Cafés e livrarias, espaços de liberdade na Lisboa da ditadura

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

Fotografia

CULTURA

Cidade de Lisboa

25 Abril, 2014




40 anos do 25 de Abril

Durante o Estado Novo, nos cafés conspirava-se. Nas livrarias, vendiam-se livros às escondidas. Na cidade, sufocava-se, entre a tristeza e o medo. O Corvo recorda os locais mais emblemáticos da capital onde, antes do 25 de Abril, se sonhava a liberdade.

Durante quarenta anos, os portugueses viveram convencidos de que eram constantemente vigiados. O Estado Novo espalhara o medo como uma arma e a população vivia convicta de que os informadores da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) estavam por todo o lado. Não se sabe quantos eram, ao certo, uma vez que a lista com os seus nomes foi destruída no próprio dia 25 de Abril de 1974, pela própria polícia política. As denúncias eram pagas e podiam ser desencadeadas pelos motivos mais insignificantes, desde ciúmes ao desejo de vingança relativamente a um vizinho que fazia barulho à noite.

Apesar disso, havia lugares em Lisboa onde, discretamente, era possível trocar algumas ideias sobre os assuntos que dominavam o quotidiano da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril, como a guerra colonial, as greves estudantis, as prisões políticas, a emigração em massa, o sufoco cultural em que se vivia. Nalguns cafés de Lisboa, por meias palavras ou sem levantar a voz, não fosse a pessoa da mesa ao lado ou o empregado que servia as bicas ser um informador da PIDE, criticava-se o regime, conspirava-se até para o derrubar.

“Os cafés eram lugares privilegiados para os informadores. Tanto desconfiávamos do gajo da mesa ao lado, como do empregado. E muitos empregados de café eram mesmo informadores”, lembra Artur Pinto, estudante de direito na década de 60 e um dos fundadores do movimento Não Apaguem a Memória.

A geração mais nova que se opunha ao regime, formada na sua maioria por estudantes universitários, reunia-se nos cafés das Avenidas Novas, já que muitos habitavam naquela zona da cidade, em andares que funcionavam, em muitos casos, como uma espécie de “repúblicas”. O mais importante local de convívio era o Vá-Vá, no cruzamento da Avenida dos Estados Unidos da América com a Avenida de Roma.

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Inaugurado em 1958, decorado com azulejos da autoria da pintora Menez, o Vá-Vá era, na década de 60, o poiso habitual de jovens cineastas, como Fernando Lopes, Paulo Rocha, João César Monteiro, Cunha Telles ou António Pedro Vasconcelos. Diz-se que nasceu ali o novo cinema português.

Nomes ligados ao movimento associativo, como Medeiros Ferreira, Jaime Gama, Alfredo Barroso ou Nuno Brederode Santos eram frequentadores assíduos deste café, tal como gente de grande talento e irreverência, ligada  às agências de publicidade que começavam a surgir em Portugal. Às mulheres que frequentavam o Vá-Vá e que representavam uma vanguarda em termos de mentalidades na Lisboa retrógrada de então, João César Monteiro chamava “as Valquírias”. À tarde, liam-se os jornais vespertinos e discutiam-se as notícias.

A universidade, na década de 60, vivia um período de grande agitação, em consequência de vários factores político-sociais, com destaque para o o eclodir da guerra colonial em 1961. A greve de 1962 tinha mobilizado a academia inteira e a discussão em torno destes acontecimentos mantinha acesas as tertúlias estudantis de cafés da Avenida de Roma, como a Suprema – hoje fechada – e a pastelaria Londres – onde há anos funciona um banco. A meio caminho da Cidade Universitária, ao fundo da Avenida dos Estados Unidos da América, fica a pastelaria Nova Iorque, também local de encontro de uma juventude inquieta e contestatária do regime.

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Na Baixa, a Leitaria Garrett, na rua do mesmo nome, era frequentada pelos alunos da vizinha Escola Superior de Belas Artes, uma lufada de juventude no ambiente burguês da zona, em cujos cafés se juntava maioritariamente a geração mais velha de oposicionistas ao regime, herdeiros das tradições da I República. Nos anos 50 e 60, na Brasileira do Chiado, esta geração do chamado “reviralho” misturava-se com os rapazes e raparigas das Belas-Artes, que subiam e desciam o Chiado, imitando, no estilo, os surrealistas franceses, eles de barba à passa-piolho, elas vestindo de negro, a cor de eleição para muitas, que tinham como modelo a cantora francesa Juliette Gréco.

Já no Rossio, ficava o Nicola, entre cujos clientes se contavam velhos republicanos, como o escritor Ferreira de Castro, autor de “A Selva”, ou o editor Lyon de Castro, fundador da Europa-América. Dizia-se que, no passeio fronteiro a este café, os pides igualavam em número as pessoas que pretendiam vigiar.

Uns metros adiante, ainda no Rossio, o Café Gelo prolongava uma longa tradição conspirativa, iniciada desde que o estabelecimento abrira as suas portas, ainda no século XIX. A sala das traseiras deste café já tinha servido, no início do século, como local de reunião para republicanos, maçons, anarquistas e membros da Carbonária, sendo voz corrente que foi dali que, em 1908, sairam Alfredo Costa e Manuel Buiça a caminho do Terreiro do Paço, para matar o rei Dom Carlos.

Nos anos 50, começou a juntar-se no Café Gelo o grupo que antes se reunia no Café Herminius, na Avenida Almirante Reis, do qual faziam parte nomes ligados ao surrealismo, como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte, Virgílio Martinho e Manuel de Lima.

Na sequência dos confrontos violentos que, em 1 de Maio de 1962, na Praça do Rossio, opuseram a polícia de choque a um grupo de manifestantes, o Café Gelo foi encerrado. A polícia de choque entrara no café, batendo em toda a gente, e os intelectuais presentes reagiram, atirando os açucareiros metálicos das mesas às cabeças dos polícias, tendo a PIDE proibido o grupo de voltar a reunir-se ali. Alguns dos seus elementos, entre eles Alexandre O’Neil, “emigraram” para o Montecarlo, próximo do Saldanha, café ao qual muitos dos elementos desse grupo permaneceram fiéis até ao 25 de Abril.

Algumas portas acima, também na Avenida Fontes Pereira de Melo, as noites animadas no Café Monumental, frequentado por gente ligada ao teatro, faziam esquecer o cinzento dos dias.

Em 1970, com muito “glamour”, e aproveitando a abertura proporcionada pelo marcelismo, foi fundado, por Natália Correia, o Botequim, no Largo da Graça, local para onde se transferiu a tertúlia anti-regime mais animada da Lisboa salazarista – que antes se reunia na casa da escritora, um quinto andar, na Rua Rodrigues Sampaio.

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Escritores como José Cardoso Pires, Vitorino de Almeida, Luiz Pacheco e Ary dos Santos e pintores como Martins Correia, entre muitos outros, contavam-se entre os frequentadores assíduos deste bar, onde Natália, de boquilha em punho, declamava poesia, e vários espontâneos cantavam o fado. As noites prolongavam-se até de manhã e o ambiente era verdadeiramente libertário.

Também nas livrarias de Lisboa havia tertúlias de oposicionistas ao regime. Na Escolar Editora, na Rua da Escola Politécnica, hoje uma loja de roupas, na Livraria Portugal, na Rua do Carmo, onde agora funciona uma padaria-pastelaria de uma cadeia internacional, na Livraria Bertrand e na Sá da Costa, ambas na Rua Garrett. Nesta última, era conhecido o banco do fundo, onde os clientes habituais se juntavam, ao final da tarde, em conversas discretas.

Há que falar ainda da clientela, mais heterogénea – uma vez que agregava gente da esquerda e da direita -, da Parceria António Maria Pereira, na Rua Augusta. Esta foi a única editora portuguesa a editar um livro de Fernando Pessoa, “Mensagem”, ainda em vida deste, no ano de 1934.

O lançamento de um livro, se o escritor era da oposição, servia de pretexto para encontros muito vigiados pela PIDE. Acontecimentos destes podiam acontecer também em livrarias fora da Baixa, como a Quadrante, na Rua Luís Bivar, ou a Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, em Benfica.

Quando se fala nas livrarias de Lisboa, um nome incontornável é o de Manuel de Brito, fundador da Escolar Editora, no Campo Grande, em 1960. Desde sempre um opositor de Salazar, começara por ser empregado na Livraria Escolar Editora a funcionar na Rua da Escola Politécnica. Dali saíu para fundar o seu próprio negócio, próximo da Cidade Universitária, que em 1964 veio a diversificar-se, com a criação de uma pequena galeria de arte, a 111. Esta era ponto de convívio e de divulgação dos artistas plásticos mais jovens e vanguardistas, que o regime não acarinhava, como António Palolo, Álvaro Lapa ou Paula Rego.

Muito solidário com as lutas estudantis nos anos 60, Manuel de Brito fornecia livros especializados aos estudantes e professores e, por encomenda, obras proibidas pela censura, por ele vendidas às escondidas. A PIDE visitava assiduamente o estabelecimento, apreendendo livros com frequência, às vezes apenas porque os seus agentes não percebiam do que se tratava. Marx, Trostky, Lenine ou Rosa Luxemburgo, mas também Sartre, Simone de Beauvoir ou até alguns títulos do Marquês de Sade e de  Aristóteles, a lista dos autores censurados ou proibidos era interminável.

Os clientes eram discretamente avisados por Manuel Brito da chegada dos livros proibidos, e, com ele, desciam até à cave, escondendo depois os livros na pasta – que a maioria dos homens usava, na época. “Havia gente que não tinha dinheiro e o Manuel de Brito ou a Arlete, a mulher dele, punham na conta. Havia quem não pagasse, mas eles eram assim, uns gajos muito porreiros”, recorda Artur Pinto.

Assim, entre a conspiração, a solidariedade e o medo, se vivia em Lisboa, no tempo de uma das mais longas ditaduras de que há memória no mundo ocidental.

A Livraria Barata, na Avenida de Roma – na época, um pequeno e discreto estabelecimento com uma única porta de entrada – era, além da Escolar Editora, a única de Lisboa onde se revelava possível adquirir livros proibidos pelo regime. O Senhor Barata era o livreiro, personagem bem conhecida e estimada por toda a oposição.

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