As Avenidas Novas estão ao abandono, mas suscitam afinal o interesse de muita gente que este sábado participou numa visita organizada pelo Fórum Cidadania LX. Mais de 50 pessoas serpentearam a pé por aquela zona da cidade, num passeio guiado por Raquel Henriques da Silva.

 

Texto: Fernanda Ribeiro    Fotografias: David Clifford

 
A ausência de normas arquitectónicas no projecto que em finais do século XIX e princípios de XX foi desenvolvido em Lisboa, com a extensão da cidade às Avenidas Novas, deu a esta zona uma fragilidade que pode ter aberto caminho à forma descuidada e cobarde como tem sido tratada nas últimas décadas.

 
Esta é a opinião da historiadora Raquel Henriques da Silva, que este sábado orientou um passeio pelas Avenidas Novas, no qual participaram mais de 50 pessoas interessadas em conhecer a história deste património que a cada dia vai desaparecendo.

 
Os exemplos de falta de cuidado, abandono e esperteza saloia estão à vista de todos em muitos edifícios, seja logo na Praça do Saldanha, seja ao longo da Avenida da República, ou nas diversas artérias que a cruzam. Neste passeio, foram sendo ilustrados a passo e passo, nas janelas esventradas de alguns, à espera de cair de vez, como se viu na Filipe Folque, ou no puro abandono, como na Avenida da República.

 
“Não havendo no projecto inicial normas de cérceas, ou de unidade estilística, tornou-se mais fácil vir para aqui fazer remodelações e demolições, sem rei nem roque”, disse a historiadora, para quem o projecto urbanístico das Avenidas Novas é de grande qualidade e justifica que as instituições e os promotores imobiliários lhe prestem maior atenção.

 

 

visita guiada patrimonio de Lisboa

 

“Falta de coragem e cobardia é o que vejo aqui, faz-se sempre à socapa. E por mais PDMs e planos que haja, a cidade cresce sem que haja discussão pública”, referiu Raquel Henriques da Silva, mal a visita começou.

 
O passeio iniciou-se no Saldanha. E logo ali a historiadora apontou exemplos de desregramento, como o do edifício, ainda em obra, próximo da Rua Praia da Vitória, cuja cércea ultrapassa já a dos restantes na praça.

 
Projecto eclético, em que se juntam pequenos palacetes, moradias e prédios de rendimento, alguns deles ao gosto Arte Nova e Deco, as Avenidas Novas foram construídas por “uma sociedade de enriquecidos de África”. Na altura, interessava à câmara vender rapidamente os loteamentos. A Praça ”insere-se nessa política do laissez faire, laissez passer, do liberalismo”.

 

Alguns belos exemplares, que ilustram o ecletismo estilístico e revelam ainda marcas do seu tempo, permanecem no quarteirão da Avenida Duque de Ávila, 18 a 32, do arquitecto Norte Júnior e, um dos pontos do itinerário desta visita em que participou também Vítor Cóias, engenheiro, especialista em reabilitação.

 

Nesse quarteirão, existem os chamados “gaioleiros”, um tipo de construção que não cumpriu já as regras anti-sísmicas do pombalino e que durante a visita suscitou discórdia e até discussão entre a historiadora e o engenheiro. Com Vítor Cóias a considerar “de fraca qualidade” os gaioleiros, estruturas que “em geral não dão as garantias do pombalino” e Raquel Henriques da Silva a defendê-los. “Tenho de contrariar este argumento, até porque ao longo do tempo ele tem servido para validar as demolições. E tanto os gaioleiros têm qualidade que ainda cá estão”, dizia a historiadora, apontando alguns sobreviventes na Duque de Ávila e na Elias Garcia.

 
Nas Avenidas Novas encontram-se obras dos arquitectos Pardal Monteiro, Norte Júnior, Álvaro Machado, Ventura Terra. Muitos são prémios Valmor, mas essa distinção nem sempre os tem poupado. Há edifícios a pedir clemência, como o existente no gaveto da Avenida da República com a Elias Garcia, do arquitecto Norte Júnior.

 
No total, já não serão assim tantos a recuperar, porque há cada vez menos. “São poucos. Uns 100 a 150”, afirma Raquel Henriques da Silva, garantindo que vai alertar o presidente da Câmara Municipal de Lisboa para esta “desgraça”.

 
“Eu não tenho partido, mas, desgraça por desgraça, aceitei fazer parte da comissão de honra dele. Agora vou-lhe apresentar uma lista de património a tratar”, gracejou.

  • MovV.org
    Responder

    Ausência de normas nas Avenidas Novas tem facilitado degradação http://t.co/UuGDggycBB

  • António Rosa de Carvalho
    Responder

    A Revolta de Instambul, também contra a destruição sistemática do seu Património Arquitectónico.
    O que se passa em Instambul ter-se-á alargado às questões Políticas e de Liberdade de Pensamento de um Regime que se diz Liberal-Islamita, mas que se revela como autoritário e com tendências camufladas de “Islamização”, encaputada mas progressiva, numa Turquia com uma profunda tradição Laica vinda de Ataturk.
    Mas o que tem sido pouco divulgado é que a revolta espontânea, provocada pela ameaça de destruição de um Parque e das sua 600 árvores, reflecte um muito mais vasto proce…sso de destruição sistemático do Património Arquitectónico do Centro Histórico de Instambul já denunciado pela Unesco (ver artigo em baixo).
    Portanto algo comparável com o que se passa em Lisboa em património ancestral nos Bairros Históricos, nas Avenidas Novas e agora já alargado à área – Avenidas/ Alvalade/ Duarte Pacheco – com a intervenção no edifício de gaveto Almirante Re…is / Praceta João do Rio … durante os mandatos de António Costa e com a Liderança e Visão Destruidora de Manuel Salgado e “sus muchachos”, Aires de Mateus e Byrne.
    Só que há uma diferença fundamental … Enquanto os Turcos se manifestam desta maneira … as nossas “forças cívicas” organizam Excursões diletantes e bem comportadas, conduzidas por Académicos, que enquanto denunciam e ilustram situações, dizem fazer parte da Comissào de Honra Eleitoral do “Candidato” e que … “vão fazer” uma Petição Bem Comportada …
    António Sérgio Rosa de Carvalho

    – Istanbul heritage at risk, says report

    – O desafio da Praça Taksim
    Editorial / Público 02/06/2013
    – Turcos cansados de Erdogan saíram à rua em Istambul e ele recusou-se a ver
    – Mais jornalistas presos que no Irão

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