Falar de buracos nas ruas de Lisboa é um lugar-comum, mas o que não se esperaria é que, meses depois de terem terminado as obras para a instalação de uma zona 30 num bairro residencial como o do Arco do Cego, o caos das crateras se tivesse instalado ao nível mais básico do pavimento.

 

Quem não conheça o estado esburacado do asfalto nas ruas do bairro do Arco do Cego, “o melhor é não se aventurar a ir lá de carro à noite”, adverte a moradora Isabel Castaño, porque, mesmo de dia, quem lá vive tem de “fazer gincanas, todos os dias”, para conseguir chegar ao local onde mora, ou dele sair.

 

Há moradores que já nem sequer circulam no interior do bairro e optam por contorná-lo, para entrar e sair dele, como conta ao Corvo André Barata, outro residente no Arco do Cego. Para ele o pavimento “já não está em condições de ser usado, está muito para lá dos limites do aceitável”. E pode até constituir um perigo.

 

“Está um caos. Na gincana que temos de fazer, o que é difícil mesmo é como não acertar no buraco”, salienta Isabel Castaño, uma moradora que chegou a ter a esperança de que as obras da instalação da zona 30, operadas em 2014, viessem resolver o problema dos pavimentos. Mas, a esperança foi gorada e tal não aconteceu.

 

“Há situações em que não podemos sequer evitar passar nas ruas mais esburacadas, porque há sentidos obrigatórios para se entrar e sair do bairro” e que passam por algumas das ruas em pior estado, como sucede com a Rua Cândido Guerreiro – entre outras onde o problema também se verifica.

 

“Tem havido acções pontuais, recentemente, andaram a tapar um grande buraco na rua da pastelaria, mas não é suficiente, porque há tantos”, diz ainda a mesma moradora.

 

A mais recente intervenção da câmara foi na Rua Bacelar e Silva, onde, no dia 14 de Maio, como se lê no sítio da CML, foram tapadas “covas, depressões e descontinuidades” no asfalto, situação que é comum a diversas artérias do bairro.

 

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Actualmente, chega a ser irónico ver as placas “Zona 30”, advertindo para os limites de velocidade a que se pode circular no interior do bairro. O estado dos pavimentos já por si determina velocidades mínimas, que podem nem sequer rondar os 30.

 

A gincana já custou caro a um outro morador, cujo automóvel foi parar à garagem, para reparação de “um braço da suspensão que se partiu”. Manuel Paixão, que reside há décadas na Rua Brás Pacheco, diz estar indignado com o que se vive no Arco do Cego, em matéria de circulação.

 

E não é sequer preciso morar lá, para se perceber como se torna incómodo circular, até a pé, sobre o ondulado dos pavimentos. “Logo à entrada do bairro, junto à Praça de Londres, se vê. A fina camada de alcatrão que colocaram está toda estalada. E junto à Igreja há vários buracos”, diz Manuel Paixão.

 

E à saída do bairro, para quem vá para o Campo Pequeno, ao problema dos buracos veio juntar-se outro, “que foi criado pela própria EMEL, que, numa rua estreita, colocou estacionamento até na curva, quando ali não devia sequer haver estacionamento”, acrescenta Manuel Paixão.

 

Quem ali ande a pé assiste com frequência às múltiplas manobras que são necessárias para que quem vá de carro consiga fazer uma simples curva dentro do bairro. São mais os recuos do que os avanços.

 

A dificuldade em circular coloca-se também ao serviço “Porta-a-Porta”, que é prestado pela junta aos residentes da freguesia do Areeiro. “Não é fácil andar com a carrinha no interior do bairro porque, de facto, há muitos buracos”, disse ao Corvo um motorista que ali faz serviço.

 

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A redução de velocidade de circulação não é, em si, algo de mau, como sublinham vários moradores. “Que tenha de se andar devagar de carro aqui, acho muito bem. E fiquei satisfeito com a instalação da Zona 30 no bairro, até porque aqui há escolas. O que não acho bem é o nível a que chegou o mau trato dos pavimentos. Os miúdos andam aqui de bicicleta e, nalgumas situações, em que os buracos são grandes, pode até ser perigoso ”, sustenta André Barata.

 

Também a Associação de Moradores das Avenidas Novas, que abrange a área do Arco do Cego, está preocupada. Filipe Soares, presidente desta associação que integra a plataforma “Os buracos das ruas de Lisboa, destaca o desapontamento provocado entre os habitantes do bairro do Arco do Cego pelas as obras da Zona 30.

 

“Criou-se, na altura, a expectativa de que as obras, que, ao longo de vários meses, estiveram a ser feitas, tivessem em conta o mau estado do asfalto. Mas não. Limitaram-se a colocar lombas e deixaram os pavimentos como estavam, em muito mau estado”.

 

Para Filipe Soares, falar ali em Zona 30 é brincadeira. “Ali, é zona 10, porque não se consegue mesmo andar mais do que isso. E há gincana todos os dias”, diz também.

 

O problema já foi “repetidamente levantado pela Associação de Moradores em assembleias de freguesia do Areeiro, mas a transferência de competências (da câmara para a junta) só abrangeu as calçadas, que também estão a precisar de ser arranjadas. A manutenção do asfalto continua a estar na dependência da câmara, como nos afirmou o presidente da junta de freguesia, que disse não ter responsabilidades na matéria”.

 

Com um projecto da I República, o bairro do Arco do Cego que foi construído já no Estado Novo, constitui uma memória da cidade. Mas já não é a glória que um dia foi para os governantes de então. “É pena, porque é um conjunto arquitectónico interessante que está desleixado e abandonado à sua sorte, salienta Filipe Soares, que aponta o dedo à Camara Municipal de Lisboa.

 

“O que mais lamentamos é o profundo esquecimento a que está votada a manutenção das vias locais, por parte da câmara. Por este andar, qualquer dia, toda a cidade terá que ser zona 10”.

O Corvo tentou apurar junto da Câmara Municipal de Lisboa o que está previsto em matéria de repavimentação no bairro do Arco do Cego, mas não obteve resposta em tempo útil.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Bairro do Arco do Cego cheio de buracos http://t.co/DP9reNIH5T

  • Xana Fidalgo
    Responder

    Há anos

  • Maria Papoila
    Responder

    é o único “controlador de velocidade” a que se obedece em Portugal, daí ser uma zona 30… A ler:

  • Miguel Rodeia
    Responder

    Só no Arco do Cego!?

  • Carlos Vasconcelos
    Responder

    Explicado o facto de ser uma zona 30, Porque se fosse mais eu abria ali uma oficina de reparação automóvel.

  • João Paulo
    Responder

    A situação é deveras lamentável. Pode ser que este “eco” consiga trazer melhorias claramente necessárias.

    Não percebi bem foi porque motivo a Associação de Moradores das Avenidas Novas se pronunciou e foi ouvida sobre uma questão que ocorre no Areeiro.

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