Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

REPORTAGEM
Rui Lagartinho

Texto

Luísa Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Arroios

23 Janeiro, 2017

É quase como um segredo bem guardado atrás de uma casa, situada nos Anjos. E com muito charme. O logótipo icónico e exótico da Negrita, fundada em 1924, convida-nos a conhecer um dos derradeiros sítios onde se torra café em Lisboa. Uma fábrica que tanto fornece os estabelecimentos ao fundo da rua, como muitos cafés espalhados pelo país. A reconhecida qualidade dos seus lotes tem muitos apreciadores.

Não deixa de ser irónico que a sede dos Cafés Negrita esteja a dois passos do conjunto de quarteirões, situado nos Anjos, ainda por muitos conhecido como Bairro das Colónias – apesar de o seu nome oficial ser, há muitos anos, Bairro das Novas Nações. Aliás, a Negrita, fundada em 1924, é até mais antiga, pois o bairro só começou a ser plenamente habitado em meados dos anos trinta do século passado.

Em dias de torrefacção, como aquele em que O Corvo visitou as instalações da marca, quase se pode lá chegar pelo cheiro. Carlos Pina, 90 anos, tem o aprumo de um cavalheiro, com o seu casaco cardigan, as calças bem vincadas, o cabelo branco bem penteado, a delicadeza do trato e a naturalidade afável com que nos recebe. A sua vida confunde-se com este espaço que, nos primeiros tempos, para além da torrefacção de café, foi também armazém de mercearias.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

Carlos Pina, a continuar uma tradição iniciada em 1924.

“Lembro-me de, no tempo da Guerra Civil de Espanha, ver sair daqui o café destinado a Espanha. Na altura, ainda usava calções”, recorda o ainda hoje sócio-gerente da Negrita. Foi com ele, herdeiro da quota do seu pai, que o negócio se tornou familiar, quando Carlos Pina comprou aos outros sócios todo o restante capital, na década de 1960. A empresa atingia então o seu auge, era um negócio em expansão.

Em Lisboa, coexistiam várias dezenas de torrefacções que abasteciam as muitas pequenas lojas espalhadas pela cidade. Uma realidade que, entretanto, se extinguiu. Mesmo assim, no perímetro da Rua Andrade, ainda são muitos os cafés que se abastecem ao fundo da rua. E pelo país ainda há também quem seja fiel aos lote Rubi, a estrela da companhia. Os outros lotes chamam-se Ébano, Marfim e Chávena.

“A nossa qualidade sente-se na boca”, garante-nos o empresário, enquanto nos prepara um café Rubi. “Convém que cada chávena seja preparada com cerca de cinco a seis gramas de café”, diz.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

O café que vimos torrar é um robusta Amboim, proveniente do porto angolano com o mesmo nome. “É um café caro, nem sempre fácil de encontrar e importar, mas fazemos questão de o ter, porque é essencial aos nossos blends”. Um blend, explique-se, é uma mistura variada de cafés puros das duas grandes famílias de grãos: Arábicas e Robustas.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

“Os portugueses são muito fiéis aos grãos robusta, gostam de um café mais forte, encorpado. Acho que a justificação é termos estado tantos anos em África”, conta-nos, enquanto nos dirigimos ao armazém, com o sabor do Rubi ainda no palato. Pendurados na balaustrada estão alguns sacos vazios que, juntos, fazem a geografia do café no mundo: Colômbia, Timor, Brasil.


“Para além dos nossos blends, a casa e a torra funcionam também por encomendas. Qualquer pessoa que importe grão de café verde pode pedir-nos para torrar. É como fazer um fato à medida. Pedem-nos e nós fazemos”, explica. Num canto do armazém, cheira a erva-doce. Estamos no canto das especiarias, outro sector de negócio com o selo Negrita.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

Este é um dos dias mais frios do ano. Por isso, para além do cheiro robusto e inebriante dos grãos Amborim recentemente torrados, e que estão agora a sair da máquina, o calor do equipamento aconchega-nos. A máquina é vetusta, mas tudo o que a rodeia tem uma precisa sofisticação. A partir de um ecrã electrónico, percebemos que os doze silos onde se pode armazenar o café estão cheios.

Num dia de laboração da torrefação, são preparados 2 400 quilos de grão. “São quarenta sacos de sessenta quilogramas”, contabiliza Pedro Jesus, hoje de serviço a esta tarefa. Trabalha aqui há quinze anos. É um dos vinte funcionários de uma empresa que faz questão em manter-se familiar. A filha do actual proprietário já trabalha com o pai, o que garante que a Casa Negrita celebrará o centenário daqui a sete anos. “Claro que há crise, as pessoas compram cada vez menos café, as cápsulas vieram agitar o sector do retalho, sobrevivem poucos” explicam-nos.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

Há 25 anos, Carlos Pina meteu-se noutra aventura difícil, precisamente no campo do retalho. Comprou uma das lojas de café mais tradicionais da cidade: A Carioca. A pequena loja de chás e cafés do Chiado, situada no início da Rua da Misericórdia, mantém-se firme e resistente à especulação imobiliária que tomou conta da zona. Lá, vende os seus lotes Tavares – encomendado, em tempos, pelo luxuoso restaurante com o mesmo nome situado duas portas acima -, Presidente e Carioca, blends imaginados e testados na torrefacção Negrita.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

“Temos menos empregados, mas vamos aguentando. Os anos levaram-nos a clientela fiel, é uma dor de cabeça, mas prosseguiremos”, garante ao Corvo Carlos Pina. Quando lhe perguntamos se está arrependido, é capaz de dizer imediatamente sim. Mas, depois, o brilho no olhar trai-o. E nem ele nem nós acreditamos. Um homem e um negócio talhados para resistir até ao fim.

Cafés Negrita: uma das últimas torrefacções de Lisboa funciona nos Anjos

MAIS REPORTAGENS

COMENTÁRIOS

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografias & Fotografia

Paula Ferreira
Fotografía

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Send this to a friend