A relação entre o bairro de Chelas e Luiz Pacheco é nenhuma, “népias, não há relação nenhuma, ponho as mãos no fogo”, afiança Paulo Pacheco, filho do escritor. Mas é lá que a Câmara Municipal de Lisboa quer recordar o autor de “Comunidade”, atribuindo o seu nome à Rua Principal de Peões, de acordo com uma proposta da vereadora Catarina Vaz Pinto, que vai hoje ser votada.

 
A atribuição do nome de Luiz Pacheco a uma rua de Lisboa é sempre uma forma de preservar a memória do escritor e, para o filho, Paulo Pacheco, isso é positivo. “Acho que sim, é bom, embora se calhar ele preferisse ter o nome na Avenida da Liberdade, mas isso não deve ser possível”, ironizou.

 
A escolha da localização em Chelas deve estar relacionada com a disponibilidade daquela zona, admite Paulo Pacheco, que desconhecia a ideia da autarquia, até ser ontem contactado pelo Corvo. “Lembro-me de que, quando o meu pai faleceu (a 5 de Janeiro de 2008), a câmara aprovou um voto de pesar, mas não me recordo se então já haveria intenção de atribuir-lhe o nome de uma rua”.

 
Irónico é o facto de na Rua Principal de Peões de Chelas estar situada a 14ª esquadra da PSP, instituição cuja proximidade talvez não agradasse particularmente ao escritor e crítico literário, conhecido pela sua rebeldia e pelo seu humor refinado. “O meu pai gostava era de cafés e o mais que avançou pela cidade foi até ao Monte Carlo. De resto, o único bairro recente que me lembro de ter visitado com ele foi o das Olaias, onde havia a editora do Sérgio Guimarães, que foi o primeiro comprador do Diário do meu pai”.

 
Para Paulo Pacheco, interessante seria que a câmara editasse uma pequena brochura, como já tem feito para outras figuras da toponímia lisboeta, porque isso ajudaria a dar a conhecer Luiz Pacheco. “A toponímia faz parte da memória da cidade e raramente uma pessoa consegue associar os nomes das ruas às pessoas” que estão na sua origem, sublinhou Paulo Pacheco.

 
João Pedro George, investigador que se tem dedicado ao estudo da obra de Luiz Pacheco, sobre quem em 2011 escreveu o livro “Puta que os pariu” e que recentemente publicou “O que é um escritor maldito – Estudo de sociologia da literatura”, considera válida a iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, mas também diz não ver relação nenhuma entre Luiz Pacheco e o bairro de Chelas.

 
“É bom que Luiz Pacheco seja recordado, mas faria mais sentido assinalar os sítios onde viveu, como a casa da Estefânia, que ainda lá está. Colocar aí uma placa faria mais sentido, porque o Luiz Pacheco viveu ali a infância e a juventude”, afirmou ao Corvo João Pedro George.

 
O Corvo solicitou à Câmara Municipal de Lisboa a proposta levada hoje  a votação, mas até à hora da publicação deste artigo a informação não foi enviada.

 

Texto e fotografia: Fernanda Ribeiro

  • Pedro Castaño
    Responder

    Fernanda e Paulo, permitam-me que seja assim caseirinho, acho a notícia excelente. Se os nomes de ruas só fossem dados pelo critério relação em vida, os novos locais chamar-se-iam sempre sem nome.
    O facto de ser junto à polícia faz-me antever um conjunto de provocações dignas do “dono” da rua, como, por exemplo, colocar alguns textos, algumas fotos marginais, algo que aproprie o local como centro de Pachecada.E para isso também contribui o tal desenvolvimento de documentação que permita associar o nome da rua à pessoa que mereceu, seja qual for o critério, tal distinção.
    Agora, Paulo, acho que verdadeiramente a verdadeira homenagem será iniciar já o movimento cívico de promoção da atribuição do nome “Luiz Pacheco” à “antiga” Avenida da Liberdade!

  • Paulo Pacheco
    Responder

    Oh Pedro, temos de ser mais modestos, quando não só daqui a muitas décadas é que a coisa vinga. Talvez uma modesta rua no bairro da Estefânia, junto à «Velha Casa» seja mais realistas.
    Mas que tinha piada, ai isso tinha, é só imaginar os cartazes convocatória de manifestações futuras…

Deixe um comentário.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com