Marcado pelo estigma social, aquele que é o maior bairro de habitação social da Península Ibérica acolherá, de 30 de Abril a 15 de Maio, a maior festa de street art alguma vez organizada em Lisboa. Três dezenas de artistas, orientados por curadores conceituados como Vhils, Lara Seixo Rodrigues ou Pariz One, realizarão mais de 50 intervenções. “Queremos abrir este território ao resto da cidade e mostrar que Lisboa não é apenas o centro histórico”, afirma a vereadora Paula Marques. Um Muro para derrubar muros.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A hesitação foi quase imperceptível, mas de imediato superada de forma simples por Paula Marques, vereadora com os pelouros da Habitação e Desenvolvimento Local. Sem medo de eventuais mal entendidos, a autarca lisboeta reconhecia a carga simbólica associada ao Bairro Padre Cruz, em Carnide, que acolherá, de 30 de Abril e a 15 de Maio, o Muro – Festival de Arte Urbana LX_2016, apresentando nesta quarta-feira (30 de março), no Centro Cultural de Carnide. Se esta edição correr bem, outras poderão vir, garante a autarquia da capital.

 

“Para nós, tem particular significado fazer o festival no maior bairro de habitação pública da Península Ibérica. As pessoas que aqui vivem construíram uma identidade cultural do bairro. Muitas vezes, essa identidade cria também um processo de exclusão, quer por parte das pessoas que nele vivem, quer do resto da cidade, que olha para estes bairros como…vamos usar a palavra que é usada comummente… ‘problemáticos’”, dizia a vereadora à plateia do centro cultural, entre a qual também se contavam habitantes da zona.

 

O festival – que, segundo Sílvia Câmara, coordenadora do Gabinete de arte Urbana (GAU) da Câmara Municipal de Lisboa (CML), tem ambição de se tornar “uma referência na Europa” – é organizado pela CML em parceria com a Junta de Freguesia de Carnide e prevê diversas intervenções na cidade, mas terá no Bairro Padre Cruz o seu epicentro. Três dezenas de artistas, orientados por sete curadores de renome – entre os quais está Vhils, o mais reconhecido criador português de street art -, realizarão cerca de meia-centena de intervenções, numa área de 2.500 metros quadrados.

 

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Em simultâneo, e reforçando o carácter pedagógico e social desta festa popular da arte urbana, realizar-se-ão 21 visitas guiadas, oito workshops e 15 espectáculos. A ideia é trazer a cidade ao bairro e ajudar o bairro a sentir-se parte da cidade. “Iniciativas como esta promovem a abertura. As pessoas têm de perceber que este sítio também é cidade, também tem direito à cultura”, disse Paula Marques, enfatizando a necessidade de “abrir os territórios como este ao resto da cidade, para que o resto da cidade perceba que Lisboa não é apenas o centro histórico”.

 

A vereadora, que confessou um “carinho especial” pelo bairro onde vivem mais de 5.500 pessoas em 1.041 edifícios, por ter sido ali que iniciou o trabalho ao serviço da CML, salientou a importância do Festival Muro como ferramenta para quebrar o estigma social que sobre ele impende. “Queremos quebrar este ciclo, criando uma cidade mais livre, mais aberta, mais democrática”. Uma atitude complementada, momentos depois, pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto, ao comentar que “a arte urbana é representativa dos nossos tempos e através dela é mais fácil chegar às pessoas”.

 

A ideia é estabelecer pontes entre partes da população da cidade de Lisboa que, por regra, vivem de costas voltadas. Ou, se se quiser aproveitar a nomenclatura do festival, subvertendo-a, quebrar muros. Algo que Sílvia Câmara, a coordenadora do GAU, enunciou de outra forma, falando da intenção do Muro “olhar para a zona limítrofe da cidade e permitir o envolvimento da comunidade local”, funcionando tal ambição como complemento ao reconhecimento internacional de Lisboa – e de outros dos seus bairros mais centrais – como cidade relevante no circuito internacional da street art. “A missão do GAU é transformar o espaço público noutra coisa”, diz.

 

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Para além das actividades artísticas que justificam o festival, o mesmo terá uma programação extensa e diversificada, que tentará atrair o maior número possível de forasteiros ao bairro. Haverá lugar para debates, trabalho comunitário e associativo, pedagogia, divulgação, cinema, edições, música, animação de rua, teatro, marionetas, bike trial, paintball e uma espécie de festa de street food, garantindo que todos os visitantes podem contar com uma oferta diversificada a nível gastronómico.

 

Além de Vhils, o Muro- Festival de Arte Urbana LX_2016 tem como curadores Pauline Foessel, Lara Seixo Rodrigues, Pariz One, Pedro Soares Neves, Miguel Negretti e Ana Vilar Bravo e conta com a colaboração da EGEAC, da GEBALIS, do Turismo de Portugal, entre outros.

 

Mais informação: www.facebook.com/galeriadearteurbana/

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Bairro Padre Cruz será o palco do Muro 2016, o Festival de Arte Urbana de Lisboa https://t.co/ghubG54Jbk #lisboa

  • Paulo Ramos
    Responder

    Vergonhoso em vez de se penalizar a destruição de propriedade privada e pública (basta ver o que se passa nos comboios) andamos a promover estes crimes já agora porque não um concurso de charros ou de batota e ou poker visto que é tão popular nos nossos jardins

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