Bairro do Calhau, uma comunidade isolada do resto de Lisboa e onde os habitantes se sentem esquecidos

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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URBANISMO
VIDA NA CIDADE

São Domingos de Benfica

28 Maio, 2019

Longe do alvoroço do coração da cidade, em São Domingos de Benfica, há um bairro isolado da restante freguesia, de tal forma que os moradores se sentem abandonados. O aglomerado nasceu do processo de realojamento dos ocupantes de um núcleo de barracas, no início da década de 80. Mas, desde então, pouco ou nada foi feito pela reabilitação e manutenção do património municipal, queixam-se os residentes, na sua maioria idosos. Em 2013, a mercearia e o posto de cuidados médicos básicos encerraram, deixando quem ali vive sem um único serviço público básico. Os edifícios onde estavam instaladas estas infra-estruturas encontram-se devolutos, há vários anos, atraindo baratas e ratos. As casas municipais e o espaço público estão degradados. Os habitantes redigiram, por isso, uma petição, na qual reclamam mais atenção, serviços para a comunidade, como um centro de dia, e a reinstalação do gabinete médico e da mercearia. O Corvo foi ao bairro ouvir os (poucos) residentes. “É que nem há um sítio para comprar pão, é muito triste”, queixa-se um deles.

A pouco mais de três quilómetros do terminal rodoviário de Sete Rios, longe da confusão de algumas sedes de bancos, centros de escritórios e hotéis, há um bairro onde os moradores se sentem completamente esquecidos e à parte do resto da cidade de Lisboa. Entre o Palácio dos Marqueses da Fronteira e o Parque Florestal de Monsanto, algumas dezenas de casas camarárias compõem o Bairro do Calhau, há mais de quatro décadas. Para chegar lá, a partir da estação de metro de Sete Rios, a pé, é preciso percorrer toda a Rua Francisco Gentil Martins e passar uma ponte por cima da linha do comboio. Da passagem pedonal aérea, deserta e ventosa, o palácio do final do século XVII surge imponente, com Monsanto de fundo, num cenário quase romanceado. Ao chegar ao bairro municipal, porém, o estado de abandono e deterioração dos edifícios e a inexistência de serviços públicos básicos desmistificam tais expectativas.

Logo à entrada, no Sítio do Calhau, uma placa assinala que o médico José Cassiano Neves, “grande amigo e benemérito do povo do Bairro do Calhau”, viveu num prédio em frente. O edifício municipal tem as portadas das janelas fechadas, nenhuns sinais de vida e denota alguma falta de manutenção. O muro que ladeia o Parque Urbano do Calhau, do outro lado da rua, também mostra sinais de abandono. Naquela propriedade da Câmara Municipal de Lisboa (CML), a vegetação continua a crescer, criando fissuras nos muros superiores. Não se vê ninguém nem se percebe qual o melhor caminho a fazer para chegar ao coração do bairro – que se estima tenha uma centena de residentes. Apenas várias placas a indicarem a sede da Associação de Moradores Flor da Serra vão dando pistas sobre a zona onde se poderão concentrar os moradores.

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O bairro fica ao lado do Palácio dos Marqueses de Fronteira

Na sede da colectividade, porém, também não se vê ninguém. No largo, o estado de degradação do chafariz de São Domingos de Benfica e da área envolvente fortalecem a ideia de estarmos perante uma zona da cidade abandonada e parada no tempo. No átrio da associação de moradores, restos de beatas nos cinzeiros da esplanada denunciam alguns sinais de actividade. “Só abrem à tarde, e nem sempre abrem todos os dias”, explica Maria do Céu Gonçalves, 70 anos. Aparece numa esquina, a acompanhar o marido, um dos fundadores da colectividade, que se desloca com dificuldade. Moisés Gonçalves sofreu um AVC, que o deixou sem falar e com várias incapacidades motoras. Maria do Céu e outros moradores do bairro, maioritariamente idosos, pediram, por isso, que se instalasse uma rampa para pessoas com mobilidade reduzida no acesso às instalações da associação. Este foi, contudo, um dos poucos apelos que os residentes viram concretizado, após vários anos de reivindicações.


 

Um ano depois do 25 de Abril de 1974, o Bairro do Calhau era mais um aglomerado de barracas dos vários que existiam na cidade, na altura. Mas, em 1982, o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Nuno Krus de Abecasis, juntamente com a Associação do Bairro, reconstruiu-o. Segundo os moradores, pouco foi feito depois, constatações que são visíveis no estado de desleixo do bairro, na falta de manutenção das calçadas e dos edifícios municipais, vários devolutos. A maior parte das casas precisam de ser recuperadas, as ruas pavimentadas e o horário do único transporte público que entra no bairro, um autocarro da Carris (770), deveria ser alargado, pedem os moradores numa petição redigida por Etelvina Ferreira, 53 anos.

 

Há mais de cinco anos que a única mercearia do Bairro do Calhau e o gabinete médico fecharam. Desde 2016, a comunidade reclama a reabertura do espaço, “mas em vão”, garante Etelvina. O encerramento destas estruturas, ali deixadas ao abandono, teve um grande impacto na vida dos habitantes, maioritariamente idosos. A Alegria Ventura, 88 anos, há mais de cinco décadas a viver no Bairro do Calhau, vale-lhe a ajuda do filho e de alguns vizinhos mais novos, explica a O Corvo. “São eles que me trazem a comida para o mês todo. É que nem há um sítio para comprar pão, é muito triste. No centro médico, tínhamos fisioterapeuta, podia medir a tensão e ver como estava da minha doença de diabetes. Agora, tenho de chamar um táxi para ir ao centro de saúde”, conta, cabisbaixa.

 

 

Há uns anos, recorda, “o bairro estava ainda mais envelhecido, mas tínhamos tudo”. “Agora, estamos entregues à associação de moradores, não há mais nada”, lamenta. A vizinha do lado, Maria do Céu Gonçalves, sente o mesmo. “Faz muita falta a pessoas com mais idade, que não conseguem sair daqui. Já estamos isolados geograficamente, assim ficamos mais. Precisámos de um pão ou de tomar um café e não temos nada”, lamenta uma das moradoras mais antigas, a viver ali desde que nasceu. Os dois imóveis onde estavam instaladas as duas estruturas básicas ficaram devolutos, sem manutenção e “um chamariz de pragas de baratas e ratos”, critica Etelvina. As instalações da antiga mercearia servem agora de armazém às bicicletas da escola de BTT de São Domingos de Benfica, “mais um protocolo que achamos que não favorece os locais”, critica ainda a autora do abaixo-assinado.

 

Na Rua António Macedo, um muro está vedado, desde o mês passado, depois de terem ruído algumas pedras. Já desde 2016 que os moradores alertavam para a possibilidade de derrocada, mas nada foi feito, garante Maria do Céu. “Caíram uns pedregulhos, vedaram-no e ficou entregue à bicharada. Só não caiu em cima de ninguém por sorte”, critica. O muro contíguo às casas dos moradores do Sítio do Calhau também está a desintegrar-se, “com grandes fendas, que constituem risco de queda, podendo atingir quem ande na rua”, critica Nuno Neves, 46 anos, morador há duas décadas no Bairro do Calhau. “O muro do palácio é muito antigo e, com o peso da construção das casas, está a ceder. Tudo o que está neste estado de degradação devia ser composto”, desabafa ainda, enquanto lava o carro com a mangueira, debaixo de um sol abrasador.

 

Os sinais de abandono do aglomerado – maioritariamente, património municipal -encontram-se em todas as ruas e becos do Bairro do Calhau. Até há pouco tempo, o agrupamento dos escuteiros esteve sediado nas instalações do antigo São Domingos Futebol Clube. Agora, o edifício está vandalizado e fechado, sem ocupação. A Casa da Função, um imóvel devoluto, no Parque Recreativo do Calhau, foi requalificado e cedido aos escuteiros, uma decisão que também está a deixar a comunidade revoltada. “Realizaram-se obras dispendiosas, sabendo que os residentes aguardavam há muito tempo por um espaço de convívio para os idosos, ou algo mais adequado às suas necessidades. Além disso, a Junta de Freguesia quer construir um ginásio, parece uma brincadeira de mau gosto, tendo em conta o número de idosos com problemas motores”, critica Etelvina.

 

 

A pacatez solitária do Calhau só é quebrada pelo ruído de alguns carros que estacionam junto à entrada do Parque Florestal de Monsanto. Os responsáveis pela parca movimentação que se vai sentindo no bairro são maioritariamente pessoas de fora. “Isto hoje está calmo, mas, aos fins-de-semana há demasiados carros. Por vezes, o único autocarro da Carris que vem ao bairro não consegue passar. Os passageiros ficam todos no palácio, novos e velhos, e têm de vir a pé ou esperar”, conta Nuno Neves. Ao longo do ano, o parque de estacionamento também é um lugar de eventos musicais e desportivos, iniciativas que perturbam o descanso dos moradores. “A quantidade de pessoas que se concentram ali é um dos principais problemas do bairro, às vezes vêem mais de 300 carros. Conheço vários espaços em Monsanto onde podiam fazer festas à vontade, sem incomodarem ninguém. Não percebo porque fazem tudo ali”, critica.

 

Por ser uma zona “mais escondida” do resto da capital, acredita Nuno Neves, “há uma maior tendência para o vandalismo”. “Por mais que se embeleze o bairro, haverá sempre quem venha vandalizar sítios mais isolados. É injusto para quem vive cá, por que não são as pessoas do bairro que o estragam”, conclui, antes da companheira o chamar para almoçar e as ruas ficarem novamente desertas.

 

 

Na petição, submetida no passado dia 9 de Maio à Assembleia Municipal de Lisboa (AML), os moradores censuram as decisões da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica para aquele bairro. “O pouco apoio do executivo da Junta é inadequado e desajustado às reais necessidades da população. Presume-se que foi anunciado um programa de ginástica natural (…), uma manifestação clara de total desconhecimento da realidade do Calhau”, lê-se na subscrição. Hugo Gonçalves, 45 anos, também autor do abaixo-assinado, reforça tais críticas. “Há muito dinheiro para algumas zonas da freguesia e outras são completamente desprezadas”, lamenta.

 

O Corvo enviou questões à Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica (PS) e à Câmara Municipal de Lisboa, mas, até ao momento da publicação deste artigo, as respostas não chegaram.

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  • Victor Monteiro
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    Diz o “Corvo”: “Um ano depois do 25 de Abril de 1974, o Bairro do Calhau era mais um aglomerado de barracas dos vários que existiam na cidade, na altura.”. Nesse aspecto discordamos. Não havia barracas nesta zona mas sim casas degradadas. Quanto ao restante é fundamentalmente verdadeiro, se bem que discorde que a maioria dos habitantes sejam idosos, apesar de ainda não os ter contado. Desconheço a petição de que falam mas eu próprio já me desloquei à Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica e escrevi ao provedor da Carris. A primeira entidade recebeu-me e nunca mais tive contacto com ela, apesar de ter ido a uma reunião na qual já não pude falar. Quanto ao provedor da Carris, mandou-me dar uma volta, dizendo-me que não ia fazer nada. Bem estávamos mais ou menos há um ano e meio de distância do dia de hoje. Desde então, a Junta de FSDB armadilhou toda a área sobre sua jurisdição com parquímetros. Dado que a Junta de Benfica nem um parquímetro colocou, nota-se hoje uma deslocação de carros para a junta de freguesia de Benfica e até para alguns sítios onde a EMEL ainda não chegou, como seja o Bairro do Calhau, ficando muitos locais com o parquímetro a olhar triste para o espaço não ocupado por qualquer viatura. A zona de estacionamento em frente ao Pingo Doce e ao Continente em Benfica, destinado a quem se deslocava às compras, aos moradores da zona e a quem vai para ali trabalhar, é ocupada durante, de manhã à noite, por gente que vem de todos os lugares à procura dum lugar não pago. A miragem desmedida com o dinheiro que é possível arrecadar com os Parquímetros criou mais um imposto encoberto, pago por quase todos, menos por aqueles que não têm carro e que por isso têm de pagar um táxi para ir, por exemplo, a uma farmácia. A Junta de FSDB prepara-se para tomar mais medidas avulsas mas sem estudos prévios. O Bairro do Calhau precisa de transportes públicos até, no mínimo, às 24 horas, não até ás 20 ou 21 horas. O dinheiro que avidamente a EMEL cobra – “rouba” – aos lisboetas, deveria dar para cobrir as zonas da cidade que não têm comércio local, nem serviços médicos e outros referidos na reportagem. Mas este é o país que temos: corre-se atrás de toda a gente a cobrar impostos e depois o dinheiro evapora-se para as mãos daqueles que sabem mexer os cordéis da bolsa. O país continua na merda. Muita conversa, muita mentira, muito engano, estarão a desafiar o povo para outra revolução? Talvez não, no fundo é mais fácil emigrar…

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