Há mais de dez anos que a Câmara Municipal de Lisboa está por cumprir o que prometeu. Pelo menos desde 2002, quando promoveu um polémico restauro ao painel de azulejos feito por Maria Keil para a Avenida Infante Santo, que a autarquia adia uma intervenção. A reabilitação foi tão desastrada que a artista, entretanto falecida, quis o seu painel arrancado: “Não vale a pena fazer outro. É melhor deitá-lo fora”, disse, nesse ano, ao jornal PÚBLICO. “Os azulejos de hoje já não são os mesmos e as cores ficam sempre diferentes”.

O painel, dedicado ao mar e feito em 1959, decora um paredão de um conhecido exemplo da arquitectura moderna portuguesa, situado no lado nascente da artéria. Faz parte de uma série de cinco, um dos melhores conjuntos de azulejaria contemporânea da cidade, assinados por artistas como Júlio Pomar e Alice Jorge, Carlos Botelho, Sá Nogueira e Eduardo Nery.

Exceptuado o do último autor, cujo trabalho é da década de 1990, constituem uma série exemplificativa da renovação que a arte do azulejo conheceu na década de 1950, inspirada por concepções funcionalistas da arquitectura e pelo aparecimento de novos equipamentos públicos, como parques urbanos ou o Metropolitano.

Todos sofrem dos efeitos do tempo, da incúria e do vandalismo, com afloramentos de ervas ou pichagens, mas o painel modernista em que Pomar trabalhou (na foto de cima) é o mais estragado. Faltam-lhe mais de 600 azulejos. Datada de 1958, a obra junta em tons suaves figuras populares de Lisboa: a menina debruçada na janela, o vendedor ambulante com o seu jumento, um rapaz que brinca descalço, um homem com cabazes de peixe ou um vendedor de castanhas, hoje só adivinhado, pois os azulejos que o compunham já caíram.

O estado de destruição visível na Infante Santo é bem conhecido dos responsáveis municipais. Em Outubro de 2007, o movimento Cidadãos por Lisboa viu a câmara aprovar, por unanimidade, uma proposta sua para o lançamento de “medidas urgentes de reposição, limpeza e manutenção dos azulejos”.

Na sequência do polémico restauro do trabalho de Maria Keil, a CML disse que iria intervir no painel de Pomar e Alice Jorge. Sem resultado. No Verão do ano passado, chegou a ser contactada para isso a ceramista e restauradora Isabel Colher. Conta ela no seu sítio (http://tardoz.wordpress.com) que, pouco depois, em Agosto, foi contactada pelo Departamento de Património Cultural da CML, dizendo que “as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades”. Ficou a vaga promessa de que a empreitada talvez fosse possível este ano.

Não será cedo, pois os estragos vão alastrando, sobretudo após um ano de tanta pluviosidade. O painel assinado Rolando Sá Nogueira, com os seus marítimos, exibindo várias zonas a descoberto (foto de baixo) está a ir pelo mesmo caminho.

 

Az Inf Sant 2

Painel de Rolando Sá Nogueira também corre risco, tendo perdido vários azulejos

Texto e fotografias: Francisco Neves

  • Fernanda Machado Ribeiro
    Responder

    É triste

  • José
    Responder

    QUE VERGONHA.

  • José
    Responder

    APROVEITEM O DINHEIRO, DO PROGRAMA QUE A CAMARA USA COM AS IDEIAS QUE OS LISBOETAS DÃO “ORÇAMENTO PARTICIPATIVO”,Está a decorrer AGORA,este programa de ideias para a cidade.

  • AZUL E VERMELHO UNIP. LDA
    Responder

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