia Coelho
    Responder

    Vive gente na baixa e nas zonas circundantes e os transportes públicos infelizmente não são suficientes nem teem qualidade suficiente para colmatar a procura.
    As cidades são de quem lá vive e não são só para os turistas, falando principalmente dos centros históricos.
    Como moradora sei do que falo.
    Comecem por arranjar alternativas ao “carrossel” do eléctrico 28 para os moradores, seria um bom princípio!!!

  • Paulo
    Responder

    Já chega de carros. Praga nefasta do século XX. As cidades são das pessoas. Enquanto os Velhos do Restelo ainda apregoam cantigas, outras cidades passam à frente de Lisboa em urbanismo e mobilidade. Copenhaga, Londres, Paris, Barcelona…

  • Manuel Jesus Fernando
    Responder

    Das portas de benfica …para ficar em casa ….

  • José Fernandes
    Responder

    Não afastam a hipótese mas também não aplicam.

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