Beato e Marvila ficam de fora da rede de bicicletas partilhadas de Lisboa, para já

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Samuel Alemão

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5 Abril, 2017

As freguesias do Beato e de Marvila não deverão ter no seu território nenhuma das 140 estações da futura rede de bicicletas partilhadas da capital, a gerir pela Empresa de Mobilidade e Estacionamento do Município de Lisboa (EMEL) e com entrada em funcionamento planeada para o início do próximo verão. Tal fará com que os residentes, os trabalhadores e os estudantes de uma vasta área da zona oriental da cidade não possam vir a aceder a este novo sistema de mobilidade. Caso se venha a confirmar o que está definido na primeira versão da rede, limitar-se-ão a ver passar as bicicletas no eixo compreendido entre a Baixa e o Parque das Nações, onde se situarão os postos mais próximos. A junta de Beato tornou público o seu descontentamento, na tarde desta terça-feira (4 de abril), através de um comunicado. E pede à Câmara Municipal de Lisboa e à EMEL que reconsiderem a decisão. A junta de Marvila diz ter pouca informação sobre o assunto. A Câmara de Lisboa garante, todavia, que, depois da fase experimental, ambas as freguesias poderão ser abrangidas.

No comunicado, a Junta de Freguesia do Beato “lamenta o facto de não ter sido prevista qualquer estação na zona Oriental de Lisboa, apesar dos esforços do executivo e das várias sugestões endereçadas tanto à Câmara Municipal de Lisboa como à EMEL, que é a entidade responsável pela implementação do projecto”. Saudando o início do projecto, que em conjunto com uma melhor gestão da rede de transportes públicos contribuirá para a transformação positiva da mobilidade na cidade e a redução de emissões de dióxido de carbono, a autarquia socialista expressão decepção por ter ficado de fora da rede. “A zona Oriental de Lisboa, entre Santa Apolónia e o Parque das Nações, é hoje um polo relevante do desenvolvimento da cidade com novos pontos de referência que muito beneficiariam dos meios de mobilidade suave”, diz o texto, antes de os enumerar.

Incluindo o Beato e Marvila numa mesma área, o texto relembra locais de relevância tais como o Museu do Azulejo, as novas instalações da escola de artes Ar.Co (recentemente inaugurado no edifício do antigo Mercado de Xabregas), os teatros Ibérico e Meridional, o Hub Criativo do Beato, a Fábrica do Braço de Prata ou ainda “os vários projectos que surgiram no Poço do Bispo, entre muitos outros projectos em curso, nomeadamente o Roteiro do Património da Zona Oriental de Lisboa, que foi um dos projectos vencedores do Orçamento Participativo 2015”. A chamada de atenção à CML e à empresa municipal, por parte da junta do Beato, para a importância destes e de outros pontos de interesse na zona oriental terá sido feita, por diversas vezes, incluindo em reuniões. formais. Um membro da Assembleia de Freguesia do Beato, Bruno Santos Palma, chegou mesmo a fazer propostas para a localização de três postos: Rua de Xabregas, Rua do Grilo e Rua do Açúcar.

Mas tal não teve os efeitos pretendidos. Isso mesmo confirmou a O Corvo o presidente da junta, Hugo Xambre (PS), que se encontra a desempenhar o cargo em regime de não permanência. “Estas questões foram discutidas, por diversas vezes, desde há quatro ou cinco anos, com a EMEL e com a câmara. Dissemos-lhes que achávamos importante a existência de pontos de partilha de bicicletas nesta zona, nomeadamente na Avenida Infante Dom Henrique, ligando à Expo”, explica o autarca, recordando o desapontamento sentido quando, há algumas semanas, soube que tal desejo não havia sido tomado em linha de conta. “Alguém que queira realizar um passeio nesta zona, onde temos pontos de interesse tão importantes como o Museu Nacional do Azulejo, não terá acesso às bicicletas da rede”, afirma Hugo Xambre, que pediu a Câmara de Lisboa e à EMEL que reconsiderassem esta decisão. Na apresentação pública da rede, feita a 14 de fevereiro, verificou-se que a exclusão de Beato e também de Marvila seria um dado adquirido.

O processo tem merecido também uma atenção especial de Silvino Correia (PS), vogal da junta do Beato e que desempenha funções de liderança da edilidade na ausência de Hugo Xambre. “Desde o início, vimos com bons olhos a instalação da rede, até porque estamos situados entre a Baixa e a Expo e há muitas e boas razões para visitar a freguesia, como o Museu do Azulejo, o Ar.Co ou os teatros. Temos também cada vez mais turistas, muitos deles saídos dos cruzeiros que chegam a Santa Apolónia, para além das pessoas que já estão habituados a nos visitarem”, afirma Silvino Correia, alertando ainda para as mudanças em curso em toda aquela área da cidade. “Esta zona está a atravessar um processo de transformação, tem surgido muita coisa aqui. Exemplo disso é também o Hub Criativo do Beato, que se encontra numa primeira fase de instalação e consigo trará pessoas com uma mentalidade diferente, que querem andar de bicicleta”, considera.

Beato e Marvila ficam de fora da rede de bicicletas partilhadas de Lisboa, para já

Aparentemente menos entusiástico em relação à rede de bicicletas partilhadas – que terá 1410 unidades em circulação, sendo 470 convencionais e 940 eléctricas – parece estar a Junta de Freguesia de Marvila, também excluída da rede de 140 postos. “Para além de uma reunião genérica para apresentação da ideia, não tivemos mais nenhuma informação ou recebemos qualquer proposta por parte da EMEL. Veríamos com bons olhos uma ou duas estações na zona baixa da freguesia. Admito que possam estar a pensar em instalá-las numa fase posterior”, diz o vogal Vítor Simões (PS), que, todavia, não esconde algum cepticismo quanto à utilização de bicicletas e à instalação de postos da futura rede gerida pela EMEL na “zona alta da freguesia”.

“A instalação de uma estação junto ao Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) parece uma boa ideia, mas, na prática, teríamos que ver quantos a utilizariam, sobretudo nos dias de chuva. Talvez se justificasse mais numa perspectiva turística, na zona plana, junto ao rio, e depois pudesse evoluir para uma utilização mais generalizada”, considera o autarca, que se confessa na “expectativa de que a equipa de projecto dialogue com a junta e explique melhor o projecto”.

Contactada por O Corvo, a Câmara Municipal de Lisboa confirma que a implementação definitiva do sistema de bicicletas públicas partilhadas acontecerá no verão, depois da fase experimental, a decorrer na primavera. E justifica a exclusão do Beato e de Marvila da primeira fase com o facto de que “os locais de implantação das futuras estações, nesta etapa do projecto, obedecem (…) a critérios de prioridade”. Sendo os mesmos decorrentes de a rede de bicicletas a implantar corresponder a “um modelo de utilização de duração limitada, para superar curtas distâncias, menos vocacionado para a longa utilização de lazer”. Mas a autarquia promete a integração na rede, numa fase posterior, das “freguesias com apetência natural para a utilização da bicicleta”.

De acordo com a CML, a hierarquia dos critérios que determinou a escolha dos locais onde haverá, por agora, postos da rede de bicicletas partilhadas é a seguinte:
1. Zona com clara aptidão ciclável do terreno.
2.Elevada densidade de emprego.
3.Fraca ligação sustentável entre zonas habitacionais e núcleos multimodais. 4.Elevada densidade de equipamentos de ensino.
5. Zona residencial com elevada densidade populacional, oferta de serviços e emprego associados.
6. Zona com clara aptidão turística e de lazer. “Em função destes indicadores, foram seleccionadas como zonas pioneiras que reuniam, em simultâneo, várias destas características, o Planalto Central, Eixo Central, Baixa Lisboeta, Frente Ribeirinha e Parque das Nações”, explica.

Por fim, a Câmara de Lisboa clarifica: “A expansão e crescimento previstos para o sistema serão orientados pela experiência e aprendizagens obtidas nesta 1ª Fase, assim como por critérios de procura especificamente locais, integrando no futuro as freguesias com apetência natural para a utilização da bicicleta, como parece ser o caso de Marvila e Beato, que revelem o seu interesse e empenhamento em fazer parte deste projecto transformador para a cidade de Lisboa”.

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COMENTÁRIOS

  • Miguel Louro Antunes
    Responder

    Claro que sim! Primeiro a gentrificação e só depois e consoante a vontade do que restar da alma bairrista é que se decide se vale a pena.
    A poluição de hoje no bairro , mais concretamente na rua do açúcar e Fernando palha devia ser o mais que fulcral ponto para uma decisão favorável!

  • Cicloriente
    Responder

    Tem sido muito bom seguir o empenho que a Junta de Freguesia do Beato tem tido em trazer o sistema de partilha de bicicleta para o Beato (e Marvila), o que faz todo o sentido não só para deslocações em turismo mas também para deslocações de residentes. Enquanto isso não acontece, há bastante por fazer na adaptação desta zona da cidade à mobilidade em bicicleta. É necessário por exemplo reconverter e/ou acalmar o tráfego em vias estruturantes para deslocações locais, como a R. Guadim Pais e a Rua de Xabregas, realizar ligações adequadas do bairro à ciclovia da marginal, assim como criar estacionamentos de longo prazo para residentes, que tal como na maioria da cidade de Lisboa não dispõem de condições para guardar as suas bicicletas em condições simultaneamente convenientes e seguras. Já em Marvila, além do eixo da Rua de Xabregas, é fundamental criar um contra-sentido para bicicletas na R. Vale Formoso, a qual dá acesso a equipamentos como a CUF Descobertas e a Gare do Oriente. As deslocações em bicicleta entre o Beato, Marvila e Parque das Nações têm que passar a ser uma opção de mobilidade para as pessoas comuns, aproximando estes bairros, e tornando-se uma marca de qualidade deste território.

    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1355199951213705&id=404855069581536

  • Observador
    Responder

    Engraçado … A Emel vem para Marvila(confirmado à dias no jornal da junta) se vem para cá porque não trazer as bicicletas também ?! Visto que Marvila está a uma curta distancia da expo e cada vez mais espaços verdes?!

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