“Vamos encerrar o Bacalhoeiro, porque sinto que chegámos ao fim de um ciclo”, diz Pedro Fidalgo, 41 anos, gerente do espaço cultural a funcionar há oito anos no primeiro e segundo pisos do 125 da Rua dos Bacalhoeiros. Desta quinta-feira até 30 de Abril, haverá festa todas as noites, com concertos de entrada gratuita. Até ao fim do mês, de quarta-feira a domingo, será uma boa oportunidade para fazer as despedidas do espaço e da associação cultural que marcou uma era. E foram tantos os artistas e bandas a querer participar neste adeus festivo que houve necessidade de acabar logo com as tradicionais sessões de cinema à quarta-feira.

Prova da grande afectividade cultivada por quem frequentou o Bacalhoeiro, ao longo de uma existência plena de actividades artísticas, diversão e convívio. Juntamente com a Fábrica de Braço de Prata e a já extinta associação Crew Hassan – que funcionou na Rua das Portas de Santo Antão e, depois, no Bairro Alto -, o espaço constituiu-se como ponta de lança de um grupo de lugares onde se inaugurou uma forma diferente de viver a cidade, aliando o convívio informal, a ambição cultural e artística, um certo engajamento político, o escapismo noturno, servindo ainda de base a activismos urbanos diversos, mas também como sítio para comer uma refeição ou uma sala de estar de estudantes e profissionais liberais.

Para isso, além do ambiente descontraído e da qualidade da música ambiente, também muito contribuia a posssibilidade de se navegar livremente na net através da rede gratuita de wireless – facilidade hoje vista como banal, mas que, na altura, se revelava um chamariz. “Lembro-me que, nessa altura, às 19h, já tínhamos estudantes à nossa porta, à espera que abríssemos, para poderem aceder ao wi-fi”, recorda Pedro Fidalgo, que é o último dos cinco fundadores da Associação Cultural Bacalhoeiro ainda vinculado ao projecto. Ligação que manteve, sobretudo, “com muito amor à camisola”. Até porque o retorno financeiro do estabelecimento nunca foi muito, admite.

Pedro acha que está na altura de virar a página, o tal “fim de ciclo”, não apenas da associação, como a nível pessoal. Apesar de não querer reclamar louros, admite que a forma de estar do Bacalhoeiro, vista como “alternativa” na altura em que o espaço abriu, se disseminou pela cidade. Espaços deste género, multiplicam-se pelos bairros da capital – tornaram-se trendy. “Em dez anos, mudou muita coisa na cidade. Na altura, se se quisesse ir a um espaço mais alternativo, estávamos reduzidos ao Bairro Alto. O Intendente era um lugar degradado, o Cais do Sodré também, não havia lá o Musicbox. Hoje, há muita escolha”, afirma.

 

Texto: Samuel Alemão

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