Buzinão contra obras no Eixo Central não tem o apoio da associação de moradores

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Samuel Alemão

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URBANISMO

Avenidas Novas

10 Maio, 2016


Está marcado para as 18h30 desta terça-feira (10 de maio), no Marquês de Pombal, mas visa afirmar uma posição de contestação a um projecto que promete revolucionar todo o Eixo Central de Lisboa, entre aquela praça e Entrecampos. O “primeiro de muitos” protestos contra os trabalhos de requalificação do espaço público das avenidas Fontes Pereira de Melo e da República e da Praça do Saldanha surge em forma de buzinão.

A manifestação é organizada por um grupo de cidadãos, que se mobilizou através da conta de Facebook Lisboa Estaleiro Eleitoral. Mas a realização da mesma já está a ser alvo de muita contestação no mural dessa página. E, apesar de endossada pelo vereador do CDS-PP, nem sequer conta com o apoio da Associação de Moradores das Avenidas Novas, que se diz satisfeita com as alterações feitas pela Câmara Municipal de Lisboa ao projecto original.

Convocado no final da semana passada, o protesto dá voz ao que os seus dinamizadores dizem ser um crescente descontentamento “contra o bloqueio da cidade de Lisboa por uma obra eleitoralista mal planeada”. Em poucos dias, a página que promove a iniciativa de contestação à obra iniciada há uma semana encheu-se de comentários, contra e a favor o protesto. As trocas de argumentos tornaram-se encarniçadas. Tanto que, ao final da noite de domingo, os gestores da página sentiram necessidade de publicar um aviso, em jeito de justificação.

“Este é um movimento que protesta contra a forma precipitada como as obras estão a ser executadas, sem calendário e sem informação. A CML dispôs de muito tempo para planear estas obras de modo faseado. Não entendemos a urgência a 16 meses das eleições! Não insultamos ninguém e não admitimos insultos. Temos todo o direito de não aceitar a ditadura do silêncio. Todos os que não concordam connosco são livres de não buzinar mas tenham respeito pela diferença! Serão banidos todos os que venham a este mural insultar ou provocar!”, lê-se na página criada para promover o buzinão.

Ao Corvo, Francisco Teixeira, um dos organizadores, informa que se trata de um “grupo de pessoas de Lisboa que estão muito apreensivas com o que está já a acontecer e com o que irá acontecer”. “Ninguém põe em causa a bondade da obra. Mas não sabemos se vai ser útil e não temos nenhuma informação concreta sobre o projecto – concretamente, como vão fazer passar ali uma ciclovia -, nem os efeitos finais desta intervenção. Estive presente em duas sessões de esclarecimento e, sinceramente, fui ficando cada vez mais apreensivo”, afirma o morador da zona da Praça de Londres, para quem a mobilidade e o estacionamento, no final, ficarão bastante prejudicados com a empreitada agora iniciada.

Buzinão contra obras no Eixo Central não tem o apoio da associação de moradores

Francisco Teixeira afirma mesmo estar com “muito receio”. “Tudo isto me assusta. Se eu tiver de levar o meu filho a uma emergência médica, como é que faço? Ou se o meu pai me quiser visitar? Além disso, esquecem-se que Lisboa é uma cidade muito envelhecida. Falam em ciclovias, mas está a ver uma pessoa de 70 anos a começar a andar agora de bicicleta?”, pergunta, antes de dizer que “tudo o que seja retirar estacionamento numa cidade com a estrutura e a complexidade de Lisboa se revela pouco sensato”. Este será o primeiro de muitos protestos, promete. “Não nos quiseram ouvir, por isso, agora vão ter de nos ouvir”, diz, sugerindo o mote do buzinão.

O grupo diz-se desvinculado de partidos, mas conta com o apoio público do vereador João Gonçalves Pereira (CDS-PP), que se tem assumido como a mais audível voz de contestação ao projecto, desde que ele foi apresentado, no final do verão de 2015. Ao Corvo , Gonçalves Pereira explica que foi abordado por “um grupo de lisboetas que estavam muito indignados e preocupados com estas obras”. E fizeram-nos porque, entende, reconhecem nele uma evidente voz crítica ao projecto em causa, tendo sido o único membro da vereação a dar voto negativo à sua realização.

De acordo com o eleito centrista, os motivos de apreensão das pessoas que se mobilizaram para protestar são dois. “Por um lado, existe um grande desconhecimento da população em relação ao projecto, uma grande falta de informação”, mesmo apesar das diversas sessões públicas de esclarecimento sobre o mesmo, entende. “Por outro lado, muita gente entende que a obra representa um erro grave, tanto em termos de solução final, especialmente pelos problemas que trará tanto ao nível do estacionamento que vai desaparecer, como dos sérios problemas de circulação que trará”, considera.

As palavras de Gonçalves Pereira surgem, porém, algo desacompanhadas, se se tiver em atenção que o protesto nem sequer é apoiado pela Associação de Moradores das Avenidas Novas. “Não estamos nem a favor, nem contra. O protesto é um exercício de liberdade em democracia. Mas nós não estamos envolvidos de maneira alguma na manifestação”, diz ao Corvo José Soares, o presidente da direcção da associação, que se confessa empenhado em “continuar a tentar a chegar a um consenso com a Câmara de Lisboa”.

Tanto que a associação se mostra satisfeita com o facto de “a câmara ter voltado atrás na questão do estacionamento, que afinal já não perderá os lugares que se disse que ia perder, bem como na opção por uma ciclovia dupla na Avenida da República, em vez de se fazerem duas vias, que iriam roubar ainda mais lugares”. “Os problemas poderão estar, nesse aspecto, mitigados. Mas continuaremos atentos”, afirma José Soares, que terá, poucas horas antes do buzinão de hoje, a primeira de várias reuniões de acompanhamento da obra, com os responsáveis do departamento de mobilidade da CML e da empresa responsável pelos trabalhos. Nela aproveitará para sugerir melhorias ao nível da mobilidade pedonal, durante o decurso dos trabalhos.

José Soares, que diz compreender que uma obra desta dimensão “traga constrangimentos”, confessa-se sem vontade de enveredar por protestos como o buzinão desta terça-feira e prefere acompanhar o desenrolar dos trabalhos de forma crítica, em defesa dos moradores. “O que nos interessa é a participação cívica. Tudo o resto é do foro político. Por isso, deixemos isso para os políticos”, afirma.

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