Avalanche turística está a destruir qualidade de vida na Baixa, dizem residentes

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

Carla Rosado

Fotografia

URBANISMO

Santa Maria Maior

16 Março, 2015

Atraídos pela centralidade e cosmopolitismo dos quarteirões pombalinos, foram vários os que para ali se mudaram, nos últimos anos. Houve quem visse nesse movimento uma prova inequívoca do estancar do despovoamento da Baixa, que aconteceu ao longo de décadas. Mas a revitalização comercial trazida com o turismo está a transformar num inferno o quotidiano dos que acreditavam ter ido viver para uma zona de sonho. Uma questão de expectativas ou uma realidade complexa? Talvez ambas.

Os olhos de Joana Nogueira, 28 anos, reluzem quando se lhe pede para explicar o que a trouxe para a Baixa lisboeta, há três anos, vinda de Alfragide. “Teve que ver, sobretudo, com a vida cultural e social a que aqui se tem acesso. Além disso, e por causa disso, grande parte dos meus amigos já viviam aqui”, diz a jovem empresária, formada em sociologia e que trabalha em Queluz – razão pela qual anda sempre em sentido inverso ao da temível hora de ponta do IC19. “Se, um dia, vier a comprar um apartamento, gostava que fosse na Baixa”, assegura a residente.

Joana partilha com um amigo o arrendamento de um apartamento na Rua de São Nicolau. Também ele, António Matos, 31, para ali se mudou para “estar perto de amigos e duma vida cosmopolita”. “Procurava um sítio civilizado, com oferta cultural e lúdica interessante e viva. A Baixa teria tudo isso e não teria a ‘inabitabilidade’ do Bairro Alto ou do Cais do Sodré à noite. Para quem realmente entende o que é viver numa cidade, numa Lisboa desprovida de adequada mobilidade ‘sustentável’, viver perto de tudo significa viver no centro”, afirma este médico, que trabalha em Almada, para onde se desloca de bicicleta e de cacilheiro.

Para além de amizade, do tecto e dos motivos para terem escolhido viver no coração da capital portuguesa, Joana e António partilham, porém, outra coisa: o enorme descontentamento pelo que, entendem, é o progressivo degradar da qualidade de vida nesta zona da cidade. “Tem piorado muito, desde há um par de anos, sobretudo no que toca ao estacionamento abusivo e à forma como o turismo está a ter um impacto negativo na vida das pessoa que aqui vivem”, considera Joana, que se manifesta igualmente muito insatisfeita com a falta de higiene do espaço público.

ocorvo_16_03_2015_02

Joana Nogueira está desiludida com o que considera ser a falta de atenção da câmara e da junta.

“Tinha uma ideia, se calhar algo ingénua, que, sendo este o centro da capital do país, o cenário seria um pouco mais civilizado”, diz a residente. É que, além do lixo – “deixa-me louca”, desabafa -, ela fica sobremaneira impressionada com o que considera ser a passividade das autoridades (câmara, Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, PSP e Polícia Municipal) pelo que aos seus olhos são as constantes violações do espaço público: falta de limpeza, estacionamento abusivo, ruído, “massificação da exploração turística” ou tráfico de droga. Críticas que são comuns a muitas das pessoas que, nos últimos anos, foram para ali morar, em busca do que julgavam ser um privilégio.

Durante as últimas três décadas, a “decadência da Baixa” foi sendo apresentada e debatida na opinião pública como um dado irrefutável. Dando eco de um fenómeno de migração populacional da cidade de Lisboa para a sua periferia – iniciado na década de 1970 e para o qual contribuíram factores como a velha Lei das Rendas, a massificação da construção nos subúrbios, o aumento exponencial do parque automóvel ou a liberalização do acesso ao crédito bancário -, tal situação era frequentemente abordada pela comunicação social. Até se tornar parte da agenda política, sobretudo em época de eleições autárquicas.

ocorvo_16_03_2015_03

Aos estabelecimentos icónicos, muitos deles seculares, que foram fechando – e têm continuado a fechar -, juntava-se assim o muito acentuado envelhecimento da população residente. A não renovação demográfica fez com que as freguesias daquela área passassem, em poucas décadas, a ser das menos habitadas e mais envelhecidas de Lisboa. “A Baixa é um deserto à noite”, ouvia-se com insistência. Já aquando do grande incêndio do Chiado, de 25 de Agosto de 1988, foram diversas as vozes a relacionar as proporções e os consequentes estragos atingidos pelo sinistro com aquela realidade. Com prédios vazios, tardou que se desse o alerta para um incêndio que deflagrara de madrugada.

O processo de adormecimento da zona foi-se acentuando, até ao final da primeira década deste século – quando, por fim, se começaram a fazer notar no espaço público os efeitos do plano de reabilitação do Chiado assinado pelo arquitecto Siza Vieira. Aos poucos, passavam a sentir-se sinais em sentido contrário ao que parecia ser um processo de inabalável decadência. Atraídos pela centralidade e pelam nobreza dos quarteirões pombalinos, novos moradores foram chegando. Ao mesmo tempo, e enquanto fechavam lojas com muitos anos de vida, abriam outros estabelecimentos comerciais, muitos deles mais sintonizados com um estilo de vida contemporâneo.

Muita dessa renovação das lojas foi, em parte, impulsionada pelas saídas forçadas de antigos comerciantes, devido à nova Lei do Arrendamento Urbano, redigida pelo actual Governo e entrada em vigor no final de 2012. Incapazes de fazer face às novas rendas – muito superiores aquelas que pagavam até aí, inalteradas há décadas -, os donos dessas lojas antigas foram encerrando portas e, assim, dando lugar a novas. Tal dinâmica foi não só consequência da “Lei das Rendas”, mas também do enorme incremento da actividade turística verificado nos últimos anos. A esmagadora maioria das lojas entretanto abertas apontam claramente às hordas de turistas que desaguam na Baixa.

Uma realidade sentida também na conversão diversos prédios em hotéis – aproveitando os andares acima do solo que, até aí, haviam funcionado como habitação e escritórios. Têm surgido relatos de que, a coberto da revisão do quadro legislativo do arrendamento, algum desse investimento no turismo estará, na verdade, a levar ao surgimento de uma pressão dos senhorios sobre os velhos inquilinos para que abandonem apartamentos onde vivem há décadas (com rendas muito baixas). Dando assim lugar a novas unidades hoteleiras. Em paralelo, abundam lojas de bugigangas turísticas, vendendo Nossas Senhoras fluorescentes e camisolas do Cristiano Ronaldo. É a isto que muitos chamam “descaracterização da Baixa”.

ocorvo_16_03_2015_04

“A qualidade de vida para as pessoas que moram na Baixa está a agravar-se muito rapidamente. Nos últimos dois anos, houve muitos aspectos que pioraram imenso, como o estacionamento abusivo, o ruído, o lixo ou a abertura de lojas de fraca qualidade, sempre viradas para captar dinheiro aos turistas”, queixa-se César Laia, 44 anos, e que vive na Rua dos Bacalhoeiros há cerca de quatro anos. Foi dos primeiros a fazer parte do movimento de aparente retoma populacional da Baixa, quando há uma década se mudou para a Rua dos Douradores.

Na altura, fê-lo pelos mesmos motivos que Joana e António. “Aqui, estou perto das coisas que me interessam”. Tal como eles, também César trabalha fora de Lisboa. A centralidade daquela zona, aliada à abundância e qualidade de acesso aos transportes públicos – que ele utiliza diariamente -, faz parte do apelo da mesma. Mas o encanto já não tem a força de outros tempo, admite o investigador científico. “Eu gosto muito desta zona, mas as coisas mudaram muito”, afirma o morador, que, por estar tão desagrado, considera seriamente abandonar a Baixa.

“Se alguma coisa me indicasse que as coisas iam melhorar, não mudaria. A gota de água foi, em meu entender, a tentativa de transformar a Baixa num parque de diversões para turistas, com todo este circo montado à sua volta”, queixa-se. “O mais grave é o ruído. Criou-se aquela ideia de estar sempre a fazer eventos na Praça da Figueira, com feiras e animação permanentes. A final da Champions, nesse aspecto, foi horrível”, recorda César Laia, que contempla com amargura a disseminação de veículos ligeiros usados pelos turistas: tuk tuk, segways, “go-cars” enxameiam as ruas da quadrícula pombalina, conferindo-lhe a tal parecença com um parque temático.


ocorvo_16_03_2015_05

Facto que está a deixar muita gente incomodada. “Com o turismo a aumentar, aumenta a vontade de investir em Lisboa. O que não é mau. Tem é que ser feito de forma sustentável. A reabilitação da Baixa não pode ser feita à custa deste investimento. Se assim acontecer, a Baixa será um hotel gigante, que ninguém quererá visitar… O turismo que atrai e atrairá mais pessoas a Lisboa não é o turismo de Albufeira e Quarteira”, considera António Matos. “Quem procura Lisboa procura vida cosmopolita numa cidade típica, de pessoas, de bairros, de autenticidade, de originalidade”, diz, fazendo notar o facto de, na sua rua, nos últimos meses, terem aberto dois hotéis.

António considera que está a diminuir a habitabilidade de uma área que, até há pouco tempo, ele via como privilegiada. E isso tem que ver “com o lixo e a sujidade inacreditável, com o desrespeito constante pelo património cultural edificado, com o desrespeito pelas regras básicas de trânsito (carros a toda a hora estacionados em cima de passeios e em zonas pedonais), lojas de comércio tradicional destruídas”. E, agastado com o que considera ser a passividade da Câmara Municipal de Lisboa ante a rápida mutação daquele território, critica-a porque “autoriza tudo o que signifique dinheiro rápido para os seus cofres e a imagem de reabilitação de prédios devolutos a curto-prazo”.

ocorvo_16_03_2015_06

Em Outubro de 2013, na sequência da reforma administrativa da cidade, o número de freguesias de Lisboa foi cortado para metade, tendo a Baixa passado a fazer parte da nova freguesia de Santa Maria Maior – agregou uma dúzia das antigas, abrangendo aquela zona, mas também Alfama, Mouraria, Chiado e Castelo. A nova junta – liderada por Miguel Coelho (PS) e cujos serviços se instalaram no edifício do novo Elevador do Castelo, ligando as ruas dos Fanqueiros e da Madalena – herdou assim um território com velhos e novos problemas. E responsabilidades antes detidas pela câmara, como a limpeza e a gestão do espaço público.

Uma área que é particularmente visada pelos residentes. Tanto Joana Nogueira, como César Laia ou António Matos julgam ser este um assunto a necessitar de urgente resolução – “A questão do lixo e higiene urbana é escandalosa”, diz António. Mas o mesmo sucede com as restantes componentes de gestão do espaço público, como o estacionamento abusivo e o que consideram ser o abastardamento dos espaços comerciais e das zonas em redor, rendidas ao mais imediato lucro turístico – muito facilitado pela recente liberalização do licenciamento.

Algo que incomoda sobremaneira quem para aqui se mudou, sabendo que escolheu morar no coração da capital, é o assumir-se de forma velada que este é o preço a pagar. “Não quero que a Baixa esteja fechada como um museu, nem transformada numa espécie de resort turístico. Mas, se se reduzir a possibilidade de circular de automóvel e de estacionar na zona, isso vai ter consequências”, sugere César Laia, lembrando que há centros históricos de muitas cidades europeias onde os automóveis não entram ou fazem-no de forma condicionada.

Tal como César, também António Matos está tão descontente com este cenário que vê como muito provável a possibilidade de abandonar a zona. “Sair todos os dias de casa e assistir a cenas decepcionantes dá-me vontade de sair… Mas não de Lisboa, mas de Portugal, porque acho que se é assim na Baixa, não quero pensar como será noutros sítios”, critica. E nem a ele, nem a Joana, escapa o facto de os próprios polícias estacionarem os carros em cima do passeio ou em segunda fila em frente à nova esquadra da Rua de São Julião.

Joana Nogueira quer continuar a viver na Baixa, apesar de todas as irritações diárias. No entanto, está muito apreensiva com o que parece ser uma tendência inabalável – o jornal Expresso de 24 de Janeiro dava conta dessa transformação radical, num artigo intitulado “Baixa de Lisboa ‘irreconhecível’ em 5 anos”, no qual agentes do sector imobiliário reconheciam o enorme impacto da Lei do Arrendamento na dinâmica de regeneração em curso. No mesmo texto, tais agentes referiam a inevitabilidade do surgimento de novas unidades hoteleiras, comércio do segmento “médio-alto”, mas também unidades residenciais.

Por isso, Joana diz: “Não tenho nada contra os turistas, mas, dentro de alguns anos, eles vêm cá e o que verão será, sobretudo, hotéis e lojas feitas para turistas. Não restará nada de autêntico”. Além disso, nota Joana, ao mesmo tempo que vão surgindo lojas novas, a Baixa apresenta falhas significativas para quem quer apenas lá viver. Continua, por exemplo, a ser uma das poucas zonas da cidade onde, pasme-se, não existe ainda recolha selectiva de lixo – a não ser a recolha de cartão das lojas.

Algo que deverá mudar em breve, segundo Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (com quem O Corvo falou já no final de Janeiro). O autarca admite a existência de “insuficiências” na limpeza, mas refuta que “as coisas estejam assim tão mal” – “até temos recebido elogios nesse campo”, diz – e recorda a responsabilidade partilhada entre junta e câmara neste sector: se à junta cabe assegurar a varredura e a lavagem das ruas; a remoção do lixo é uma competência da CML. O trabalho nas questões de limpeza mereceu um recente investimento por parte da autarquia por si liderada, nota, através da compra de três viaturas destinadas à remoção de resíduos.

Mas Miguel Coelho diz que, no que se refere à recolha selectiva de resíduos urbanos (RSU), obteve a garantia por parte do vereador da Higiene Urbana, Duarte Cordeiro, da criação de um sistema de triagem de RSU adaptado às particularidades da zona. “A câmara vai implementar uma rede de ecopontos e mini-ecopontos”, explica, lembrando que os prédios das zonas históricas, como é o caso de Alfama, Mouraria e Baixa, não têm condições para acolher os três caixotes (orgânico, papel e embalagens), como sucede na maior parte da cidade. O autarca critica, contudo, “a tendência lamentável” que muitos cidadãos têm de colocar lixo indiferenciado onde não devem.

ocorvo_16_03_2015_07

Miguel Coelho, presidente da junta, considera que o turismo trouxe uma nova dinâmica à Baixa.

Em relação ao estacionamento, o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior anuncia também novidades, nomeadamente através da proposta entregue à CML para a criação de mais lugares para residentes na Rua da Prata. A concretizar-se tal medida – que prevê o surgimento de quatro dezenas de lugares em dois quarteirões -, a mesma constituir-se-á como uma novidade absoluta num dos principais arruamentos da Baixa, e onde os automóveis não podem parquear há décadas.

Sobre o peso que a actividade turística vai ganhando no território por si administrado, Miguel Coelho encara-o como uma inevitabilidade. “É coisa que está a montante da junta. Não somos nós que definimos as políticas para a cidade, mas sim a câmara. Mas temos de notar que não há nenhum centro histórico de uma cidade europeia que não tenha turismo”, afirma o autarca. “O turismo é fundamental para a sustentabilidade das pessoas que cá vivem, cria emprego. Muitas empresas só existem porque há turismo”, sustenta.

“Temos pedido à CML para fiscalizar essas lojas de bugigangas”, informa Miguel Coelho, que defende a criação de “um certificado de qualidade” para o comércio da zona. Esse selo de garantia comercial, defende o presidente da junta de Santa Maria Maior, em conjunto com um alteração de regulamentos e de disposições camarárias, iria “desincentivar a fixação desse género de comércio mais desqualificado” – embora reconheça que muitas destas lojas tenham surgido em consequência das dificuldades financeiras de muitos senhorios, que prefiram ter os espaços ocupados e assim ganharem algum dinheiro.

O autarca considera que “o comércio tradicional deve coexistir com o novo comércio, com as start-ups e os jovens empreendedores”. “É bom que esta não seja só uma zona de lojas tradicionais, como também não pode ser só uma freguesia de idosos”, diz, sem deixar de admitir, todavia, algum desconforto face ao surgimento de numerosas lojas de características indistintas e que vendem todas as mesmas recordações turísticas de baixa qualidade – as tais das Nossas Senhoras e das camisolas do Cristiano Ronaldo.

MAIS REPORTAGEM

COMENTÁRIOS

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografias & Fotografia

Paula Ferreira
Fotografía

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Send this to a friend