As tardes, para quem anda pela cidade e tem tempo para se deter num café a ler, pedem conforto interior. Ainda faltam dois meses para que a Primavera e o ar livre nos seduzam. Em Lisboa, abundam espaços a convidar que nos deixemos ficar, num passeio interior pela literatura, pelas notícias. Se possível, acompanhados de pequenos mimos que são a assinatura que diferencia cada um dos espaços aqui escolhidos a dedo e que só responsabilizam o repórter que os escolheu, lisboeta, amante de cafés e de livros.

 

Texto: Rui Lagartinho       Fotografia: Luísa Ferreira

 

No Chiado

Fábulas

Apesar de ter aberto portas este século, já é um clássico deste tipo de espaços com ar retro e aproveitamento de móveis antigos – com mesas de sala de jantar de família grande, cadeirões com orelhas em pele, coçados pelo tempo, ou reconversões inusitadas, como a das velhas mesas das máquinas de costura aqui transformadas em mesas.

Virado para si mesmo, cheio de recônditos recantos é o lugar ideal para acabar um livro atrasado sem ser descoberto e interrompido por quem passa e espreita.

Na ementa: Uma tarte de maçã recheada de crumble, inultrapassável.

Ler o quê? Arthur e George”, Julian Barnes

Calçada Nova de São Francisco 14

 

 

Kaffehaus

Quando abriu portas, na Primavera de 2008, a esquina (rua Anchieta com a Rua Capelo) onde está o Kaffehaus, também conhecido como Café Austríaco, ainda era nas traseiras do Chiado, a zona onde se acotovelavam a polícia e o Governo Civil.

O espaço amplo, de tectos altos e sóbrio, que poderia estar em Viena ou Munique, com cartazes alusivos à cultura desses locais, soube, com charme próprio, criar a sua própria centralidade.

A dois passos da Rádio Renascença, do Teatro Nacional de São Carlos e da Faculdade de Belas Artes, o mundo passa-lhe à porta.

Para não interromper a leitura: Sopa sérvia com presunto austríaco e feijões com pão a acompanhar.

Ler o quê? “Berlim, Alexanderplatz”, de Alfredo Döblin

Rua Anchieta, 3

 

LISBON MONTE

 

 

Burgueses

 

A Mexicana

Abriu portas em 1946, mas foi após a sua completa remodelação no início da década de 60, a cargo do arquitecto Jorge Ferreira Chaves, que ficou famosa. O modernismo da traça e da decoração, com imensos painéis de azulejos dos mestres do modernismo e as abóbadas que escondem e sofisticam as fontes de iluminação, tornaram-na um local aprazível para tertúlias.

Foi desde sempre um prolongamento da sala de jantar das muitas família de latifundiários agrícolas alentejanos e ribatejanos que tinham ali perto o seu apartamento lisboeta. Mas a proximidade do Instituto Superior Técnico, duma movimentada artéria comercial e, no seu tempo, de alguns dos melhores cinemas da cidade fizeram da Mexicana um local de cruzamento de classes e de gerações.

Hoje, numa altura em que o espaço foi classificado imóvel de interesse público, mas em que a zona perdeu dinamismo comercial e habitacional, é mais fácil encontrar mesa. E ficar a ler, no meio de um pedaço da história do urbanismo em Lisboa.

 

Um bolo recomendado: “Garibaldi”: um quadrado de duas finas camadas de pão-de-ló recheadas de mousse de chocolate e coroado por uma fina telha de chocolate.

 

Ler o quê? Angústia para o jantar”, Luís de Sttau Monteiro

Praça de Londres/ Av. Guerra Junqueiro 30 A

 

 

Versailles

A resistente, abriu na década de 20 do século passado, entre as pastelarias de charme da zona das Avenidas Novas. Sem concorrência desde que a Colombo, do outro lado da Avenida da República, fechou para dar lugar ao primeiro restaurante da cadeia McDonald em Lisboa.

Amplo salão de chá, luminosos lustres, bules pesados em alpaca, daqueles que não deixam verter pinga de chá na toalha, com um atendimento por empregados vestidos a rigor, sentimo-nos especiais sempre que nos sentamos numa das suas mesas. Apesar de movimentado, pode ser um local discreto nalgumas horas do dia.

Há uns anos, o espaço foi comprado pelos donos do estabelecimento. As mudanças aqui são sempre discretas e do género daquela que reformou as velhas toalhas de mesa verde escuras, iguais às fardas dos empregados, dando lugar a novas de cor bordeaux.

 

A aquecer a alma todos os Invernos: o chocolate à espanhola, espesso, capaz de deixar empinada a colher e os lábios sujos com provas indesmentíveis sobre o local onde lanchámos.

Ler o quê? Bel Ami”, de Guy de Maupassant

Avenida da República, 15 A

 

 

A ver o bairro passar

 

Para quem quer estar perto de casa e ver o seu bairro passar-lhe à frente do nariz. Ou para quem vem de fora e quer conhecer um café e os seus arredores.

Orion

Para quem suba a pé a íngreme Calçada do Combro, a pastelaria Orion pode servir de oásis, de ponto de abastecimento, quando se chega ao cimo da rua e se tem de decidir se atravessamos para o Bairro Alto, seguimos para o Chiado ou mergulhamos na Bica.

Na esquina da dita calçada com a Rua Marechal Saldanha, as mesas junto à janela apanham muito sol e são um bom canto para horas de leitura (a biblioteca Camões e alguns dos melhores alfarrabistas da cidade estão à mão de semear).

 

Para todos os gostos: a pastelaria Orion é um daqueles exemplos lisboetas de que o sol quando nasce é para todos, tanta é a diversidade de bolos que logo pela amanhã enchem o balcão/vitrina: do queque ao pastel de nata, passando pelo jesuíta ou pelo croissant, simples, folhado, com doce de ovos, com chocolate…

Ler o quê? “Calçada de Carriche”, de António Gedeão

Calçada do Combro, 1

 

LISBON ORION 

 

 

Cister

Fundada em 1838, chegou a ser frequentada por Eça de Queiroz. Numa altura em que os espaços tradicionais do bairro do Príncipe Real fecham ou se reinventam – nem sempre para melhor, mas sempre para mais caro, quando não descaracterizando -, a Cister continua a ser o café do Bairro.

As mesas à janela, montra de vaidades de um bairro que assume esse ar do tempo, são as mais disputadas pelos leitores assumidos.

 

Para levar para casa: tigelas de marmelada.

Ler o quê? Crónicas de São Francisco”, de Armistead Maupin

Rua da Escola Politécnica, 107

 

 

A Tentadora

Situada num prédio centenário (1912), urbanisticamente moderno para a época com as suas janelas amplas e pormenores Arte Nova na ornamentação, carregada de azulejos, o café instalado no piso térreo tem a esplanada, protegida da chuva, sempre repleta. Estar no coração de Campo de Ourique, no gaveto entre as ruas Saraiva de Carvalho e Ferreira Borges tem destas vantagens.

Os mexericos do bairro passam por aqui. E porque são alheios convém ter um livro ou um jornal para disfarçar. Ou uns óculos escuros para não ser reconhecido.

Pecado doce: O “Claudino”: duas línguas de massa folhada caramelizada recheadas de doce de ovo.

Ler o quê? “O processo”, de Franz Kafka.

 

Espaços Trendy que contagiam o bairro

 

Café Tati

Abriu antes de uma rua do Cais do Sodré ser pintada de rosa e da “Timeout” se instalar no Mercado da Ribeira. Rapidamente conquistou uma clientela cosmopolita, do género bicicleta encostada à porta.

Acrescente-se o apadrinhamento francês que homenageia o cineasta francês Jacques Tati e voilá l`atmosphère.

Mistura de antigo e moderno, Wifi com móveis da Feira da Ladra, é um local confortável para ler, horas a fio à mesa ou num dos confortáveis sofás.

O Café Tati programa regularmente concertos, sendo os de jazz de calendário mais regular.

Para não interromper a leitura: Salmão com Guacamole para barrar num cesto de pão alentejano tostado e que chega quentinho à mesa.

Ler o quê? O Amante”,de Marguerite Duras.

Rua da Ribeira Nova, 36

 

LISBON TATI

 

 

Café do Monte

Antes da abertura do Café do Monte, não existia um café na Graça que não fosse dominado pelos balções de inox e vidro, e muito menos, um local afastado o suficiente do bulício do Largo da Graça que permitisse ler.

Este café inspirado em congéneres parisienses alterou tal fatalidade. Com o aumento de turistas a caminho do miradouro da Senhora do Monte, a frequência alargou-se em termos de nacionalidades mas ainda existe um equilíbrio entre locais e forasteiros. E é frequente as mesmas vizinhas que frequentam as pastelarias ruidosas do bairro passarem por aqui numa versão mais calma, para tomar um café a preços de bairro popular.

Para leitores acompanhados de crianças, o espaço dispõe de jogos e literatura infantil para os entreter.

Um segredo: Brunchs há muitos, mas este é superlativo. Nada é mascarado, os queijos são genuínos e diversos, o salmão é abundante e não está camuflado em patês, o ovo mal cozido convida a ser destapado com cuidado e a comer-se à colher, as frutas são frescas e de pelo menos quatro qualidades diferentes.

O que ler? Alexandra Alpha”, de José Cardoso Pires

Rua de São Gens, 1

 

 

LISBON MONTE

 

 

Brick Cafe

Situado no Bairro dos Anjos, na zona nobre do antigo Bairro das Colónias, o Brick Café tem sido, desde que abriu, uma âncora na renovação do mais recente bairro trendy da capital.

À sua volta, os prédios mais degradados ganharam andaimes, outros já os arrumaram, o que prova que estes apartamentos amplos e agora renovados voltam a ser muito procurados.

O revestimento artesanal de uma parede com tijolos marca a decoração do Brick salpicada de mesas e cadeiras todas diferentes, todas escolhidas a dedo em lojas de antiguidades.

Um detalhe que se faz notar e é importante para deixar os leitores despertos: a qualidade do café é das melhores que se pode encontrar neste tipo de espaço.

O que ler? “A Costa dos murmúrios”, Lídia Jorge

Rua de Moçambique, 2

 

* Texto editado às 11h35 de 29 de Janeiro. Corrige informação sobre compra da pastelaria Versailles.

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