Tudo o que Domingos Alegre e a mulher desejavam era participar à Câmara Municipal de Lisboa (CML) a ocupação ilegal de um terreno público junto às suas casas, que estava a servir como horta. Um incêndio na cerca daquele talhão havia assustado os residentes do seu prédio. Algum tempo após ter feito a participação sigilosa à autarquia, a mulher abre a caixa do correio e depara-se com uma folha de papel com o seu nome no topo e um conjunto de insultos e ameaças a si dirigidas. O remetente anónimo identificava-a como a autora das denúncias por ocupação indevida daquela parcela. O expediente ocorreu uma segunda vez. Agora, por causa disso, a câmara vai abrir um processo de averiguação interno para saber qual dos seus funcionários quebrou a confidencialidade da participação. “Isto é absolutamente inadmissível”, diz José Sá Fernandes, vereador da Estrutura Verde.

 

A situação foi relatada durante a última reunião descentralizada do executivo camarário, realizada na noite de quarta-feira (2 de novembro), no Ateneu da Madre de Deus, no Beato, destinada a auscultar os munícipes desta freguesia e de Marvila. E levou o vereador a anunciar uma investigação ao seus serviços. “Preocupou-me muito o que disse em relação a essas ameaças e a essa possibilidade de alguém da Câmara de Lisboa ter dado o nome da sua esposa para se vingar da denúncia feita”, disse o autarca, após ouvir o relato do munícipe ante a assistência. “Vou pedir para os serviços fazerem uma investigação, para verem o que é que se passa, porque acho absolutamente inadmissível que se dêem os nomes das pessoas que denunciam esse tipo de situações e, ainda por cima, sofram ameaças. Mas que raio de coisa é esta? Isto não pode ser assim”, indignou-se.

 

As ameaças referidas terão sido tanto escritas como verbais. Isto porque a ofendida, após ter confrontado o ocupante da horta com as missivas anónimas colocadas na caixa de correio, viu não apenas a autoria das mesmas ser confirmada como recebeu dele ameaças orais. O terreno cultivado ilegitimamente, entretanto já desocupado e limpo pelos serviços municipais, situa-se entre o Estádio Engenheiro Carlos Salema, o campo do Clube Oriental de Lisboa, e as ruínas do antigo Palácio da Quinta dos Alfinetes. Foi na sequência de um fogo na cerca que delimitava o espaço, ocupado ilegalmente, que a mulher de Domingos Alegre decidiu dar conta da sua preocupação à autarquia. Fê-lo por escrito e, se é verdade que a parcela acabou por ser desocupada, tal ação teve também outras consequências inesperadas.

 

“Apareceram na caixa do correio dois papéis, na sequência do incêndio e da nossa queixa, em que surge o nome da minha mulher à cabeça, com insultos e ameaças. Pensou a minha mulher que só podia ser uma pessoa e foi falar com o sujeito da horta, mostrando-lhe os papéis. Ele não apenas confirmou, como ainda disse mais coisas”, relatou Domingos, referindo que tal situação os havia obrigado a fazerem uma participação à polícia. “Ele disse que havia lá estado um engenheiro da câmara, que lhe disse que a minha mulher era uma chata e passava a vida a escrever para a câmara a dizer mal dos senhores das hortas. E, por isso, lhe iria partir a boca toda”, narrou o cidadão. “Não acredito que tenha sido o referido engenheiro a identificar quem denunciou. Pelo que sei, o sujeito em causa terá sido inspector da câmara, tem amigos lá dentro e deve ter pedido a alguém essa informação”, especulou.

 

A razão para tal suposição de Domingos Alegre é simples: “Não conhecemos o homem de lado nenhum, nunca falei com ele. Como é que ele sabe onde moramos?”. O que motiva a maior das perplexidades e um sentimento de medo. “Não compreendo como é que um email enviado à Câmara de Lisboa como contributo para uma freguesia mais bonita e mais limpa, que deveria ser tratado como sigiloso, tenha sido denunciado e personalizado por alguém pouco escrupuloso”, questionou. O munícipe disse que, em consequência de tal quebra de confidencialidade, a sua mulher “sente agora a sua vida e a sua segurança ameaçadas, pois o sujeito parece não se conformar com a decisão da câmara”.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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