Bairro Alto, uma história concentrada

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Sofia Bártolo

Ilustração

URBANISMO

Misericórdia

12 Dezembro, 2013

Primeiro, chegou a gente ligada ao mar, depois, os jesuítas e, atrás deles, a nobreza, nos seus coches. O Bairro Alto escapou ao terramoto e o fado encheu-lhe as ruas. Com os jornais, a boémia intelectualizou-se. O salazarismo levou o bairro a fechar-se e, só em finais dos anos 70, as novas gerações o descobriram como lugar de transgressão e fuga. Entrou na moda e dela nunca mais saiu.

No final do século XV, Lisboa sufocava dentro das muralhas. Uma população das mais variadas origens, atraída pelo crescente comércio com as costas de África e a Madeira, acotovelava-se num emaranhado de becos e ruas estreitas, tortuosas e irregulares, ocupadas por grandes balcões de madeira, as balcoadas.

Apoiadas directamente no solo, em estacas de madeira, estas balcoadas, de raiz islâmica, impediam a circulação – em muitas ruas, era impossível um homem circular a cavalo -, dificultavam o policiamento e facilitavam a propagação de doenças.

Epidemias e desordens de toda a espécie caracterizavam o quotidiano da cidade em explosão demográfica, que se tornara não só “impossível de gerir”. As informações são de arquitecto Hélder Carita, um especialista na história de Lisboa, autor do estudo “Bairro Alto. Tipologia e Modos Arquitectónicos”.

Havia, pois, que conquistar espaço para a habitação e reorganizar a cidade. Uma das decisões do rei Dom Manuel I, com grandes implicações nesse sentido, foi a mudança da corte do Castelo de São Jorge para o Terreiro do Paço, na frente ribeirinha, antes uma zona de sapal.

O novo palácio, o Paço da Ribeira – um complexo e sumptuoso conjunto de edifícios, que começou a ser erguido em 1498 e ficou totalmente arrasado no terramoto de 1755 –, ficava muito perto do porto, onde chegava a pimenta, da Ribeira das Naus, onde se construíam os barcos, e da Casa da Índia e da Casa da Guiné, onde se faziam os negócios. A sua construção significou a afirmação de Lisboa não só como capital do reino, mas ainda como a capital de um grande império marítimo e colonial.

A deslocação da corte para junto do Tejo gerou uma revolução urbanística: a cidade estendeu-se para ocidente, a partir da zona do porto, graças à construção de novos aterros.

Na margem do rio, na área de Cata-Que-Farás, o actual Cais do Sodré, um pequeno povoado de gente ligada ao mar começara a formar-se no início do século XVI. Encosta acima ficavam as portas de Santa Catarina, uma das entradas mais importantes da cidade, situadas onde hoje fica o Largo do Chiado – ladeadas por duas grandes torres que foram demolidas, dando origem às igrejas da Encarnação e do Loreto.

Do lado de fora da muralha, estendiam-se as herdades de Guedelha Palaçano, um judeu riquíssimo do reinado de Dom Afonso V, onde cresciam extensos e bem tratados olivais.

Em finais do século XV, num contexto muito adverso para os judeus, essas herdades, que estavam aforadas à família Andrade, foram vendidas pela viúva de Guedelha Palaçano, Dona Judia, a Luís Atouguia, fidalgo da mais alta linhagem, tesoureiro de Dom Manuel.

Um documento de 1498 regista a autorização dada por Luís de Atouguia a Bartolomeu de Andrade para a abertura de uma primeira rua junto às portas de Santa Catarina. Começou aí, junto à cerca fernandina, a desenvolver-se Vila Nova de Andrade, a primeira fase do Bairro Alto, polarizada entre dois focos urbanos, Cata-Que-Farás e as portas de Santa Catarina.


O facto de os terrenos pertencerem a uma única família facilitou a extensão deste núcleo urbano: a 15 de Dezembro de 1513, o filho de Luís de Atouguia, Lopo de Atouguia, assinou com Bartolomeu de Andrade um novo acordo, permitindo o sub-aforamento dum lote mais vasto das suas propriedades – entre a Rua do Loreto e a Travessa da Queimada. E é tendo em conta a data desse acordo – que permitiu uma das maiores operações imobiliárias da história da cidade -, que este ano se comemoram os 500 anos do Bairro Alto.

Em Vila Nova de Andrade, foram postos em prática princípios arquitectónicos e urbanísticos em ruptura clara com o urbanismo medieval: o traçado das ruas é ortogonal, seguindo um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que o quarteirão surge como unidade fundamental.

A construção das casas obedece às normas impostas por um conjunto de disposições reais, que ordenam que as mesmas sejam construídas em alvenaria e demolidas as balcoadas existentes. Permitem-se apenas os balcões que não ultrapassem os dois palmos de largura – algo que terá continuidade nas varandas de sacada, que existem por toda a Lisboa, explica Hélder Carita. “Os frontais das casas que estiverem feitos de madeira” têm que ser demolidos e manda-se que “se faça parede direita”, determina o rei.

A habitar o bairro está gente não muito pobre – os mais pobres residiam em Alfama -, profissionais com algum estatuto, mestres cartógrafos, pilotos, pintores. A população de Vila Nova de Andrade aumenta rapidamente a partir de 1513. Em 1528, há registos de 408 edifícios e 1600 habitantes. Em 1551, são já 8.679 pessoas a viver ali.

Quando, em 1553, os jesuítas se instalam na parte mais alta da colina, junto à ermida de São Roque – erguida para proteger Lisboa da peste –, nasce uma nova urbanização, que se estende até ao Moinho de Vento, hoje Rua Dom Pedro V.

Os jesuítas tinham chegado a Portugal em 1540 e, rapidamente, alcançaram grande influência cultural e política (fundam vários colégios e são confessores da família real e da mais alta nobreza). No alto de São Roque, mandam construir uma igreja de linhas maneirista, sólidas e depuradas. Tendo a igreja como referência, é rasgada a Rua Larga de São Roque – actual Rua da Misericórdia -, que substitui a velha via medieval que ligava o alto da colina às portas de Santa Catarina e se constitui como o eixo a partir do qual se organiza o Bairro Alto de São Roque, assente em pressupostos contra-reformistas e barrocos.

Com os jesuítas, a nobreza e alta burguesia chegam ao Bairro Alto: uma nova população de mercadores, capitães de carreira, clérigos, burgueses ricos, altos funcionários régios e aristocratas vai ocupar não apenas os grandes eixos viários – Rua do Alecrim, em direcção a São Roque, e Rua do Loreto, em direcção à Calçada do Combro -, mas também o seu interior. Uma referência desse movimento é o ano de 1558, em que Ana Queimado, herdeira de uma grande fortuna, afora aos frades trinos, na travessa que ficará com o seu nome – Travessa da Queimada -, vários terrenos para construir moradias nobres.

Os palacetes e casas senhoriais erguidos no Bairro Alto submetem-se à malha ortogonal, que constitui a sua identidade, e às cérceas das habitações populares já existentes, gerando um conjunto harmonioso, sublinha o arquitecto Hélder Carita. O uso do coche desde finais do século XVI – trazido para Portugal por Filipe II – vai consolidar esta malha, ao conferir largura e regularidade às ruas, e constitui, pelo seu aparato, um factor de atracção para a nobreza.

O terramoto de 1755 deixou o Bairro Alto praticamente incólume, atingindo apenas os seus limites sul e nascente. No interior, no que toca à população, as mudanças também não foram significativas: nos dois séculos seguintes, continuaram a coexistir povo e nobreza, tendo chegado a haver no bairro 15 palácios habitados. Entre outros, estão o Palácio do Cunhal das Bolas (um dos mais antigos, ainda quinhentista, que hoje alberga o Hospital de São Luís dos Franceses, entre a Rua Luz Soriano e a Rua da Rosa, cujo nome advém dos grandes cunhais de pedra ornamentados por grandes bolas esculpidas), o dos Andrades, em São Pedro de Alcântara, o dos Condes de Ficalho, na Rua dos Caetanos, dos Coutinhos, dos Barões do Alvito ou dos Condes de Soure, o Palácio Ludovice (onde funciona o Solar do Vinho do Porto, construído pelo arquitecto de Mafra, Frederico Ludovice), o Palácio dos Carvalhos (na antiga Rua Formosa, hoje Rua do Século, pertencente à família do Marquês de Pombal – onde, entre outros organismos, já funcionou o Ministério do Ambiente).

Mas houve famílias que, no pós-1755, optaram por se retirar para as suas quintas dos arredores, abandonando os palácios – entretanto demolidos ou restaurados para arrendamento popular, depois de subdivididos e de lhes serem acrescentados novos pisos.

As reconstruções levadas a cabo pelo Marquês de Pombal nas zonas mais afectadas pelo terramoto – ruas da Emenda, do Alecrim e da Misericórdia – e a grande remodelação da Rua do Século criaram uma espécie de fronteira entre a cidade e o bairro, reforçando a sua identidade e coesão interna. O ambiente de privacidade que resultou destas circunstâncias será, como afirma Hélder Carita, “um dos elementos fundamentais do clima artístico e de marginalidade que se anunciava no século XVIII e toma todo o seu aparato nos séculos XIX e XX”.

O Bairro Alto já tinha assistido à criação de pequenas academias neoclássicas – como a “Academia dos Generosos” que funcionava no Palácio do Cunhal das Bolas, frequentada por Francisco Manuel de Melo –, em que grupos de nobres discutiam questões de ordem literária, científica ou religiosa.

No início do século XVIII, António José da Silva, o Judeu, fazia representar as suas peças no teatro público do Bairro Alto, onde se revelou a célebre actriz e cantora Luísa Todi. Poetas como Nicolau Tolentino escolheram o Bairro Alto para viver, assim como Almeida Garrett – cuja casa, na Rua da Barroca, era um centro de debates das ideias liberais.

Mas não era só nos salões apalaçados que se convivia: em meados do século XIX o fado já invadira bordéis, locais de trabalho e tabernas, reunindo às mesmas mesas fidalgos, poetas, marinheiros, prostitutas, actores, burgueses e rufias, rendidos às vozes roucas e sensuais que cantavam as dores, o desencanto, e também os momentos alegres e divertidos da vida quotidiana.

Todos encontravam, nas ruas escuras e pouco policiadas do Bairro Alto, a privacidade necessária à satisfação dos seus vícios. Desde 1833 que o bairro era uma das três zonas de Lisboa onde fora regulamentado o exercício da prostituição, praticada abertamente na rua e também portas adentro, em salões, clubes e pensões. Ficou na história uma delas, na esquina da Rua Nova do Loureiro, onde viveu uma célebre “cocotte” cabo-verdiana, Andresa do Nascimento, conhecida como a Preta Fernanda, que serviu de modelo a um elemento da estátua do marquês de Sá da Bandeira, na praça de Dom Luís.

Nos chamados clubes carnavalescos, assim designados não por prepararem o Carnaval, mas apenas porque funcionavam como se este durasse todo o ano, as rixas eram constantes. Entre as personagens do bairro, nessa época, notabilizava-se um particular tipo de rufia, o faia, reconhecido pelo hábil manuseio da navalha. A escuridão reinante – até muito tarde, só a Rua da Rosa tinha candeeiros a iluminá-la – contribuía para criar enormes dificuldades à entrada da polícia.

O século XIX, época de grande instabilidade política, assistiu ainda à instalação da imprensa no Bairro Alto, aproveitando os grandes espaços proporcionados pelas salas e dependências dos palácios da nobreza decadentes e devolutos, adequados à instalação de salas de redacção e de tipografias: no Palácio Marim-Olhão, na Calçada do Combro, vai funcionar a “Revolução de Setembro” e “A Batalha”; o palácio dos Viscondes de Lançada, na Rua do Século, recebe o jornal “O Século”; no antigo palácio dos Condes de Atalaia, na rua do mesmo nome, ficava o “Record”, para citar alguns exemplos. Em finais do século XIX em Lisboa, então com 200 mil habitantes, publicavam-se já 13 matutinos e oito vespertinos. Durante a I República, 13 dos 20 títulos mais importantes da imprensa do país continuavam a ter as suas redacções no Bairro Alto.

A vida dos jornais marcou profundamente o bairro. Jornalistas, tipógrafos e ardinas, escritores e políticos, caricaturistas e ilustradores cruzavam-se – dia e noite – nas suas ruas e proliferam as casas de pasto e os botequins, onde o ambiente era de grande eferverscência intelectual e política.

Com o advento do Estado Novo, em 1926, os jornais não se foram embora, mas o ambiente mudou: a censura passou a “condicionar violentamente a vida dos jornais e, com isso, do próprio Bairro Alto e do país”, afirma Álvaro Costa de Matos num artigo publicado no livro “Bairro Alto. Mutações e Convivências Pacíficas”, publicado pelo Arquivo Municipal de Lisboa. Entrou-se numa “lenta e progressiva decadência: o carácter fechado e popular do Bairro Alto acentuou-se. A prostituição proletarizou-se. O fado acabou transformado em ‘canção nacional’” e saíu das tabernas para o ambiente mais respeitável das casas de fado.

Nos prédios, bastante degradados, foi-se fixando uma população de menores recursos, enquanto a mais endinheirada continuava a preferir os prédios pombalinos da periferia do bairro. Mas as ruas e os bares soturnos de luz vermelha continuaram a ser frequentados por marinheiros e rufias e as casas de fado a receber gente de todas as classes sociais: diz-se até que foi numa delas que um banqueiro da família Espírito Santo ofereceu de presente a Amália Rodrigues um par de brincos de brilhantes.

Alguns anos depois do 25 de Abril, os filhos da burguesia – que, nas década de 50 e 60, se mudara para Avenida de Roma e zonas limítrofes -, começaram a descobrir os encantos do bairro secreto e permissivo, a dois passos do Chiado, onde não faltavam tascas com comida e bebida a preços baixos.

Nos últimos anos da década de 70, abrem as portas o Souk, a Rock House e o Jukebox, espaços nocturnos destinados a satisfazer os gostos urbano-depressivos e transgressores de uma nova geração, à qual nada dizia a oferta tradicional nocturna do Bairro Alto.

Mas foi a inauguração, em 1982, da discoteca “Frágil”, numa antiga padaria no nº 126 da Rua da Atalaia, que revolucionou decisivamente a noite do Bairro Alto. O proprietário, Manuel Reis, soube atrair um público muito variado, onde dominavam os artistas plásticos, alunos e professores dos cursos de teatro e cinema do vizinho Conservatório, actores e actrizes, designers de moda, jornalistas e políticos, que encontraram no “Frágil” não apenas um bar e uma discoteca, mas um lugar de convívio, de ambiente intimista e barroco, dado pelos cortinados vermelhos e os espelhos dourados.

A porta era autoritariamente controlada por mulheres, uma delas Margarida Martins, a “Guida Gorda”, que mais tarde fundou a associação “Abraço”, cujo retrato, em que aparece desnuda, chegou a decorar o bar. O Frágil deu o nome a uma canção de Jorge Palma e António Variações, que antes  de ser um cantor famoso fora barbeiro, cortava lá o cabelo aos amigos.

Quem ia ao Frágil, provavelmente almoçava ou jantava no Casa Nostra, propriedade de uma antiga técnica de cinema, no Bota Alta ou no Pap’Açorda, este também propriedade de Manuel Reis. Os de menos posses, fossem eles punks, góticos ou skinheads, frequentavam a Cervejaria Trindade ou a tasca do “Sr. Manel”, na Rua Diário de Notícias.

Nos anos 80, bares e discotecas – Artis, Três Pastorinhos, Mahjong, Bar Bairro Alto, Sudoeste, para só citar alguns – alastram do eixo inicial – Rua da Atalaia e Rua Diário de Notícias – para as artérias confinantes. Como personagens dominantes havia Hernâni e Zé da Guiné – recentemente falecido -, fundador de um dos espaços mais vibrantates da noite: o Noites Longas, no Largo do Conde Barão, onde às oito da manhã ainda se dançava.

O Bairro Alto também tinha vida durante o dia, e entrara na moda, literalmente falando, a partir de 1986, quando as Manobras de Maio, desfiles tendo como “passerelle” o Largo do Século, atraíram estilistas e designers, que ali abriram as suas lojas de roupa. Foi o caso de Manuel Alves e Gonçalves, de Mário Matos Ribeiro e Eduarda Abbondanza, de Filipe Faísca, Jonatas e outros.

Com Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994, o Bairro Alto foi abrangido por um projecto de requalificação urbana, Sétima Colina, que permitiu a recuperação de parte do seu património histórico e uma intervenção cosmética nas fachadas de vários edifícios. Aproveitando esta maré, chegaram negócios ligados à cultura, como a Galeria Zé dos Bois, dedicada à promoção de artistas de vanguarda, ou a livraria Ler Devagar, que procurava ter à venda livros difíceis de encontrar no mercado.

O comércio tradicional – casas de pasto, mercearias, drogarias, tabacarias, tipografias, talhos, carpintarias, pequenas oficinas, até uma torrefacção de café  –  sobrevivia ao lado de lojas oferecendo produtos novos: artesanato, móveis de origens exóticas, “piercings” e tatuagens, chapéus e roupas vintage em segunda mão.

A vida nocturna, que entrara numa certa decadência com a inauguração de novos espaços de diversão nas docas e na Avenida 24 de Julho, voltou a animar-se quando, em 1998, foi inaugurada a estação de metro Baixa-Chiado, permitindo não só a afluência de gente, como aliviar o trânsito automóvel dentro do bairro – que tornara quase impossível a circulação, mesmo a pé, por causa dos carros estacionados nos passeios. A proibição da entrada de carros de não residentes veio acabar com a confusão.

Mais recentemente, essa animação intensificou-se, com o aparecimento do chamado “botellón”, prática importada de Espanha, em que a rua substituíu os bares como lugar de convívio, animado pelo consumo de bebidas alcoólicas consumidas directamente a partir das garrafas, vendidas em lojas de conveniência abertas toda a noite.

Estas lojas, exploradas maioritariamente por paquistaneses e indianos, começaram a abrir por todo o Bairro Alto, tendo a prática do “botellón” feito baixar a idade dos consumidores de álcool, agora vendido a preços mais baratos.

Os bares perderam clientes, as ruas ganharam lixo e os habitantes das ruas mais afectadas organizaram-se para protestar contra o barulho fora de horas. Em 2011, a Câmara Municipal de Lisboa impôs restrições a este comércio, mas o “botellón” não desapareceu, alimentado pelo afluxo crescente de turistas.

A actual crise económica e a nova lei das rendas têm reflexos no comércio local: desapareceram estabelecimentos emblemáticos, como a Casa Varela, que vendia artigos para desenho e pintura, fecharam as serrações, as drogarias quase desapareceram, as pequenas mercearias sobrevivem a custo. Alguns comerciantes resistem como podem: o Sr. Jorge, dono do talho mais antigo da Rua da Rosa, fundado há quase cem anos, vende agora não apenas carne, mas legumes, frutas e temperos diversos, para não ter de fechar as portas.

A maioria dos seus clientes são idosos, que continuam a habitar os andares altos e as mansardas. Muitos já não conseguem descer as escadas para irem às compras, e, a valer-lhes, nesses casos, está geralmente um vizinho um pouco mais jovem ou com melhores pernas. A ajudar esta população – geralmente muito pobre – está a venda a fiado, praticada nos estabelecimentos mais antigos, em nome da boa vizinhança. A solidariedade não é ainda letra morta entre os habitantes do velho Bairro Alto, onde a boémia também não morreu e o fado já é cantado em bares da moda.

O passado continua a ser lembrado na placas toponímicas. A Rua da Rosa, Travessa da Água Flor e Rua Nova do Loureiro remetem para o tempo em que no Bairro Alto havia quintas, a Rua das Gáveas e dos Calafates lembram que foi habitado por marinheiros e pequenos artífices, a Rua de Luísa Todi recorda habitantes notáveis, a Rua Diário de Notícias a época em que os jornais ali se concentravam.

O bairro está em mudança, mas o espírito do lugar continua vivo e de saúde. E o jornal “A Bola” ainda não saíu de lá!

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COMENTÁRIOS

  • Aqui Mora Gente
    Responder

    O modelo de animaçâo nocturna massificado e descaracterizado que predomina actualmente no Bairro Alto deve-se não apenas ao “”Botellon mas à falta de regras claras e transparentes, nomeadamente, quanto a licenciamento de estabelecimentos, modo de funcionamento e horários.Os estabelecimentos vendem todos bebidas para a rua, anunciam nas portas “Baldes” de cerveja, “Bebidas em tamanho XL” e “shot`s” a 1€, uma grande parte não tem condições de insonorização nem espaço de dança licenciados, mas têm concertos de música, DJ`s e colunas de som a emitir enormes ddécibeis para a rua.Muitos dos espaços desde a loja de roupa, galeria ou associaçâo cultural têm “bares de aopoio” e licenças de prolongamento de horário concedidas pela CML, passando na prática a ter uma actividade principal (e mais lucrativa) de Bar.

  • Aqui mora gente
    Responder

    O modelo de animação nocturna massificado e descaracterizado que predomina actualmente no Bairro Alto deve-se não apenas ao “”Botellon” mas à falta de regras claras e transparentes, nomeadamente, quanto a licenciamento de estabelecimentos, modo de funcionamento e horários.Os estabelecimentos vendem todos bebidas para a rua, anunciam nas portas “Baldes” de cerveja, “Bebidas em tamanho XL” e “shot`s” a 1€, uma grande parte não tem condições de insonorização nem espaço de dança licenciados, mas têm concertos de música, DJ`s e colunas de som a emitir enormes ddécibeis para a rua.Muitos dos espaços desde a loja de roupa, galeria ou associaçâo cultural têm “bares de apoio” e licenças de prolongamento de horário concedidas pela CML, passando na prática a ter uma actividade principal (e mais lucrativa) de Bar.

  • Aqui Mora Gente
    Responder

    A visão do site “ERASMUS LISBOA” sobre os excessos do álcool e Ruído nas ruas do Bairro Alto: “The intersection between Travessa da Cara and Rua do Diário de Notícias is better known as the ‘Erasmus Corner’ – a meeting point for all those young foreigners who come to Portugal under the cover of this student exchange program. Since this cast of students is widely known for its experiments in furthering the limits of alcohol consumption, expect to see in this corner some of these jolly spirits screaming out for attention”.

  • Pensao Portuense
    Responder

    Bairro Alto, uma história concentrada http://t.co/dDpZqmR4IX

  • Pedro Guimarães
    Responder

    Em 1972 abri a minha primeira loja no bairro chamei-lhe Oblisco, depois negociei um pequeno espaço adjacente para a primeira loja de Teresa Lacerda ,foi dado o nome de Lib-láb.Pela mão de Teresa veio Manuel Reis que abriu a sua primeira loja na mesma rua Trav. Da Queimada.Estas três lojas foram o núcleo dedicado ao ramo da decoração.Todas diferentes mas complementares atraíram ao bairro um novo público.

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